Terça-feira, 25 de Novembro de 2003

Estou me demorando a lançar a supersérie Aquisições da Feira do Livro por pura falta de tempo. Como forma de me redimir [ou não, simplesmente como um truque sujo e barato de um vagabundo usurpador que quer lhe enganar] da falta de inserção de críticas literárias aqui [ou comentários engraçadinhos e desprezíveis], resolvi juntar o útil ao agradável.

Uma das aquisições que fiz na feira foi o livro de Paulo Scott, Ainda Orangotangos. Não, eu ainda não li. Mas dei uma folheada, cheirada e alisada em sua lombar, como cabe a cada livro adquirido dentro da cerimônia que lhes ofereço. Como não li, ainda, portanto, visito a Família, e coloco aqui, no Suburbana, pela primeira vez, as críticas que fiz de todos os livros da Livros do Mal, menos o Hotel Hell, do Joca Reiners Terron, que tenho mas ainda não li, também.

Aqui posto apenas as críticas, mas a matéria completa, incluindo a história da editora supracitada, é possível encontrar, ainda, no site Digestivo Cultural.


Dentes Guardados, Daniel Galera, 88 págs. A prática que a publicação regular na Internet proporcionou a Galera nos livrou de encontrar em seu livro de estréia vícios comumente encontrados em escritores que se aventuraram pela rede – ainda mais embrenhando-se pelo conto, pequena grande pérola da literatura, onde o timming é tão necessário quanto o impacto. A narrativa é simples, não se encontra aqui grandes pretensões de revolução lingüística, o que torna ainda mais difícil a tarefa de contar boas histórias sem cair na banalidade. É a simplicidade que dá a tônica em um livro que conquista gradativamente, com personagens identificáveis e reconhecíveis em qualquer submundo urbano. Da introdução através de um defloramento, em "Amor Perfeito", passeando pela eterna incomunicabilidade dos relacionamentos em "Intimidade", vai-se caminhando para um crescendo que atinge o estranhamento em "Natureza Morta" – lento relato de uma noite de envolvimento de um jovem com uma “coroa”. O livro atinge o ápice nos contos "Triângulo" e "Escrava Branca". O primeiro põe por terra clichês convencionais em triângulos amorosos, com uma alternância de narradores e controle narrativo difíceis de encontrar em livros de estréia. Já "Escrava Branca" é direto como o anúncio colocado pelo narrador: se o que se quer é a praticidade de uma relação de benefício para ambas as partes, mesmo cerceada pelo mercantilismo de uma prestação de serviços sexuais, o resultado nem sempre está sob controle afetivo e o final pode não ser muito agradável. De dispensáveis "Os Mortos de Marquês de Sade", relato desinteressante sobre as aventuras de jovens em uma comunidade onde os adultos se comunicam exclusivamente em alemão e, até pelo fato de ser narrado em primeira pessoa, denuncia quase claramente algum episódio no qual o autor tomou parte. Por fim, "Será numa Quinta-Feira" seduz pelo tom agradavelmente poético que permeia todo o texto, mas decepciona pelo caráter quase de crônica que, por final, o texto acaba apresentando. No entanto, são pequenas irregularidades que, em momento algum, minimizam a qualidade deste ótimo trabalho de estréia de Daniel Galera.

Ovelhas que Voam se Perdem no Céu, Daniel Pellizzari, 88 págs.
O que mais surpreende no livro de estréia de Daniel Pellizzari é realmente a facilidade de se encontrar estranhamento e anti-convencionalismo em cada texto. Percorrendo um tortuoso mundo de estupefação ante as bizarrices diárias a que estamos todos expostos, Pellizzari não apresenta necessariamente moral em suas histórias: as coisas acontecem em seu estranhamento porque simplesmente têm de acontecer. Daí uma estranha relação entre um proprietário de apartamento e suas aranhas, o que acaba contribuindo para que bebês comprados em sinais de trânsito, e assados para um jantar romântico, não sejam assim a coisa mais inusitada do mundo. O bom neste livro é isso: a tamanha naturalidade na narração de estranhezas, em que passamos a crer; não nos achamos, portanto, nem "superiores" nem "indiferentes". "O vôo das Ovelhas" é um exemplo nesse sentido: talvez a normalidade esteja naquele que busca, através da loucura, alguma réstia de vida social. E os loucos talvez sejam aqueles espalhados em cada esquina, a vender vales-transportes e relógios do Paraguai. Mas nem só de bizarrices se faz um livro como Ovelhas.... "Jardim de Infância" é uma deliciosa historieta que percorre a ingenuidade infantil e encontra doce justificativa nas ações de uma menina de quatro anos. "Um Hamster" consegue tornar tal roedor um narrador de seus tristes dias em uma gaiola, "Gravidade" torna comum o vislumbre de gatos, vacas e velhas que despencam, sem explicação, do céu. É sensacional que o conto mais bem acabado do livro o feche: "Ponto de Fuga" faz um homem desaparecer por inteiro, se engolindo pela boca e ânus e dando adeus aos seus dias de ovelha sem nem mesmo um bilhete de despedida.

