Uma das aquisições que fiz na feira foi o livro de Paulo Scott, Ainda Orangotangos. Não, eu ainda não li. Mas dei uma folheada, cheirada e alisada em sua lombar, como cabe a cada livro adquirido dentro da cerimônia que lhes ofereço. Como não li, ainda, portanto, visito a Família, e coloco aqui, no Suburbana, pela primeira vez, as críticas que fiz de todos os livros da Livros do Mal, menos o Hotel Hell, do Joca Reiners Terron, que tenho mas ainda não li, também.
Aqui posto apenas as críticas, mas a matéria completa, incluindo a história da editora supracitada, é possível encontrar, ainda, no site Digestivo Cultural.
Dentes Guardados, Daniel Galera, 88 págs. A prática que a publicação regular na Internet proporcionou a Galera nos livrou de encontrar em seu livro de estréia vícios comumente encontrados em escritores que se aventuraram pela rede – ainda mais embrenhando-se pelo conto, pequena grande pérola da literatura, onde o timming é tão necessário quanto o impacto. A narrativa é simples, não se encontra aqui grandes pretensões de revolução lingüística, o que torna ainda mais difícil a tarefa de contar boas histórias sem cair na banalidade. É a simplicidade que dá a tônica em um livro que conquista gradativamente, com personagens identificáveis e reconhecíveis em qualquer submundo urbano. Da introdução através de um defloramento, em "Amor Perfeito", passeando pela eterna incomunicabilidade dos relacionamentos em "Intimidade", vai-se caminhando para um crescendo que atinge o estranhamento em "Natureza Morta" – lento relato de uma noite de envolvimento de um jovem com uma “coroa”. O livro atinge o ápice nos contos "Triângulo" e "Escrava Branca". O primeiro põe por terra clichês convencionais em triângulos amorosos, com uma alternância de narradores e controle narrativo difíceis de encontrar em livros de estréia. Já "Escrava Branca" é direto como o anúncio colocado pelo narrador: se o que se quer é a praticidade de uma relação de benefício para ambas as partes, mesmo cerceada pelo mercantilismo de uma prestação de serviços sexuais, o resultado nem sempre está sob controle afetivo e o final pode não ser muito agradável. De dispensáveis "Os Mortos de Marquês de Sade", relato desinteressante sobre as aventuras de jovens em uma comunidade onde os adultos se comunicam exclusivamente em alemão e, até pelo fato de ser narrado em primeira pessoa, denuncia quase claramente algum episódio no qual o autor tomou parte. Por fim, "Será numa Quinta-Feira" seduz pelo tom agradavelmente poético que permeia todo o texto, mas decepciona pelo caráter quase de crônica que, por final, o texto acaba apresentando. No entanto, são pequenas irregularidades que, em momento algum, minimizam a qualidade deste ótimo trabalho de estréia de Daniel Galera.
Ovelhas que Voam se Perdem no Céu, Daniel Pellizzari, 88 págs.
O que mais surpreende no livro de estréia de Daniel Pellizzari é realmente a facilidade de se encontrar estranhamento e anti-convencionalismo em cada texto. Percorrendo um tortuoso mundo de estupefação ante as bizarrices diárias a que estamos todos expostos, Pellizzari não apresenta necessariamente moral em suas histórias: as coisas acontecem em seu estranhamento porque simplesmente têm de acontecer. Daí uma estranha relação entre um proprietário de apartamento e suas aranhas, o que acaba contribuindo para que bebês comprados em sinais de trânsito, e assados para um jantar romântico, não sejam assim a coisa mais inusitada do mundo. O bom neste livro é isso: a tamanha naturalidade na narração de estranhezas, em que passamos a crer; não nos achamos, portanto, nem "superiores" nem "indiferentes". "O vôo das Ovelhas" é um exemplo nesse sentido: talvez a normalidade esteja naquele que busca, através da loucura, alguma réstia de vida social. E os loucos talvez sejam aqueles espalhados em cada esquina, a vender vales-transportes e relógios do Paraguai. Mas nem só de bizarrices se faz um livro como Ovelhas.... "Jardim de Infância" é uma deliciosa historieta que percorre a ingenuidade infantil e encontra doce justificativa nas ações de uma menina de quatro anos. "Um Hamster" consegue tornar tal roedor um narrador de seus tristes dias em uma gaiola, "Gravidade" torna comum o vislumbre de gatos, vacas e velhas que despencam, sem explicação, do céu. É sensacional que o conto mais bem acabado do livro o feche: "Ponto de Fuga" faz um homem desaparecer por inteiro, se engolindo pela boca e ânus e dando adeus aos seus dias de ovelha sem nem mesmo um bilhete de despedida.
Vidas Cegas, Marcelo Benvenutti, 176 págs.
