Momento de profunda frustração presenciar, às portas de um final de semana que chega, mais uma maldita tempestade para inundar nossas ruas inescoáveis. Isto depois de uma semana inteira de labuta sob um sol escaldante, presenciando os vagais e as patrícias bronzeando seus lombos pelas ruelas senegalescas de nossa capital-província. [Suspiro]
31 outubro 2003
Porto Alegre respira e expira cultura por todos os cantos e poros. Em todos os botecos, e salões de cabeleireiras e bancos de praças e salas de aulas e corredores de ônibus as pessoas conversam, gracejam e mencionam os dias de Bienal do Mercosul e Feira do Livro que acaba de se instalar. É nestes momentos que todos - comentam - mais se orgulham de ser portoalegrenses. "Aqui se vive a cultura!", exclamam, cheios de dentes, entre uma sugada e outro do chimarrão em mais um passeio pela Brique ou pelo Parcão em domingos de sol que não se vêem mais desde que o fim de semana passado trouxe uma tempestade amargurante para estes pagos. E olhe a tempestade novamente aí! Mas nada disso importa. Importante é aguardar que um ensolarado sábado ou domingo se façam para ir fuçar as atraentes caixas de saldos nos corredores intransitáveis da Feira. Quem são, afinal, os que por ali passeiam? Os que aguardam ansiosamente até que dias de novembro se apresentem para, juntando aquele dinheiro guardado até então, lavar-se entre as obras que figuram entre as mais vendidas da lista da Veja? Professores com seus parcos salários e sua vontade sôfrega de enveredar pelos clássicos absolutos que Dostoiévski e Cortázar fazem encher a boca de saliva? Intelectualóides moradores de pensão e estudantes de filosofia a fim do mais seboso dos tratados de Kierkgaard? Senhorinhas donas de casa atrás de onze minutos de prazer com magos escritores?
Percorrer as insondáveis possibilidades que se apresentam entre estes escondidos cultuadores dos livros que se mostram tão felizes e sorridentes e passeativos pelas alamedas da Praça da Alfândega, é tentar inutilmente traçar um retrato dos portoalegrenses, ó seres insondáveis e misteriosos, mas fascinantes e únicos! De passada, entre uma folheada e outra, e mais um livro que não se vai levar, porque, afinal, uma olhadinha só já satisfaz o mais humilde dos virtuais compradores, quem sabe dar uma banda ali no Cais do Porto e se intrigar com aquele fusca todo cravejado de cacos de vidro verde? Ou, então, estarrecer-se com aquele bando de cuias gigantes de plásticos daquele tal de Saint Clair Cemin. Mas, afinal, quem é Saint Clair Cemin? Pererecas de plástico derretidas, formando guirlandas fedorentas? Esta tal de arte moderna é complicada demais para mim. Bem, aquele outro não se importa, já que diz um "que se dane o espectador!", ou coisa que o valha. Aos livros, ainda que apertados pelos gordos tios com cuia e térmica a atravancar os nossos caminhos, voltemos!
Imperturbáveis e senhores de si, vamos às compras. Aos quitutes culturais oferecidos em manjares repletos de letras e capas deliciosas. Alisar as lombares com seus alto-relevos dourados e seus cheiros de inteligência. Ah, a inteligência! Sinto seu odor pelas páginas novas e ensebadas de cada livro folheado... Será isto, então, que vêm todos buscar aqui? Dizer para alguém que passou mais de duas semanas de feira sem colocar os pés na Alfândega não parece, neste momento, a mais honrosa das afirmações. "Ah, tu já passou lá na feira?", ouço perguntar aquele tiozinho que corta o cabelo e que se surpreende quando falo de Lya Luft. "Gaúcha?". É. "Não, essa não. Mas eu sei daquela outra... Werchóvz? Da Casa das Sete Mulheres... Minha mulher tava querendo o livro novo dela. Mas tá caro, né?". Hmmm.
Impenetráveis e orgulhosos estes gaúchos. Vivem seus dias de arrebatação espiritual quando passeiam, infantes, pela capital da melhor qualidade de vida, e onde a cultura se faz presente. Ninguém quer se excluído da novela cultural que se desenha. Todos têm que fazer parte do cenário previsível e contínuo, de circuito mínimo e autofágico. Da Feira, estendemos a conversa até o bar do Opinião. Muito cheio? Um café na Casa de Cultura, então. Para acabar a noite, a famosa Calçada da Fama, não sem antes uma salada de frutas com sorvete ali na Banca 40, lógico! Província na casa do caralho! Isto aqui é cidade grande, sim. Mas muito mais próxima de todos, onde todos se conhecem, todos aguardam os mesmos eventos, e todos morrem de felicidade, se afinal, sabemos que Echo & The Bunnymen fará a honra de dar as caras por aqui. Aqui é que tem cultura, sim! Aqui todo o mundo faz cinema, todo o mundo aparece nos histórias curtas e todo o mundo, no final das contas, se encontra na Lancheria do Parque. Ah, este friozinho da hora! Como diria Allan Sieber, massa é dar uma banda na Redenção depois de ensaiar com minhas seis bandas! Ainda vamos tocar no Dr. Jeckyll! E se os jornalistas do único jornal da cidade nos virem, quem sabe fazem uma resenha tri a fu sobre a gente? Acho que o caminho é este. É por aqui que eu sigo. Depois de dar uma banda na feira, é lógico!