Vidas Cegas, Marcelo Benvenutti, 176 págs.
69 são as vidas apresentadas em pequenas narrativas aqui, por Benvenutti. Não necessariamente as vidas de 69 pessoas. Ainda que comece relatando a vida de Jonas, de Joana, de Ernesto, de Ulisses, entre outros, em dado momento Benvenutti parece ter se cansado de tantos pequenos personagens e enveredado pela "vida do Ator", "do Bar", "das Mulheres Chuvosas" e até "do Amor". O resultado não é dos mais felizes, porém. Ainda que o autor acerte em alguns momentos, a sensação que fica é a de experimentação constante. Coisa não muito indicada para o formato livro, já que Benvenutti teve e continua tendo a sua trajetória de "experimentador" através dos fanzines A Folha Mutante, TV Eye e atualmente K Zine. Não vamos dizer que o resultado seja de todo ruim; o problema maior é o excesso de minibiografias sem qualquer densidade, facilmente esquecíveis e com um ou outro acerto mínimo que faça valer a pena voltar à página e reler. Marcelo Benvenutti escreve bem. Tem a manha e o jeito de escritor romântico; brinca de narrador com suas observações recheadas de argúcia; chega a apresentar situações interessantes como em "A Vida de Fábio" (relato das atuais relações digitais em meio a um mundo parado por pessoas dormindo em todos os cantos). O problema é que, salvo uma ou outra história, ou alguma solução originalíssima encontrada por Benvenutti, o resultado é cansativo, já que algumas histórias parecem ter encontrado suas soluções devido ao próprio cansaço do autor.

Ou Clavículas, Cristiano Baldi, 112 págs.
Cristiano Baldi é um engraçadinho. O que pode ser bom ou ruim dependendo do tipo leitor que ele encontre pela frente. O fator positivo é que o próprio autor parece não se levar a sério e brinca o tempo todo com uma densidade tão desgastante de escatologia e sexo sem finalidade, que ele caracteriza de uma maneira certeira os escritores que abundam em blogs nesta geração interneteira. Sua fixação por "punheta", "pau" e "buceta" chegam aos limites do absurdo. É um escritor pop no sentido mais vulgar da palavra, já que recheia seu texto de citações ordinárias que vão desde a Avon até o Fantástico, passando por lojas Renner, Madonna e até Fábio Junior. Debocha sem constrangimento de judeus e católicos, e trata os ordinários como seus parceiros mais constantes. Se dá bem, entretanto, em alguns momentos: quando se sente que a labuta do moço sobre o texto foi bem maior. "Meia Briga e Alguns Poemas" atinge tamanha frivolidade que até alcança alguma densidade. "Boa Festa" tem uma solução nonsense de uma qualidade considerável. É, enfim, um escritor em começo de carreira com uma grande caminhada pela frente. Livrando-se dos ranços adolescentes, conseguirá desenvolver textos mais bem acabados e também mais dignos de publicação.

Húmus, Paulo Bullar, 104 págs.
Bullar se fixa no mundo animal neste seu livro de estréia. Apresenta-nos os elefantes, girafas, macacos, ratos e cágados arteriais, que passeiam sem muita finalidade na descrição de uma floresta e de seus habitantes. Um pouco mais além, encontramos os humanos. Se os seres humanos não se relacionam com os animais propriamente ditos, têm o mesmo comportamento deste e caminhando para uma maior identificação. Em "A Filha da Vaca", por exemplo, o autor retrata a ordinária condição (biológica?) da mãe da personagem principal. "Abominável Humano" põe uma mulher a botar ovos de lagarta. São textos vagarosos e curtos, cujo ponto positivo é causar certa estranheza e lançar um olhar diferenciado sobre a natureza humana.