69 são as vidas apresentadas em pequenas narrativas aqui, por Benvenutti. Não necessariamente as vidas de 69 pessoas. Ainda que comece relatando a vida de Jonas, de Joana, de Ernesto, de Ulisses, entre outros, em dado momento Benvenutti parece ter se cansado de tantos pequenos personagens e enveredado pela "vida do Ator", "do Bar", "das Mulheres Chuvosas" e até "do Amor". O resultado não é dos mais felizes, porém. Ainda que o autor acerte em alguns momentos, a sensação que fica é a de experimentação constante. Coisa não muito indicada para o formato livro, já que Benvenutti teve e continua tendo a sua trajetória de "experimentador" através dos fanzines A Folha Mutante, TV Eye e atualmente K Zine. Não vamos dizer que o resultado seja de todo ruim; o problema maior é o excesso de minibiografias sem qualquer densidade, facilmente esquecíveis e com um ou outro acerto mínimo que faça valer a pena voltar à página e reler. Marcelo Benvenutti escreve bem. Tem a manha e o jeito de escritor romântico; brinca de narrador com suas observações recheadas de argúcia; chega a apresentar situações interessantes como em "A Vida de Fábio" (relato das atuais relações digitais em meio a um mundo parado por pessoas dormindo em todos os cantos). O problema é que, salvo uma ou outra história, ou alguma solução originalíssima encontrada por Benvenutti, o resultado é cansativo, já que algumas histórias parecem ter encontrado suas soluções devido ao próprio cansaço do autor.
Ou Clavículas, Cristiano Baldi, 112 págs.
Cristiano Baldi é um engraçadinho. O que pode ser bom ou ruim dependendo do tipo leitor que ele encontre pela frente. O fator positivo é que o próprio autor parece não se levar a sério e brinca o tempo todo com uma densidade tão desgastante de escatologia e sexo sem finalidade, que ele caracteriza de uma maneira certeira os escritores que abundam em blogs nesta geração interneteira. Sua fixação por "punheta", "pau" e "buceta" chegam aos limites do absurdo. É um escritor pop no sentido mais vulgar da palavra, já que recheia seu texto de citações ordinárias que vão desde a Avon até o Fantástico, passando por lojas Renner, Madonna e até Fábio Junior. Debocha sem constrangimento de judeus e católicos, e trata os ordinários como seus parceiros mais constantes. Se dá bem, entretanto, em alguns momentos: quando se sente que a labuta do moço sobre o texto foi bem maior. "Meia Briga e Alguns Poemas" atinge tamanha frivolidade que até alcança alguma densidade. "Boa Festa" tem uma solução nonsense de uma qualidade considerável. É, enfim, um escritor em começo de carreira com uma grande caminhada pela frente. Livrando-se dos ranços adolescentes, conseguirá desenvolver textos mais bem acabados e também mais dignos de publicação.
Húmus, Paulo Bullar, 104 págs.
Bullar se fixa no mundo animal neste seu livro de estréia. Apresenta-nos os elefantes, girafas, macacos, ratos e cágados arteriais, que passeiam sem muita finalidade na descrição de uma floresta e de seus habitantes. Um pouco mais além, encontramos os humanos. Se os seres humanos não se relacionam com os animais propriamente ditos, têm o mesmo comportamento deste e caminhando para uma maior identificação. Em "A Filha da Vaca", por exemplo, o autor retrata a ordinária condição (biológica?) da mãe da personagem principal. "Abominável Humano" põe uma mulher a botar ovos de lagarta. São textos vagarosos e curtos, cujo ponto positivo é causar certa estranheza e lançar um olhar diferenciado sobre a natureza humana.
O Livro das Cousas que Acontecem, Daniel Pellizzari, 115 págs.
Este livro é a certeza definitiva de saber que Pellizzari se encontra em território seguro ao transitar por temas que podem beirar a esquisitice e o mondo bizarro. As histórias não precisam de explicação, não são cheias de moral, não tem um porquê. O sêmen pode ser a doce redenção de um limpador de cabine de sex shop, da mesma maneira que pode ser a marca a ser deixada pelos imóveis visitados por um divorciado à procura de um apartamento. Metarrealismo é, realmente, a melhor definição para designar o perturbador mundo destas cousas todas, ainda que revestidas por bastante sensibilidade, e que acaba por nos levar aos limites das sensações: o nojo, o absurdo, o irreal adquirem feições verossímeis. A descrição do fantástico não é tarefa para qualquer um, encontrou ícones como Kafka, García Márquez e Cortázar. No Brasil, Campos de Carvalho e Moacyr Scliar também passeiam com certa desenvoltura por esse universo. Daniel Pellizzari o acolhe com o carinho e o respeito necessários, sem medo da ousadia e da decepção. Tamanha é a “possibilidade” de realização dessas fábulas que o tom geral é quase jornalístico. As histórias contadas aqui funcionam como um casaco virado do avesso: é preciso a estranheza das costuras aparentes, dos bolsos revirados, para se dar conta do "outro lado", que não é assim tão essencialmente correto.
Até o Dia em Que o Cão Morreu, Daniel Galera, 128 págs.