Percorrer as insondáveis possibilidades que se apresentam entre estes escondidos cultuadores dos livros que se mostram tão felizes e sorridentes e passeativos pelas alamedas da Praça da Alfândega, é tentar inutilmente traçar um retrato dos portoalegrenses, ó seres insondáveis e misteriosos, mas fascinantes e únicos! De passada, entre uma folheada e outra, e mais um livro que não se vai levar, porque, afinal, uma olhadinha só já satisfaz o mais humilde dos virtuais compradores, quem sabe dar uma banda ali no Cais do Porto e se intrigar com aquele fusca todo cravejado de cacos de vidro verde? Ou, então, estarrecer-se com aquele bando de cuias gigantes de plásticos daquele tal de Saint Clair Cemin. Mas, afinal, quem é Saint Clair Cemin? Pererecas de plástico derretidas, formando guirlandas fedorentas? Esta tal de arte moderna é complicada demais para mim. Bem, aquele outro não se importa, já que diz um "que se dane o espectador!", ou coisa que o valha. Aos livros, ainda que apertados pelos gordos tios com cuia e térmica a atravancar os nossos caminhos, voltemos!Imperturbáveis e senhores de si, vamos às compras. Aos quitutes culturais oferecidos em manjares repletos de letras e capas deliciosas. Alisar as lombares com seus alto-relevos dourados e seus cheiros de inteligência. Ah, a inteligência! Sinto seu odor pelas páginas novas e ensebadas de cada livro folheado... Será isto, então, que vêm todos buscar aqui? Dizer para alguém que passou mais de duas semanas de feira sem colocar os pés na Alfândega não parece, neste momento, a mais honrosa das afirmações. "Ah, tu já passou lá na feira?", ouço perguntar aquele tiozinho que corta o cabelo e que se surpreende quando falo de Lya Luft. "Gaúcha?". É. "Não, essa não. Mas eu sei daquela outra... Werchóvz? Da Casa das Sete Mulheres... Minha mulher tava querendo o livro novo dela. Mas tá caro, né?". Hmmm.
Impenetráveis e orgulhosos estes gaúchos. Vivem seus dias de arrebatação espiritual quando passeiam, infantes, pela capital da melhor qualidade de vida, e onde a cultura se faz presente. Ninguém quer se excluído da novela cultural que se desenha. Todos têm que fazer parte do cenário previsível e contínuo, de circuito mínimo e autofágico. Da Feira, estendemos a conversa até o bar do Opinião. Muito cheio? Um café na Casa de Cultura, então. Para acabar a noite, a famosa Calçada da Fama, não sem antes uma salada de frutas com sorvete ali na Banca 40, lógico! Província na casa do caralho! Isto aqui é cidade grande, sim. Mas muito mais próxima de todos, onde todos se conhecem, todos aguardam os mesmos eventos, e todos morrem de felicidade, se afinal, sabemos que Echo & The Bunnymen fará a honra de dar as caras por aqui. Aqui é que tem cultura, sim! Aqui todo o mundo faz cinema, todo o mundo aparece nos histórias curtas e todo o mundo, no final das contas, se encontra na Lancheria do Parque. Ah, este friozinho da hora! Como diria Allan Sieber, massa é dar uma banda na Redenção depois de ensaiar com minhas seis bandas! Ainda vamos tocar no Dr. Jeckyll! E se os jornalistas do único jornal da cidade nos virem, quem sabe fazem uma resenha tri a fu sobre a gente? Acho que o caminho é este. É por aqui que eu sigo. Depois de dar uma banda na feira, é lógico!
Eu sou um legítimo falador. Bradando aos quatro cantos que Amarelo Manga nunca estreava por aqui, e, agora que estréia (e já faz mais de uma semana), e eu ainda não fui ver. Acho que o excesso de cultura que estou respirando nesta cidade está me sufocando. Não bastasse a Bienal, hoje começa a Feira do Livro. É uma densidade cultural tamanha que vai esmagar nossos neurônios por sua demasia. Maiores e mais pertinentes comentários sobre esta cultura aos borbotões, a granel, a escorrer pelos limites de nossa Porto Alegre, no próximo post. Se tudo der certo.
28 outubro 2003
Já falei dos caras, que está rolando temporada no Vermelho 23, enfim. Na realidade, esta repetição é só porque o flyer feito pelo Seu Johnny, batera enlouquecido e programador visual oficial da função, é massa bragarái e merecia ser colocado aqui. De qualquer maneira, se tu estás por fora, dá o conferes e pinta lá. Sete pilas e uma bira grande incluída, acho que será uma grande presença.


Estou me embreando na leitura deste best-seller para descobrir que Isabel Allende é uma escritora extremamente bem humorada. E isto é um fato raro nos dias de hoje. Ainda mais se tratando deste tipo de literatura, uma grandiosa saga que perpassa toda a história de uma família - Trueba - no Chile, e o universo fantasioso construído pela autora em seu primeiro livro, sem se deixar levar pela vaidade que a faria rebuscar a trama de insondáveis e densas descrições. Pelo contrário. Só estou continuando em sua leitura, por que é deveras divertida e nos leva a querer saber o que, afinal, acontecerá dali para a frente. O filme, que tenho em casa e nunca assisti, é uma daquelas adaptações com Jeremy Irons e Meryl Streep, então tem todo aquele lance profundo, A Casa como um personagem soturno e muito importante, passando ao largo de toda a ironia e leveza que se encontra no livro. Desde as descrições exageradíssimas de um cachorro que mais se assemelha a um cavalo, chamado Barrabás, até o detalhe no relato das feridas e chagas purulentas e repletas de vermes e moscas que tomam conta das pernas da mãe de Esteban Trueba. Tudo vai se enfiando por anos que passam rápido, décadas que se encontram e personagens fascinantes que se deixam levar ao ritmo leve que fará a autora traçar um retrato político de uma história chilena que vai dos anos 1905 a 1975. Enleva tranqüilas tardes de ócio e faz rir sozinho.