O Livro das Cousas que Acontecem, Daniel Pellizzari, 115 págs.
Este livro é a certeza definitiva de saber que Pellizzari se encontra em território seguro ao transitar por temas que podem beirar a esquisitice e o mondo bizarro. As histórias não precisam de explicação, não são cheias de moral, não tem um porquê. O sêmen pode ser a doce redenção de um limpador de cabine de sex shop, da mesma maneira que pode ser a marca a ser deixada pelos imóveis visitados por um divorciado à procura de um apartamento. Metarrealismo é, realmente, a melhor definição para designar o perturbador mundo destas cousas todas, ainda que revestidas por bastante sensibilidade, e que acaba por nos levar aos limites das sensações: o nojo, o absurdo, o irreal adquirem feições verossímeis. A descrição do fantástico não é tarefa para qualquer um, encontrou ícones como Kafka, García Márquez e Cortázar. No Brasil, Campos de Carvalho e Moacyr Scliar também passeiam com certa desenvoltura por esse universo. Daniel Pellizzari o acolhe com o carinho e o respeito necessários, sem medo da ousadia e da decepção. Tamanha é a “possibilidade” de realização dessas fábulas que o tom geral é quase jornalístico. As histórias contadas aqui funcionam como um casaco virado do avesso: é preciso a estranheza das costuras aparentes, dos bolsos revirados, para se dar conta do "outro lado", que não é assim tão essencialmente correto.

Até o Dia em Que o Cão Morreu, Daniel Galera, 128 págs.
Existe algum mal em comprar um livro que em meia hora você terá terminado de ler? Por que? Porque a trama é tão envolvente que você precisa saber onde aquilo vai dar; nem que isso represente se atrasar para um compromisso que você tinha marcado. Afinal, do que se precisa realmente hoje em dia? Terminar um livro, ter um emprego, um apartamento vazio, um cachorro e um sexo eventual? Estas perguntas acabam percorrendo nossa mente enquanto não chegamos ao final de Até o Dia em que o Cão Morreu, estréia de Daniel Galera na narrativa longa. "Narrativa longa" é a melhor descrição e talvez a única, porque aqui não temos propriamente um romance, mas simplesmente uma história em que o que é preciso ser contado é. O que sobra são indagações tão valiosas quanto as que nos fazemos todos os dias. Recém-formado em letras, o narrador da história, de quem nunca ficamos sabendo o nome, mora em um apartamento sozinho no centro de Porto Alegre, onde a vista para o Guaíba parece ser o que de mais seguro ele tem. O resto é a eterna sensação de solidão e de distanciamento do mundo, mesmo daqueles que lhe parecem mais perto. Como Marcela, uma modelo que surge em sua vida e que, mesmo repleta de beleza e viço, não afasta o protagonista de uma cantilena de auto-destruição, embalada por doses maciças de álcool e cigarro. Por quê? Porque simplesmente ele não vê sentido em buscar um "sentido" para a vida. A sua falta de jeito (talvez o seu principal problema) não o impede, porém, de encontrar meiguice num cão vira-latas – a quem chama de Churras –, recolhido quando voltava para casa. O tom, quase sempre de contemplação, acaba servindo como a resposta que não se tem às mínimas questões práticas da vida.

Pensou umas duas vezes:
- Agora, vai!
Não se entristeu, no entanto, quando não foi.

Era um sujeito otimista.

Quando tu não tem certeza que alguém vai te cumprimentar, tu dá uma levantada na sobrancelha e olha pra ela quando vocês estiverem cruzando. Pode rolar um oi, e aí?, um oi, tudo bem?, ou ela ainda pode dar uma levantada na sobrancelha, por que também não tinha certeza se tu ia crumprimentar ela. São poucas as probabilidades dela vir te dar um abraço afetuoso e dizer upa!, mas não descartemos por completo tais chances. Afinal, se ela não te cumprimentar, tu ao menos só tinha levantado a sobrancelha, nem tinha dito um e aí, tudo bom? e ficado no vácuo, se sentindo um deprezado... Este é o medo podre que nos move e faz de nós cagalhões da vida social.