Existe algum mal em comprar um livro que em meia hora você terá terminado de ler? Por que? Porque a trama é tão envolvente que você precisa saber onde aquilo vai dar; nem que isso represente se atrasar para um compromisso que você tinha marcado. Afinal, do que se precisa realmente hoje em dia? Terminar um livro, ter um emprego, um apartamento vazio, um cachorro e um sexo eventual? Estas perguntas acabam percorrendo nossa mente enquanto não chegamos ao final de Até o Dia em que o Cão Morreu, estréia de Daniel Galera na narrativa longa. "Narrativa longa" é a melhor descrição e talvez a única, porque aqui não temos propriamente um romance, mas simplesmente uma história em que o que é preciso ser contado é. O que sobra são indagações tão valiosas quanto as que nos fazemos todos os dias. Recém-formado em letras, o narrador da história, de quem nunca ficamos sabendo o nome, mora em um apartamento sozinho no centro de Porto Alegre, onde a vista para o Guaíba parece ser o que de mais seguro ele tem. O resto é a eterna sensação de solidão e de distanciamento do mundo, mesmo daqueles que lhe parecem mais perto. Como Marcela, uma modelo que surge em sua vida e que, mesmo repleta de beleza e viço, não afasta o protagonista de uma cantilena de auto-destruição, embalada por doses maciças de álcool e cigarro. Por quê? Porque simplesmente ele não vê sentido em buscar um "sentido" para a vida. A sua falta de jeito (talvez o seu principal problema) não o impede, porém, de encontrar meiguice num cão vira-latas – a quem chama de Churras –, recolhido quando voltava para casa. O tom, quase sempre de contemplação, acaba servindo como a resposta que não se tem às mínimas questões práticas da vida.
Sim, parece revista de fofoca, mas é engraçado demais. A Hebe, indignada com com o adolescente que assassinou a estudante Liana Friedenbach, olhou para a câmera e falou: Eu vou fazer uma entrevista com você. Vou mesmo. Se me deixarem, eu vou. Mas eu vou armada. Eu saio de lá e vou para a cadeia. Mas ele não fica vivo.
"Tudo um grande mal entendido! As coisas que foram ditas não foram daquela maneira, sou uma pessoa pública e sei que não posso responder esse tipo de pergunta." A retificação está no
Uma mistura bem dosada de perversidade e lirismo é uma empreitada para poucos. No entanto, o "Vampiro de Curitiba", Dalton Trevisan, consegue esta inusitada composição em seu livro de estréia Novelas Nada Exemplares. Nada é comum neste livro, e nada precisa ser bizarro para adquirir contornos inimaginados para situações as mais banais. A linha nauseada da literatura, uma literatura que não procura salvar ou acusar o homem, mas apenas aproximá-lo de nossas vistas, fazendo com que constatemos nossa identificação com os noivos de província, com os bêbados ternos, com os tortos desdentados. Todos estes tipos passeiam pelos pequenos contos de Trevisan, com uma liberdade absoluta, traçando com desenvoltura seus dias de quase inevitável desgraça e tendência irreversível para o sofrimento. No texto escrito nas costas da capa e contra-capa [não nas orelhas - não há orelhas na minha edição de 1975, deste livro publicado em 1954 originalmente] Carlos Heitor Cony se entrega aos elogios. Trevisan é cruel sem ser malvado. Não permite aos seus personagens outro fim que não o que a eles estava destinado. É um maestro regendo a orquestra dos desvalidos - doces desvalidos. O clima é das famílias e habitantes da classe média baixa: moradores de pensão, noivas de subúrbio, enamorados de pequenas cidades. Gigi, louquinho, brinca com moscas, arrancando-lhes as asas; Betinho satisfaz o desejo da tia ao matar o tio Galileu, mas no final das contas é passado para trás. A Velha Querida é uma pequena obra de arte que penetra no tempo necessário, não mais e não menos, de uma visita ordinária ao bordel. Ou uma visita a um bordel ordinário? Em O convidado, um velho impotente deixa seus convidados à vontade para levarem sua mulher para cama. Depois deste livro e mais alguns, veio a fixação pelos minicontos, e agora Dalton Trevisan volta a ser assunto com o recém-lançado Capitu Sou Eu.
Quando você entra, cuida para não tropeçar no palco logo à sua frente e para não estancar em frente à porta, caminho dos que chegam depois e, como você, têm que sofrer se acostumando com o minimalismo do lugar. Feito o reconhecimento, você dá uma olhada para a sua direita, onde, debaixo de um mezanino de madeira, refugiadas na sombra que convida à devassidão, menininhas de barriga de fora e pierciengs nos mais inusitados lugares, rebolejam, alteradas pela sonoridade funky que toma conta do lugar. Enquanto decide se fica por ali, se dá conta que os que entram, atrasados e aos borbotões, esbarram em você, enquanto você tenta se concentrar na virada de baixo do baixista enlouquecido Samambaia. A posição frente ao palco é ótima, a vista à sua direita é delícia, mas os marmanjos que esbarram em você não fazem parte, certamente, das experiências mais agradáveis da noite. Então, você caminha para reconhecer o ambiente, vê à sua frente, logo acima da banda, a bandeira gigante onde se pode ler 