27 outubro 2003
Ensaios sobre a Putaria
1º Cena:
Ela me perguntou por que eu escrevia tanta putaria. Eu disse que eu não escrevia putaria, escrevia sobre o que as pessoas faziam, e isto era normal. Ela disse que eu não tinha necessidade de descrever com tamanha profusão de detalhes todos os elementos contidos em uma relação sexual, senão iriam pensar que eu só escrevia coisas assim porque, na realidade, não tinha qualidade literária suficiente para escrever alguma coisa que se assemelhasse a um Julio Cortázar, por exemplo. Ela disse assim, Julio Cortázar, com a boca bem cheia daquele bolo de cenoura que ela comia quando resolvia sentar no sofá de napa e me inquirir, uma vez por dia, ao menos, por que, afinal de contas, eu escrevia tanta putaria. Julio Cortázar é Deus!, eu disse para ela, e no dia que eu escrever uma milionésima parte do que ele escreve eu vou dar um tiro na cabeça ou me atirar daqui de cima porque eu estarei louco ou consumido pela insanidade e pelo dinheiro que terei ganho como o maior escritor de putaria de revistas baratas do mundo. Ela falou que não tinha que ser assim, não, e disse Tu podia escrever com temáticas semelhantes, aquela coisa de viagem onírica, contos de absurdo e coisas do gênero. Não existe coisas do gênero, eu falei para ela, enquanto arremessava mais um papel amassado para a montanha de bolotas de papel no cesto junto do sofá. O que tem é isto aqui o que você está vendo: um punhado de tentativas de escrever alguma coisa que preste enquanto você não cala esta boca e não me deixa terminar de escrever. Ela disse que eu era nervosinho porque era um escritor amargurado, na realidade. Eu disse que era amargurado porque tinha que escrever aquele monte de merda, mas, à bem da verdade, eu me sentia ainda melhor assim do que naqueles dias em que tinha que trabalhar naquela porra daquele banco fudido que eu odiava e espremer alguns poucos instantes de fim de noite para escrever as preciosidades que eu considerava minhas obras primas. Ela calou a boca por um breve instante e eu achei que tinha desistido de me inquirir acerca de meus dotes literários. Foi quando ela falou baixinho que não tinha coragem de mostrar para a minha mãe as coisas que eu escrevia. Eu disse A tua mãe é uma velha carola!, não me interessa se ela me acha um pornógrafo por escrever o que eu escrevo, e se eu vou pro inferno ou pra putaquemepariu, eu só quero que tu me deixe em paz para que eu possa enviar esta porra pra esta merda de revista e rezar para que aqueles filhadasputa me enviem o cheque na semana que vem! Ela baixou a cabeça e começou a chorar, pateticamente com o bolo de cenoura quase caindo da mão, de um jeito que demonstrava claramente que queria que eu me aproximasse. Eu deixei ela ali chorando, porque sabia que, na verdade, ela estava mentindo. As fungadinhas compassadas não me tocavam há tempos e além do mais eu precisava terminar aquela porra daquela história.
2º Cena:
Coçava as frieiras do pé com um prazer que me fazia olhar estarrecido por diversas vezes aquela cena que, ultimamente, andava se repetindo à grande. Dizia que sentia o mesmo gozo de quando se masturbava olhando pro fundo dos olhinhos muito miúdos da gorda filha da vendedora de pilhas que se encostava no muro do nosso prédio. Um dia me revelou, embora eu não tenha certeza ser verdade até hoje, que nunca teve coragem de transar com ela. Achava que seus olhos tinham ternura em excesso, e, por mais que ela quisesse que ele fizesse a coisa, o máximo que ele fazia era deixar que ela ficasse sentada e quieta, enquanto ele olhava muito fundo nos olhos dela e via ali algum ponto excitante qualquer que o combalia a auto-satisfazer-se furiosamente. A gorda não ficava quieta, queria participar - era uma mulher, estava ali, e tudo o que ele queria era que ficasse olhando? Nessas horas ele batia na cara dela com o cinto que tinha tirado para que o tilintar da calça arriada ao sacudir não acordasse nosso vô que dormitava no quartinho ao lado. Tanto era o silêncio que tinham que fazer, que ele se atirava sobre a cara da gorda quando ela se punha a chorar por que ele atingira o clímax, gozando violentamente contra a parede, e ela não tinha participado daquele momento. Não da maneira que ela queria. Ele, de calças ainda arriada, passava seus dedos grossos nos lábios da gorda e dizia que ela não devia se corromper assim. Havia alguém muito especial para ela e, por enquanto, aquilo era tudo o que eles poderiam ter.
1º Cena:
Ela me perguntou por que eu escrevia tanta putaria. Eu disse que eu não escrevia putaria, escrevia sobre o que as pessoas faziam, e isto era normal. Ela disse que eu não tinha necessidade de descrever com tamanha profusão de detalhes todos os elementos contidos em uma relação sexual, senão iriam pensar que eu só escrevia coisas assim porque, na realidade, não tinha qualidade literária suficiente para escrever alguma coisa que se assemelhasse a um Julio Cortázar, por exemplo. Ela disse assim, Julio Cortázar, com a boca bem cheia daquele bolo de cenoura que ela comia quando resolvia sentar no sofá de napa e me inquirir, uma vez por dia, ao menos, por que, afinal de contas, eu escrevia tanta putaria. Julio Cortázar é Deus!, eu disse para ela, e no dia que eu escrever uma milionésima parte do que ele escreve eu vou dar um tiro na cabeça ou me atirar daqui de cima porque eu estarei louco ou consumido pela insanidade e pelo dinheiro que terei ganho como o maior escritor de putaria de revistas baratas do mundo. Ela falou que não tinha que ser assim, não, e disse Tu podia escrever com temáticas semelhantes, aquela coisa de viagem onírica, contos de absurdo e coisas do gênero. Não existe coisas do gênero, eu falei para ela, enquanto arremessava mais um papel amassado para a montanha de bolotas de papel no cesto junto do sofá. O que tem é isto aqui o que você está vendo: um punhado de tentativas de escrever alguma coisa que preste enquanto você não cala esta boca e não me deixa terminar de escrever. Ela disse que eu era nervosinho porque era um escritor amargurado, na realidade. Eu disse que era amargurado porque tinha que escrever aquele monte de merda, mas, à bem da verdade, eu me sentia ainda melhor assim do que naqueles dias em que tinha que trabalhar naquela porra daquele banco fudido que eu odiava e espremer alguns poucos instantes de fim de noite para escrever as preciosidades que eu considerava minhas obras primas. Ela calou a boca por um breve instante e eu achei que tinha desistido de me inquirir acerca de meus dotes literários. Foi quando ela falou baixinho que não tinha coragem de mostrar para a minha mãe as coisas que eu escrevia. Eu disse A tua mãe é uma velha carola!, não me interessa se ela me acha um pornógrafo por escrever o que eu escrevo, e se eu vou pro inferno ou pra putaquemepariu, eu só quero que tu me deixe em paz para que eu possa enviar esta porra pra esta merda de revista e rezar para que aqueles filhadasputa me enviem o cheque na semana que vem! Ela baixou a cabeça e começou a chorar, pateticamente com o bolo de cenoura quase caindo da mão, de um jeito que demonstrava claramente que queria que eu me aproximasse. Eu deixei ela ali chorando, porque sabia que, na verdade, ela estava mentindo. As fungadinhas compassadas não me tocavam há tempos e além do mais eu precisava terminar aquela porra daquela história.