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2003


Domingo
Comprou uma daquelas calças de moletom que sempre deixavam o saco parecendo incrivelmente volumoso, por mais que o tamanho da calça fosse grande, ou por mais que puxasse a calça para baixo. Acostumado a usar calças jeans, resolveu de uma hora para outra que começaria a usar moletons, ao menos aos domingos, quando saia para comprar pão naquela padaria da atendente gostosinha. Moletons combinavam com tardes deprimentes de domingo. E meias soquetes brancas socadas pelos chinelos de dedo no meio dos dedos eram outro acessório que faria parte de seus hábitos dominicais. Não sabia se era mania ou se somente queria estar confortável aos domingos, mais do que em quaisquer outros dias.

Comia pão com chimia rindo com a boca aberta dos programas imbecis de domingo e pensava na guria gostosinha da padaria encostada no balcão, sem televisão (ao menos não tinha que ver os programas imbecis!), vendendo pão e chimia para os tradicionais fregueses de domingo e olhando o escasso movimento em frente à padaria. Pensou em levar um pedaço de pão com chimia para a guria, mas provavelmente ela o acharia louco, ou alguma espécie de imbecil. Viu que ela notou que ele passou a ir à padaria com aquela calça de moletom que deixava ele boludo. Por mais nova que a calça fosse, parecia sempre uma calça podre de dormir ou de ficar em casa comendo pão com chimia rindo com a boca aberta dos programas imbecis de domingo. Será que ela se impressionava com o tamanho de suas bolas sacudindo no meio daquelas calças de moletom? Ela fugiu com o olhar e perguntou se ele queria mais alguma coisa, ele disse que não, obrigado, e ele notou que antes de se virar para atender o outro freguês, ela ainda deu uma olhadinha para as calças de moletom dele.


As coxas de Sara
Sara puxou a sainha de crochê um pouco mais para cima e deixou à mostra suas coxas, dominadas por uma profusão daquelas bolinhas que brotam na pele quando a gente está arrepiado, seja de frio ou de excitação - como eu me encontrava agora. No entanto, a imagem da pele da galinha, cheia de bolinhas semelhantes às das coxas de Sara, deixaram meu pênis confuso entre manifestar-se conveniente e verdadeiramente, ou esperar pelo próximo incentivo que Sara estivesse interessada em oferecer-me. Por hora, resignei-me em molhar os lábios e constatar aquele gosto de cafeína extremamente adocicado e gosmento que uma lata de coca-cola tomada sem nada no estômago deixa em nossa boca. Bafo gosmento e profundo. Pedi para que o Jorge me trouxesse mais um refrigerante e fiquei olhando para Sara sem dizer uma só palavra. Aliás, fazia horas que não dizíamos uma só palavra um ao outro. Chegamos, pedi duas coca-colas. A de Sara continuava intocada, e, àquela hora, com certeza, quente e sem gás. Ela fazia uma cara estranha, retorcia-se um pouco na cadeira e emitia alguns gemidos que, por vezes, imaginava vir do péssimo rádio de Jorge, que estava invariavelmente sintonizado em uma destas emissoras que tocam de tudo o dia inteiro, para onde as pessoas ligam e pedem a música cantando.

Aquele clima era modorrento e preguiçoso, mas Sara não se manifestava e eu, na minha pachorra, fazia de conta que estava tudo sob controle.

Sara me olhava como se nos entendêssemos mutuamente, somente através de olhares, como em uma daquelas relações extremamente longas e cúmplices. Não éramos cúmplices. Éramos homem e mulher. E só.

Concluí que Sara me fazia cara de safada. Cara de puta. Conclusão que se acentuou quando ela passou a língua sobre o lábio superior, me olhando firme e levantando a sainha de crochê, deixando à mostra sua coxa com bolinhas de arrepio - ou de excitação, sei lá, e que me lembravam pele de galinha, mas mesmo assim me deixavam de pau duro.

Concluí que Sara queria dar uma trepada. Deixei o dinheiro sobre a mesa e levantamos. Acho que nos entendíamos bem.

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2003

Por que o grande problema, no final das contas, tem sido encontrar tempo para sequer COMEÇAR a leitura dos livros adquiros na Feira. Por enquanto, me contento em passar de noite na estante, dar uma ALISADA nas suas lombares, uma CHEIRADA na sua polpa e encantar-me com a ENERGIA CULTURAL que emana de suas entranhas. No más, chegando as férias aí, sou todo dedicado a estes meus queridos amiguinhos.

E vamos melhorar a qualidade do conteúdo desta casa de boa família! Pelo fim dos comentários levianos sobre estrelas da televisão e por mais literatura e cultura! Avante, irmãos!

Gracinha

Vou te cortar em pedacinhos, gracinha!Sim, parece revista de fofoca, mas é engraçado demais. A Hebe, indignada com com o adolescente que assassinou a estudante Liana Friedenbach, olhou para a câmera e falou: Eu vou fazer uma entrevista com você. Vou mesmo. Se me deixarem, eu vou. Mas eu vou armada. Eu saio de lá e vou para a cadeia. Mas ele não fica vivo.

É, a véia tá bem louca. E disse mais, que gostaria de cortar o adolescente em pedacinhos. O lance aconteceu no seu programa, quando recebia os pais dos dois adolescentes mortos e soltou esta pérola da indignação. Parece que pode ser processada por ferir a Lei de Imprensa, se igualando ao seu colega, Gugu Liberato. O Ministério Público vai dar a investigada.

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2003

"Err... Não foi bem assim..."

"Tudo um grande mal entendido! As coisas que foram ditas não foram daquela maneira, sou uma pessoa pública e sei que não posso responder esse tipo de pergunta." A retificação está no site da moça.

Diante do inquérito instaurado pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Policia Civil do Rio, por determinação do Ministério Público, Luana Piovani fez questão de esclarecer as recentes declarações feitas em relação ao uso de drogas. Estavam apurando se a menina andou fazendo apologia ao uso do cigarro do capeta pelo simples fato de declarar que gosta de dar uns tapas, de vez em quando.

A despeito das freqüentes campanhas de educação, sensibilização e prevenção, mais da metades dos brasileiros ainda acha que aids não mata.

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2003

Visita à Feira do Livro, ainda que prazerosa, sempre é desgostosa pelo simples empecilho financeiro que se faz presente e nos proibe, obviamente, de comprar a décima parte daquilo o que desejamos para aquele ano. Suprimi o prévio desconforto que me causariam visitas freqüentes à Feira e a não aquisição da totalidade de meus desejos a cada dia que fosse lá - e lombares de livros alisados, páginas cheiradas e outras espécies de manipulações literárias não compensariam meu pesar - por uma ida definitiva, em que me desfiz da responsabilidade que a atenção suprema com os gastos apontaria, para comprar tudo o que meu orçamento permitiu [ainda que em suaves parcelas]. No final das contas, me alegrou não ter restado nenhum sabor amargo que as compras inúteis acabam deixando em meu bolso. Pelo contrário, a certeza de ter gastado uma quantia considerável na compra de belas e duradoras obras, para o meu demorado e prazeroso deleite, me deixaram muito feliz, ainda que um pouco mais pobre. Querendo escalar um décimo da conotação poética que expressões deste tipo trazem consigo, realmente, a riqueza dos livros compensa a pobreza financeira que aquisição destes ocasionou. Compras bem feitas são a certeza feliz do dinheiro bem aplicado.

ESTOU LENDO

Uma mistura bem dosada de perversidade e lirismo é uma empreitada para poucos. No entanto, o "Vampiro de Curitiba", Dalton Trevisan, consegue esta inusitada composição em seu livro de estréia Novelas Nada Exemplares. Nada é comum neste livro, e nada precisa ser bizarro para adquirir contornos inimaginados para situações as mais banais. A linha nauseada da literatura, uma literatura que não procura salvar ou acusar o homem, mas apenas aproximá-lo de nossas vistas, fazendo com que constatemos nossa identificação com os noivos de província, com os bêbados ternos, com os tortos desdentados. Todos estes tipos passeiam pelos pequenos contos de Trevisan, com uma liberdade absoluta, traçando com desenvoltura seus dias de quase inevitável desgraça e tendência irreversível para o sofrimento. No texto escrito nas costas da capa e contra-capa [não nas orelhas - não há orelhas na minha edição de 1975, deste livro publicado em 1954 originalmente] Carlos Heitor Cony se entrega aos elogios. Trevisan é cruel sem ser malvado. Não permite aos seus personagens outro fim que não o que a eles estava destinado. É um maestro regendo a orquestra dos desvalidos - doces desvalidos. O clima é das famílias e habitantes da classe média baixa: moradores de pensão, noivas de subúrbio, enamorados de pequenas cidades. Gigi, louquinho, brinca com moscas, arrancando-lhes as asas; Betinho satisfaz o desejo da tia ao matar o tio Galileu, mas no final das contas é passado para trás. A Velha Querida é uma pequena obra de arte que penetra no tempo necessário, não mais e não menos, de uma visita ordinária ao bordel. Ou uma visita a um bordel ordinário? Em O convidado, um velho impotente deixa seus convidados à vontade para levarem sua mulher para cama. Depois deste livro e mais alguns, veio a fixação pelos minicontos, e agora Dalton Trevisan volta a ser assunto com o recém-lançado Capitu Sou Eu.