2º Cena:
Coçava as frieiras do pé com um prazer que me fazia olhar estarrecido por diversas vezes aquela cena que, ultimamente, andava se repetindo à grande. Dizia que sentia o mesmo gozo de quando se masturbava olhando pro fundo dos olhinhos muito miúdos da gorda filha da vendedora de pilhas que se encostava no muro do nosso prédio. Um dia me revelou, embora eu não tenha certeza ser verdade até hoje, que nunca teve coragem de transar com ela. Achava que seus olhos tinham ternura em excesso, e, por mais que ela quisesse que ele fizesse a coisa, o máximo que ele fazia era deixar que ela ficasse sentada e quieta, enquanto ele olhava muito fundo nos olhos dela e via ali algum ponto excitante qualquer que o combalia a auto-satisfazer-se furiosamente. A gorda não ficava quieta, queria participar - era uma mulher, estava ali, e tudo o que ele queria era que ficasse olhando? Nessas horas ele batia na cara dela com o cinto que tinha tirado para que o tilintar da calça arriada ao sacudir não acordasse nosso vô que dormitava no quartinho ao lado. Tanto era o silêncio que tinham que fazer, que ele se atirava sobre a cara da gorda quando ela se punha a chorar por que ele atingira o clímax, gozando violentamente contra a parede, e ela não tinha participado daquele momento. Não da maneira que ela queria. Ele, de calças ainda arriada, passava seus dedos grossos nos lábios da gorda e dizia que ela não devia se corromper assim. Havia alguém muito especial para ela e, por enquanto, aquilo era tudo o que eles poderiam ter.
24 outubro 2003
Até que enfim imagens decentes para estampar as campanhas do Ministério da Saúde contidas nos maços de cigarro. Talvez agora o bicho comece a pegar de verdade e o Brasil deixe de ser maricas para a utilização de uma publicidade mais impactante e de uma política mais forte no combate ao tabagismo.





Fonte: Ministério da Saúde





Fonte: Ministério da Saúde
22 outubro 2003
Jayson Blair, o jornalista provocador de um dos maiores escândalos do jornal The New York Times, vai virar filme. O canal a cabo Showtime vai realizar um telefilme, contando a história da grande fraude realizada pelo cara e, possivelmente tratando-se de uma obra de humor negro, é provável que se chame The Jayson Blair Project. Seguindo na obtenção do faz-me-rir, o cara já tinha assinado um contrato com a New Millenium Books de aproximadamente US$ 500 mil para a produção de um livro.

A fotinha é massa, não? O projeto é mais interessante ainda. Paralelos é o novo lance idealizado pelo mesmo pessoal que tocava a bacanérrima revista eletrônica Falaê! O editorial de apresentação fala por si só, deixando claro sua proposta: Foi a partir desse processo, de pensar a literatura e de tentar identificar quem são os novos talentos, que surgiu a idéia de se criar o projeto Paralelos, que nada mais é do que uma espécie de confraria de escritores incuráveis e leitores ávidos em torno de um movimento, de uma articulação para estimular a produção literária em seus diversos níveis.
Passa lá e dá o conferes.
E, nesta sexta vai rolar a festa de aniversário de um ano do e-zine mega delícia Simplicíssimo! Aos interessados em saber as formas como o médico, escritor, editor do zine e multifacetado Rafael Reinehr consegue se dividir em vários para tocar este projeto, a função vai começar às 20h30 no Doppio Senso, República, 50, na querida Cidade Baixa e depois se estende para o templo black Gê Powers, cujo número não sei, mas é imensamente fácil de achar. Quase em frente ao antológico reduto do samba Carinhoso. Se tudo der certo estarei lá.
21 outubro 2003
Engraçado como algumas coisas que escrevi já a algum tempo atrás, ou mais ou menos recentemente, estão indo ao encontro de certos fatos novos. Algumas vezes a relação é bem direta, como aconteceu com o meu comentário sobre a supremacia da Globo Filmes como a Hollywood brasileira no grande filão cinematográfico que se abre com esta retomada da produção brasileira. Este comentário, que estava dentro de um artigo sobre o Festival de Cinema de Gramado, acabou sendo devidamente embasado pelo texto do Ricardo Calil, no nomínimo.
Agora, um tanto mais sutilmente, no entanto, é que me dou conta do quanto esta proposta da nova novela da Globo, Celebridade [de novo ela, de novo], se enquadra naquele mesmo princípio também já denunciado por este que vos escreve [daqui a pouco, colocarei embaixo dos meus textos: você leu primeiro aqui! É, besteira, esquece...] no texto a respeito do livro Sem Logo. Difícil estabelecer a relação, não é? Nem tanto. Pensa aqui comigo, e presta atenção no seguinte trecho do meu próprio texto: Procurando chegar com seus produtos da maneira que for, aos clientes em potencial, a estratégia das grandes marcas têm sido a de pulverizar-se em meio às manifestações culturais ditas underground e alternativas e, se aproveitando deste universo, tornar-se presente com claras referências visuais e conceituais dentro de suas linhas e abordagens. Desta maneira, observamos os claros apelos de marcas consagradas, como a Nike, dentro de culturas até pouco tempo mantidas à margem da sociedade de consumo. É, está um tanto nebulosa a comparação, mas eu explico: a rede Globo está adquirindo o hábito extremamente saudável para ela mesma de fazer piada de si própria, antes que alguém o faça. Isto já era feito de uma maneira perfeitamente regularizada no momento em que a emissora permitia que um programa humorístico como o Casseta & Planeta fizesse piadas de suas próprias novelas. Lógico, que dentro de um limite pré-estabelecido e permitido. O que acontece agora é a tentativa de fazer piada, ou de tentar a análise próxima do mais do mesmo em um ambiente mais sério - a tradicional novela das oito.