Em breve, em breve, aqui no Suburbana, os especiais Aquisições da Feira do Livro e Aquisições que Eu Gostaria de Ter Feito mas a Falta de Dinheiro Não Possibilitou [conhecido também como Estes Ficam Para o Outro Ano].

Quarta-feira, 12 de Novembro de 2003

Meu Deus!, fiquemos horrorizados por que Luana Piovani gosta de dar uns pegas! Ah, o mundo vai acabar, vai sim. Para mim, a declaração bombástica mesmo, foi que ela descobriu por que A JUVENTUDE quer vê-la na Playboy: "Quanto mais arreganhada possível... o foco é esse. É sexo. É a punheta. (...)"

Metrossexual, contração de heterossexual com metropolitano é a nova definição para o homem "moderno" que usa roupas de grife, discute as novidades da linha masculina de famosos produtos cosméticos e são capazes de fazer um ranking com os melhores centro de estéticas para realizar um lifting ou qualquer outra coisa que tenha a ver com esticar a pele para parecer mais novo e menos repleto de rugas. Não se sente constrangido em passar base nas unhas e trata os cabelos com cremes e xampus importados. Mas segundo ele, não, não morde a fronha. Esta nova categoria é um grande presente para as milhares de indústrias que já têm lucrado em cima da vaidade deste homem do novo século. Uma vaidade que ostenta com orgulho e que já vem dando o seu resultado até mesmo em produções de entretenimento. Em breve veremos aqueles calhamaços de livros de auto-ajuda sobre como se tornar um homem com pele mais macia, ou quais os lugares mais descolados para comprar o último lançamento em cremes para manter o pêlo da bunda sedoso. Enquanto estes ainda não vêm, quem aposta de maneira bem-sucedida no mercado é a Sony, com sua nova série Queer Eye for the Straight Guy , na qual um grupo de cinco homossexuais, com talentos que passeiam entre a arte culinária, a cultura, o estilo de moda, a decoração, entre outros, devem tornar um sujeito "bronco" em objeto de desejo das mulheres. Para isso, não devem hesitar em re-arranjar todo o guarda-roupa do marmanjo, mandá-lo podar as melenas, cortar o cabelo de dentro do nariz, entre outras peripécias, que, segundo os novos tempos torna-lo-ão mais atrante para as mocinhas que assistem à Sex and The City.

O termo "metrossexual" foi usado pela primeira vez em 1994 pelo escritor gay Mark Simpson, no artigo "Lá vêm os homens do espelho", publicado pelo jornal britânico "The Independent". O representante supremo e adepto-mor de tais particularidades é o jogador de futebol britânico David Beckham, que pinta as unhas, muda o corte e a cor do cabelo para combinar com suas roupas, gasta milhares de libras com produtos de beleza e confessou já ter usado algumas vezes as calcinhas da mulher, a ex-Spice Girl Victoria. Pois é.

Zuenir Ventura se derrete em elogios aqui por Porto Alegre. Quem vem tem as mesmas impressões: capital da cultura, cidade com maior qualidade de vida, mais arborizada, leitores por todos os cantos. Zuenir não foi diferente. Recebido por Luis Fernando Verissimo enquanto participava da feira do livro, apaixonou-se pelos jacarandás roxos que colorem a Praça da Matriz. Um trecho do seu texto:
Alguém já escreveu que em Porto Alegre “não basta para a pessoa ser cineasta. Ela precisa ser cineasta e escritor. Não basta ser advogado, médico, cozinheiro, jornalista. Não importa a ocupação. De um jeito ou de outro os porto-alegrenses têm de escrever. O resultado é uma avalanche de textos ruins”. É provável que haja uma “avalanche de textos ruins” em meio a uma quantidade tão grande de autores. Mas é assim mesmo. O que surgiu de bom já valeu a pena.
A pertinência chega a me comover. Mais, por aqui.