Como? Ora, no momento em que a própria novela toma para si a missão, digamos assim, de denunciar, digamos assim, novamente [ou aspas, muitas aspas] a indústria das celebridades, da busca de sucesso desmedido a qualquer preço, não está fazendo mais do que antecipar-se a um assunto que era objeto de estudo não de uma indústria do entretenimento, mas de pesquisas sociológicas e quetais. Tomar para si mesma a possibilidade de cair em cima de um fato que é notório que é produzida pela própria, que é todo o mundo superficial e de vaidade desmedida que cerca a produção de celebridades, é tornar o assunto esgotado e enfadonho para análises mais aprofundadas. Ou seja, é tornar tal fato desgastante, algo corriqueiro, minimizá-lo para a esfera do cotidiano, para que passe [ainda mais] a não ser visto com a peculiaridade devida, mas como mais uma obra ficcional devidamente produzida e regurgitada pela gigante do entretenimento televisivo no Brasil, e uma das maiores do mundo.
Tomando, portanto, como exemplo o fato de que a publicidade das grandes corporações vêm adaptando culturas até então relegadas ao gueto ao seu próprio discurso publicitário, o que acontece agora é uma emissora adaptando um discurso que na realidade é produzido por ela própria [as grandes corporações adaptam um discurso verdadeiramente produzido por guetos culturais e os tomam para si. A Rede Globo adapta seu próprio discurso como se produzido por outrem]. Ou seja: ela cria um fato [que é a indústria das celebridades, realmente] , joga-o na esfera do domínio público, como se por ela não fosse produzido, e o pega novamente, para elaborar uma obra ficcional, como se fosse a análise de um fato produzido por outrem. O que acontece é que ela se insurge de um duplo poder - primeiro ao produzir um fato e depois ao devolvê-lo duas vezes de maneira diferente: de forma não-ficcional, e, agora, de forma ficcional, como se fosse a análise fria de um acontecimento, de um evento, de uma banalidade não gerada por ela própria! Deus, isto é enlouquecedor!
Não sei se fui extremamente claro nas minhas conclusões. Releva-se que elas tenham sido feitas em um insight muito doido em início de madrugada, num horário em que eu nem costumo postar nada. Enfim. Quando isto que está escrito aqui for dito por outro articulador qualquer [articulador é bom, né?], saiba que você leu primeiro aqui! Ok, desculpa.
Agora, um tanto mais sutilmente, no entanto, é que me dou conta do quanto esta proposta da nova novela da Globo, Celebridade [de novo ela, de novo], se enquadra naquele mesmo princípio também já denunciado por este que vos escreve [daqui a pouco, colocarei embaixo dos meus textos: você leu primeiro aqui! É, besteira, esquece...] no texto a respeito do livro Sem Logo. Difícil estabelecer a relação, não é? Nem tanto. Pensa aqui comigo, e presta atenção no seguinte trecho do meu próprio texto: Procurando chegar com seus produtos da maneira que for, aos clientes em potencial, a estratégia das grandes marcas têm sido a de pulverizar-se em meio às manifestações culturais ditas underground e alternativas e, se aproveitando deste universo, tornar-se presente com claras referências visuais e conceituais dentro de suas linhas e abordagens. Desta maneira, observamos os claros apelos de marcas consagradas, como a Nike, dentro de culturas até pouco tempo mantidas à margem da sociedade de consumo. É, está um tanto nebulosa a comparação, mas eu explico: a rede Globo está adquirindo o hábito extremamente saudável para ela mesma de fazer piada de si própria, antes que alguém o faça. Isto já era feito de uma maneira perfeitamente regularizada no momento em que a emissora permitia que um programa humorístico como o Casseta & Planeta fizesse piadas de suas próprias novelas. Lógico, que dentro de um limite pré-estabelecido e permitido. O que acontece agora é a tentativa de fazer piada, ou de tentar a análise próxima do mais do mesmo em um ambiente mais sério - a tradicional novela das oito.
Como? Ora, no momento em que a própria novela toma para si a missão, digamos assim, de denunciar, digamos assim, novamente [ou aspas, muitas aspas] a indústria das celebridades, da busca de sucesso desmedido a qualquer preço, não está fazendo mais do que antecipar-se a um assunto que era objeto de estudo não de uma indústria do entretenimento, mas de pesquisas sociológicas e quetais. Tomar para si mesma a possibilidade de cair em cima de um fato que é notório que é produzida pela própria, que é todo o mundo superficial e de vaidade desmedida que cerca a produção de celebridades, é tornar o assunto esgotado e enfadonho para análises mais aprofundadas. Ou seja, é tornar tal fato desgastante, algo corriqueiro, minimizá-lo para a esfera do cotidiano, para que passe [ainda mais] a não ser visto com a peculiaridade devida, mas como mais uma obra ficcional devidamente produzida e regurgitada pela gigante do entretenimento televisivo no Brasil, e uma das maiores do mundo.
Tomando, portanto, como exemplo o fato de que a publicidade das grandes corporações vêm adaptando culturas até então relegadas ao gueto ao seu próprio discurso publicitário, o que acontece agora é uma emissora adaptando um discurso que na realidade é produzido por ela própria [as grandes corporações adaptam um discurso verdadeiramente produzido por guetos culturais e os tomam para si. A Rede Globo adapta seu próprio discurso como se produzido por outrem]. Ou seja: ela cria um fato [que é a indústria das celebridades, realmente] , joga-o na esfera do domínio público, como se por ela não fosse produzido, e o pega novamente, para elaborar uma obra ficcional, como se fosse a análise de um fato produzido por outrem. O que acontece é que ela se insurge de um duplo poder - primeiro ao produzir um fato e depois ao devolvê-lo duas vezes de maneira diferente: de forma não-ficcional, e, agora, de forma ficcional, como se fosse a análise fria de um acontecimento, de um evento, de uma banalidade não gerada por ela própria! Deus, isto é enlouquecedor!
Não sei se fui extremamente claro nas minhas conclusões. Releva-se que elas tenham sido feitas em um insight muito doido em início de madrugada, num horário em que eu nem costumo postar nada. Enfim. Quando isto que está escrito aqui for dito por outro articulador qualquer [articulador é bom, né?], saiba que você leu primeiro aqui! Ok, desculpa.