Terça-feira, 11 de Novembro de 2003

Por que, afinal, com os número dos mais vendidos na Feira do Livro, vemos que engrossam as vendas aqueles livros com maior apelo midiático? As pessoas, de maneira geral não compram aquilo o que lhes parece de maior interesse intelectual, mas sim o que está na "onda do momento"? Senão, vejamos. Estamos em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, estado que vive sob a hegemonia da gigante RBS. Sob a sombra do seu principal jornal, Zero Hora, emergem três figuras que são seus colunistas e são também - oh, coincidência! - os três principais títulos da categoria ficção, campeões de vendagem na Feira. Mas que isto, Alessandro? Você é um maldito invejoso. Deixa eles! Ao menos o povo lê! É, é verdade. E veja o que ele lê:

1)Perdas e Ganhos - Lya Luft
2)Cristal Polonês - Letícia Wierzchowski
3)Montanha Russa - Martha Medeiros

Sobre Lya Luft, apesar de ela ter se tornado uma colunista da Zero Hora, não há o que falar, por que é uma escritora com longa carreira literária e de uma qualidade há muito reconhecida. No entanto, sem querer contestar a qualidade das outras duas, o que se dá é um intensa procura por aquilo que está "na moda", os livros mais comentados, a coletânea das crônicas publicadas diariamente no próprio jornal e a continuação do sucesso televisivo. Não há busca. Mas aceitação instantânea daqueles que têm mais condição de veicular uma publicidade agressiva.

Acho que estou me tornando um maldito amargo.

Sem posts por que nada acontece, ou porque acontece tanta coisa que, assoberbado pela densidade, me confundo e me retiro ao ostracismo? A verdade é que os tempos são de tamanha quantidade de informação, que, mais do que filtrá-las, o grande mote é não se deixar confundir. Não bastasse isto, a Feira do Livro está instransitável, crianças correm atrás de palhaços e de bruxas e eu sofro nas caixas de saldo. São os dias de maior agitação de Porto Alegre e vamos cair de cabeça nesta festa enlouquecida!

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2003

TIM MAIA SORRI EM ALGUM LUGAR

Quando você entra, cuida para não tropeçar no palco logo à sua frente e para não estancar em frente à porta, caminho dos que chegam depois e, como você, têm que sofrer se acostumando com o minimalismo do lugar. Feito o reconhecimento, você dá uma olhada para a sua direita, onde, debaixo de um mezanino de madeira, refugiadas na sombra que convida à devassidão, menininhas de barriga de fora e pierciengs nos mais inusitados lugares, rebolejam, alteradas pela sonoridade funky que toma conta do lugar. Enquanto decide se fica por ali, se dá conta que os que entram, atrasados e aos borbotões, esbarram em você, enquanto você tenta se concentrar na virada de baixo do baixista enlouquecido Samambaia. A posição frente ao palco é ótima, a vista à sua direita é delícia, mas os marmanjos que esbarram em você não fazem parte, certamente, das experiências mais agradáveis da noite. Então, você caminha para reconhecer o ambiente, vê à sua frente, logo acima da banda, a bandeira gigante onde se pode ler Vermelho 23, deixando bem claro para ti em que lugar estás. Mais alguns passos, e tu reconheces as gurias, as gurias te reconhecem, alguns beijos e você sabe muito bem que está ouvindo Proveitosa Prática quando Márcio Leonardo e Telmo começa a ser executada. Você pode se permitir, neste momento, se fascinar. Mas não perca totalmente o controle de seus sentidos, por que, se vacilar, você tropeça. No palco. Tá, pode fechar os olhos, se quiser, enquanto eles tocam O Ladrão de Bicicletas, e o mestre Tim Maia sorri em algum lugar. Mas não marca muita bobeira, não. Encontra os teus parceiros, toma uma bira e se deixa embalar pela noite funk que segue até perto das duas, porque o lugar é pequeno, os vizinhos reclamam e tudo tem que terminar cedo. Mas, ainda assim, você terá sentido que valeu muito a pena.