20 outubro 2003
Dando continuidade ao projeto Tosquices Sérias e Enfadonhas, eu e um outro grupo de loucos estamos elaborando um mega projeto de um filme. Sim, um filme. Todo rodado em vídeo digital, com o menor orçamento possível, a trama está sendo devidamente desenvolvida pelo projeto Zero Produções Artísticas e sua locação deverá contemplar quase que em sua totalidade o sítio mui sinistro e bizarro do nosso amigo e grande bassman Eduardo Dudu Lordelo, o homem das idéias esquizofrênicas! Uma história de loucura e acontecimentos errôneos, loucura e assassinatos violentos e loucura e sordidez mental. O cuidado de preparo é meticuloso: depois de escrito o roteiro devo fazer os story boards, para o lance ficar extremamente delícia! Como estamos em fase de captação de elenco, mocinhas interessadas em conquistar a fama sem o recebimento de cachê algum, mas com desinibição suficiente para cenas que podem fazer corar aquele seu tio que aluga filmes pornô no final de semana, e com coragem e audácia para participar de um grande projeto cultural para incendiar esta cidade, é favor dar uma clicadinha no meu nome aí abaixo, que serás devidamente remessada para o meu e-mail.
15 outubro 2003
APROVEITE AGORA
Eu já falei dos caras aqui. Proveitosa Prática é a banda que tá fazendo uma grande presença com um original funk de primeira, visitando desde os clássicos que passeiam por pérolas como Funkadelic, até coisas mais obscuras do Tim Maia e seus adjacentes. Não bastasse isto, os caras têm suas músicas próprias - grooves de primeira ordem com uma puta levada. Agora, depois de terem tocado com Os Subtropicais no Dr. Jeckyll e em outras lançadas por aí, estão com a sua temporada no Vermelho 23. Dá o conferes no flyer delícia aí abaixo:


14 outubro 2003
O DOMÍNIO CONTINUA
92% do público dos filmes brasileiros neste ano foram os arrebanhados pelos filmes produzidos pela Globo Filmes. Isto deu agora em reportagem que saiu no nomínimo e vai ao encontro do que eu já havia prenunciado neste artigo que saiu no Expresso Opinião. O domínio, como era extremamente previsível, se estende e continuará a se estender pelo cinema, gerando no Brasil uma Hollywood centrada no Rio de Janeiro, mais especificamente nos estúdios de Jacarepaguá, com uma produção em nada diversa das séries e novelas pré-testadas e aprovadas pelo público. Cinema enlatado de primeira, mastigado e regurgitado para o deleite das massas.
13 outubro 2003
10 outubro 2003
O ÚLTIMO SUSPEITO
Tentava me lembrar quanto tempo fazia que eu não chorava no cinema. Não deveria ser uma coisa muito difícil, já que tenho uma certa sensibilidade que não me agrada nenhum pouco e, para falar a verdade, na maioria das vezes só prejudica a minha vida. Que se foda. Eu tava com a minha guria e consegui assistir a um filme que realmente me tocou ["tocou" é meio veado, mas vá lá...]. Não dava nada pelo filme: para falar a verdade, acho que estreou aqui em Porto Alegre com tamanha rapidez que deve ter saído nas resenhas de quarta, quinta ou sexta, dias em que me mantive alheio do mundo e não li jornais e fui o último a saber dos acontecimentos. Pois bem. Se depender do bicha de bochecha rosa chamado Rubens Ewald Filho, para quem só interessa a existência de atores que tenham nascido na década de 20 e que é superestimado com uma insistência nojenta neste mainstream previsível que é a crítica de cinema de sites e revistas, o filme é uma bomba cheia de clichês e Robert DeNiro é um velho gagá.
Como eu quero mais é que Rubens Ewald Rosa e suas caixas de rouge se explodam, sua crítica tem poder zero sobre mim - até porque eu a li depois que já tinha assistido o filme, já tinha curtido este trabalho de interpretação mais soturno de Robert DeNiro, já tinha chorado [com lágrimas rasteiras e silenciosas, como convém a um bom chorinho em cena dramática. É. Deu um pouco de vontade de emitir algum som, mas acho que o ambiente não era muito propício, então eu enxuguei de canto as lágrimas e me deixei envolver pelo aconchego quente do ombro da minha namorada.] o que tinha de chorar e já tinha achado o motivo existencial do cinema... mais uma vez. Tá. O filme é O Último Suspeito, título extremamente, mas extremamente tosco para o original City by the Sea.A trama é tão evidente quanto o título anuncia: o que fazer quando o criminoso é o último suspeito que você imaginava - seu próprio filho? Tinha todas as chances de desabar para o dramalhão, mas não consegue isto. Michael Caton Jones, que já tinha dirigido DeNiro em "O Despertar de Um Homem" segura bem a onda e vai até onde tem que ir, domando a mão para que a obra oscile entre o clima noir e dramático sem cair em baixaria. O fato de ter bons atores
também ajuda, é lógico. Frances McDormand é uma tia que bate um bolão, ainda. A banalidade tinha tudo para se impor neste filme, afinal, o argumento não é dos mais originais. Pai policial, filho de um homem condenado à morte pelo seqüestro e assassinato de um bebê, fracassa no casamento e na criação do seu filho, que acaba se tornando um viciado fodido que assassina um traficante durante uma briga e é acusado de um segundo assassinato - do policial parceiro do pai dele. O filho quem faz é James Franco, que havia interpretado James Dean e compõe um viciado sem frescurices e com a crueza e podridão que um bom fumador de crack deve parecer ter no cinema. O clima é de total sentimento de perda e frustração, todos são perdedores e ninguém prega frasezinhas de salvação ou de lições de vida. O que está em jogo é uma relação pai e filho, que pode ser salva quando não parece haver saída para mais nada, ou pode se perpetuar como se fosse uma maldição de DNA que tornasse as gerações daquela família um fracasso em relação paternal. A perda e a inconstância aparecem em cada detalhe: DeNiro é um policial com uma rotina de vida tão excitante quanto a de um peixe de aquário; as ações diárias são sempre as mesmas e até o sexo de fim de noite com a vizinha do andar de baixo, com que já mantém uma relação estável de visitas noturnas e pequenas intromissões pessoais, soa sem graça e feito por obrigação. O clima da cidade do título original é de decadência e abandono, o que não deve estar sendo nada legal para Long Beach, mas é possível sentir a criminalidade e o vício reinante em cada esquina acinzentada e em cada prédio destruído que a câmera foca. Não há tempo para perda de tempo em lugares-comum, já que em nenhum momento se propõe a "redenção do filho drogado que se recupera e vira um bom rapaz". O cara é um merda, um cachorro sarnento que alguém chuta com desprezo, o que torna um pouco difícil sua identificação como herói da história (posto logo passado para seu pai), viciado com uma mulher viciada que trabalha num drive-in para sustentar o filho dos dois. Quando o personagem de DeNiro descobre que é avô, tudo não se torna um mar de rosas e o filme não se transforma em uma novela da Globo. Até que o final se aprochegue, em um único momento de afirmação de amor incondicional, algo difícil de se contrariar em se tratando do laço sangüíneo entre pai e filho, as coisas são tão sem futuro com um caso como este deve ser na realidade. O que fica é a possibilidade de escolha, ainda que tudo pareça extremamente sem sentido e não pareça existir nada mais à sua volta. O resto é o resto. Publicado originalmente em 26/05/2003 no CápsulaZine. Grande Cápsula. Que em breve estará de volta. Eu sei que sim. Chuif.