Terça-feira, 4 de Novembro de 2003

Não tinha erro. Isto eu pensei. Mas a verdade é que eu estava tri cagado. Não tinha dado nenhuma banda por ali e ao me deparar com aquele bando de barrigudinhos ranhentos na volta do carro, murmurei com o canto da boca: "Ih, agora eu me fudi...". O primeiro veio cheio da moral e dizendo que ele é que dava a coordenada. Percebi que os outros se mantinham afastados a uma distância suficiente o bastante para demonstrar que o primeiro - com a carapinha pintada com uma cor entre amarelo ouro e caramelo [tinha um aspecto doce, o cabelo, confesso] - era quem mandava, mas perto o bastante para me deixar claro que era só eu dar uma vacilada que o bicho ia pegar para o meu lado. Com aquela cara de turista alemão em primeiro dia de visita no morro da Rocinha, perguntei pelo Antenor. "Não tem nenhum mané Antenor, aqui não, rapá!". Isto quem me disse foi aquele que se escorava numa pedra, o mais distante de todos. Preto e barrigudo como todos os outros, mas com uma navalhada na testa proeminente que o tornava o mais asqueroso de todos eles. O da cabeça cor de caramelo virou, com uma calma que deixaria o mais clássico dos mafiosos no chinelo, e deu uma olhada. Mas uma olhada só. Direto. No olho do barrigudinho da testa navalhada. Este se contorceu, visivelmente incomodado, mas obviamente indeciso entre manter uma pose de aspirante à líder da falange ou de simples tocaio daquele bando deveras bizarro de barrigudinhos disformes. Cabeça de caramelo se virou para mim, os outros todos deram um passo para trás com um automatismo que nem o mais singular dos coreógrafos conseguiria marcar com maior naturalidade, e falou, rouco como um asmático: "Tá querendo o quê com o Antenor?". Eu achei que tinha feito uma cagada pelo simples fato de ter chegado até ali, dentro do carro, sozinho e me deparar cercado. Mas a maior cagada, mesmo, estava por vir. Foi exatamente depois da seguinte frase que saiu da minha boca: "É... que o assunto é pessoal, mesmo...", que eu vi que, se o meu santo era realmente forte e aquele trabalho de fechar corpo da minha tia Lica funcionava, ali era a melhor das oportunidades para que estes dois fatos se fizessem verdadeiros.

Barrigudinho-Caramelo puxou um catarro do fundo da alma com um fervor que realmente me comoveu. Foi mais ou menos entre a ventarola e o retrovisor que ele acertou. Enquanto aquela plasta verde deslizava com uma má vontade que começava a me revolver o estômago, Caramelo, ainda calmo, me perguntou, pausadamente: "Tu tá de brincadeira comigo?". Eu disse "para falar a verdade, não...". Aí que eu me dei conta de onde estava o meu erro. Cachorro sente o cheiro do medo. Cabeça de Caramelo estava me testando. É. E eu não poderia ceder simplesmente e me deixar envolver no temor de que aquele bando de pretinhos esquálidos com barrigas de verminosos me amedrontassem. Por isso que eu saltei do carro e cheguei junto de Caramelo, simultaneamente à ação de todos os outros vinte ou vinte e cinco barrigudos armarem uma roda em nossa volta e uns três ou quatros começarem a cheirar o ar que saia de dentro do meu carro. Ali era o caminho das cobras, pensei. Puxei a calça com vontade, estufei o peito e fui chegando cada vez mais perto de Barrigudinho Cabeça de Caramelo. Ele se manteve têso, impassível, até o momento que eu sussurrei para ele: "Seguinte, eu não estou a fim de te dar moral. Então, você e este bando de barrigudos de merda, podem fazer o favor de tirar suas carcaças podres e fedorentas de perto de mim e do meu carro para que possa chegar até a baia do Antenor?". Confesso que eu falei isto com o tom mais cheio de educação que eu fui capaz de fazer soar pela minha boca, ainda que ela tremesse um pouco ao final de cada palavra. Mas acho que deu para convencer. Eu vi até que eles começaram a armar uma espécie de clareira por onde, pensei, se faria o caminho natural para que eu pudesse passar. O que eu não percebi, nem quando notei a voz de Antenor em algum ponto distante de nós, foi em que momento exato Cabeça de Caramelo deu a ordem para que o barrigudo de olho vazado me atingisse com a pedra exatamente no meio dos olhos. Como eu ainda consegui perceber qual deles me atingiu com a pedra, e isto tornou-se evidente, tão evidente quanto o fato de que, com uma pedrada só eu não cairia, eu ainda pude ouvir o grito de Caramelo "Fiadaputa!", simultaneamente a tudo o mais em minha volta se transformar em uma massa enegrecida e convulsiva de membros que se transformavam em pedra quando socavam-se em minha cara e foram mais do que suficientes para que, em segundos, eu não tivesse noção de mais nada.

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2003

Cléo Kun [é assim que se escreve?], o cara da previsão, disse que este tempinho murrinha vai se estender até o Natal. Quer dizer, estamos todos ferrados, ermãos portoalegrenses.

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