09 outubro 2003
IDENTIDADE ZERO
No livro Sem Logo - A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido [Ed. Record, 2002], Naomi Klein nos mostra o quanto as marcas, já há um bom tempo, vêm apostando no chamado mercado jovem e o marketing do cool. Desta maneira, as grandes corporações têm tentado se adaptar aos anseios de uma geração pós-90, mais complexa nas suas necessidades e multifacetada nas escolhas, bem como na maneira com que não mais demonstram fidelidade às grandes grifes, que, dentro deste princípio, vêm buscando se adaptar e entrar no gueto do universo conhecido como indie. Procurando chegar com seus produtos da maneira que for, aos clientes em potencial, a estratégia das grandes marcas têm sido a de pulverizar-se em meio às manifestações culturais ditas underground e alternativas e, se aproveitando deste universo, tornar-se presente com claras referências visuais e conceituais dentro de suas linhas e abordagens. Desta maneira, observamos os claros apelos de marcas consagradas, como a Nike, dentro de culturas até pouco tempo mantidas à margem da sociedade de consumo. E observamos como não só a Nike, mas os mass media, de maneira geral, têm-se apegado ao grande filão que um gênero proveniente dos guetos norte-americanos, como o hip-hop, tem produzido. Isto gera, é óbvio, uma confusão no momento em que, de maneira violenta, estes conglomerados se aproveitam de culturas até então genuínas e representantes de um demorado processo de identidade de um grupo. A publicidade em parceria com estas grandes marcas, acaba deixando claro que não há nada independente ou alternativo o suficiente que não possa ser transformado em um lucrativo meio de marketing. A cultura alternativa, desta maneira, inexiste, já que ela na realidade, passa a alimentar o mainstream, a gerar produtos para a veiculação em grandes massas. Como tornar-se diferente e manifestar uma identidade em meio a este processo claramente comercial? Em um recente documentário no canal GNT, foi proposto a uma profissional do ramo das construções que passasse uma semana sem adornar-se com nenhum tipo de maquiagem. A mulher, chamada Ally, uma americana, experimentou a sensação de expor-se naturalmente em meios sociais em que os cerimoniais de apresentação são grandes e significativos, e foi, assim, objeto das diferentes conseqüências do seu ato. Em quase completo desespero, suportou as observações de seus colegas de trabalho e clientes da empresa onde trabalhava, que passaram a observá-la unicamente sob o ponto de vista estético. E, sob este ponto de vista, a idéia que compuseram a seu respeito não era compatível à identidade da profissional que ela pensava demonstrar. Somente quando travestida por trás de uma "máscara regulamentadora" ela se encontrava encaixada no pré-conceito visual que uma profissional mulher deveria ter. Uma vez fora da norma usual de aceitação estética para uma mulher do seu meio social, ela perdia a sua identidade perante os outros e perante ela mesma. A necessidade de se encaixar sob um rótulo estético se mostra, em casos como este, profundamente perturbadora e como elemento padronizante de grupos diversificados e onde as identidades se confundem.Publicado em 28/04/03 no CápsulaZine, bom e velho Cápsula. Que eu sei que voltará. Sei sim. Chuif.
Chato realmente eu seria se me comportasse como o ferrenho pessoal do Jornal da Tarde, de São Paulo, que elegeu o Engenheiros do Hawaii [no aspecto qualidade musical - coisa puramente artística, portanto, nada relativo à personalidade de Humberto Gessinger] como os maiores "malas" da música brasileira. Não vou entrar aqui em discussões do quanto a crítica musical brasileira injustamente escolheu tomar os pobres engenheiros como a banda preferida para se detratar, até porque a revista ZERO já fez isto em uma das suas edições - a oito, se não me engano - de uma maneira extremamente competente.Na seqüência desta mesma lista figuram, então: Oswaldo Montenegro, Carlinhos Brown aparece em seguida e a 4ª colocação foi dividida por Caetano Veloso, Jorge Vercilo, Jota Quest e Tribalistas. Senão, vejamos: com exceção de Oswaldo Montenegro, que anda desaparecido, cujas canções, majoritariamente forjaram competentes trilhas de novela ao estilo Pantanal e correlatas, e de Carlinhos Brown, cujo número de vendagem e público fã eu nunca consegui identificar, TODOS os outros artistas da lista são excelentes vendedores de discos. Caetano Veloso é também conhecido como o Senhor Unanimidade, sendo aclamado por qualquer coisa que grave, Jorge Vercilo é o queridinho da hora, herdeiro e discípulo da trajetória musical de Djavan, Jota Quest é banda que oscila entre funks bem comportados e melodias mela-cueca e Tribalistas.. Bem, é Tribalistas, o que todos sabem, que conquistou a Europa, e que em menos de um mês de lançamento do disco, figurou entre os mais vendidos de TODO o ano.
E adivinhem de quem é o CD mais vendido no Rio de Janeiro? Não ganha nada quem disser que é o da Maria Rita, por que era óbvio que isto aconteceria. A quem pensar que isto é alguma espécie de perseguição, não se deu conta completamente do espírito dos meus comentários anteriores, e, para reforçar ainda mais que não tenho nada contrário à guria, me dei ao trabalho de esperar até às DUAS HORAS na noite de domingo, depois que o Steven Segal salvou o mundo com suas porradas perfeitas sem mexer o rabo de cavalo, e assisti ao nada planejado ESPECIAL Maria Rita, onde a guria mostrou que realmente é um assombro. Filmadinho em película, enfim, aquele pouco dinheiro gasto que sabemos.
06 outubro 2003
Diogo Mainardi, aquele escolhido como o odiado do momento pelos eternos críticos de plantão que compoem uma parcela dos leitores brasileiros, é o novo integrante da bancada do Manhattan Connection. Sua estréia foi neste domingo, de uma maneira um tanto tímida, como deve ser a um novo participante de um grupo já com o seu certo prestígio - Caio Blinder e Lucas Mendes formam uma dupla que divide pequenas farpinhas constantes de uma maneira bem engraçada -, mas que já permitiu antever um reaquecimento de um grupo, que afinal, estava um tanto tímido em matéria de polêmicas. Coisa que, aliás, Diogo Mainardi não acha que são as suas opiniões na revista Veja. Se mostrou bastante humilde neste ponto, achando que suas idéias repercutidas na revista são extremamente sensatas e ele não tem interesse em levantar a polêmica pela polêmica. Deu para sentir que não tentará ocupar um lugar de Paulo Francis, como alguns já trataram de rotular o cara - Neo Paulo Francis -, mas segundo o próprio Lucas Mendes, em seus comentários finais, ele tem motivo para ser odiável. Ao que, Diogo consertou que era odiado, não odiável.
As discussões do Manhattan Connection são interessantes por que passeiam de um assunto a outro como as conversas de amigos em bar, lógico que com um pouco mais de organização, e as opiniões abalizadas de jornalistas com uma boa dose de referenciais nos assuntos. Comentários constantes de um economista, Ricardo Amorim, ajudam a dar um enfoque menos técnico a certas questões que por vezes confundem a cabeça das pessoas em geral. E os comentários de política e cultura, estes últimos trazidos principalmente por Lúcia Guimarães, também haverão de ganhar novo enfoque sob os comentários de Diogo, que assume o lugar do já manjado - e este sim, querendo, de qualquer maneira firmar seu nome no panteão dos polêmicos - Arnaldo Jabor, o cineasta que não faz cinema.
As discussões do Manhattan Connection são interessantes por que passeiam de um assunto a outro como as conversas de amigos em bar, lógico que com um pouco mais de organização, e as opiniões abalizadas de jornalistas com uma boa dose de referenciais nos assuntos. Comentários constantes de um economista, Ricardo Amorim, ajudam a dar um enfoque menos técnico a certas questões que por vezes confundem a cabeça das pessoas em geral. E os comentários de política e cultura, estes últimos trazidos principalmente por Lúcia Guimarães, também haverão de ganhar novo enfoque sob os comentários de Diogo, que assume o lugar do já manjado - e este sim, querendo, de qualquer maneira firmar seu nome no panteão dos polêmicos - Arnaldo Jabor, o cineasta que não faz cinema.
Ah, os doces benefícios da invenção do DivX! Graças a este docinho, não preciso mais gastar somas consideráveis em salas de cinema nem em aluguéis onerosos de DVD's. Lógico que, volta e meia, sempre acabo fazendo os dois, por que a experiência proporcionada por tais, ainda é distante da felicidade retumbante que é assistir a um filmezito em wide screen em uma tela de 15 polegadas. Não, eu não tenho placa de TV.
Para falar a verdade, é uma certa onda o comentário acima. O que é bacana, para um cinéfilo como eu, é conseguir angariar perolazinhas do cinema que provavelmente não passarão pela provinciana e mui amada Porto Alegre, ou conseguir assistir antes a estas pequenas preciosidades.
Assim, títulos tão pouco venerados pelo cinema comercial, como Donnie Darko, acabo trazendo para minha pequena CDteca de deliciosos DivX. E continuo assistindo, também, por um preço barato, já que meu fornecedor - não, eu não tenho acesso rápido - me cobra simbólicos preços de custos pela gostosura de alguns filminhos. Alguns títulos que seriam mais ou menos interessante ter a certeza de sua validade enquanto obra, acabam passando pela tela do meu monitor, então, como aquele teste drive amigo antes de dizer bah, que filme bacana.
A preferência são para as pecinhas européias, filmezitos esquisóides de todos os formatos, coisas que acabam ficando - quando vêm para cá - muito pouco tempo em cartaz, ou em pagos muito distantes ou mui frescurosos bragarái.
Ainda que leitores mais moralmente militantes queiram discutir a legitimidade do ato da pirataria desenfreada, confesso que não quero me adentrar em tais questões.
Para falar a verdade, é uma certa onda o comentário acima. O que é bacana, para um cinéfilo como eu, é conseguir angariar perolazinhas do cinema que provavelmente não passarão pela provinciana e mui amada Porto Alegre, ou conseguir assistir antes a estas pequenas preciosidades.
Assim, títulos tão pouco venerados pelo cinema comercial, como Donnie Darko, acabo trazendo para minha pequena CDteca de deliciosos DivX. E continuo assistindo, também, por um preço barato, já que meu fornecedor - não, eu não tenho acesso rápido - me cobra simbólicos preços de custos pela gostosura de alguns filminhos. Alguns títulos que seriam mais ou menos interessante ter a certeza de sua validade enquanto obra, acabam passando pela tela do meu monitor, então, como aquele teste drive amigo antes de dizer bah, que filme bacana.
A preferência são para as pecinhas européias, filmezitos esquisóides de todos os formatos, coisas que acabam ficando - quando vêm para cá - muito pouco tempo em cartaz, ou em pagos muito distantes ou mui frescurosos bragarái.
Ainda que leitores mais moralmente militantes queiram discutir a legitimidade do ato da pirataria desenfreada, confesso que não quero me adentrar em tais questões.
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Alessandro Garcia nasceu em 1979, em Porto Alegre. Autor de A sordidez das pequenas coisas (Não Editora, 2010), finalista do Prêmio Jabuti 2011, segundo colocado no Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional e com conto traduzido para o espanhol na Revista Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional.
Em 2016 participou, com o conto Cachorro correndo sem cabeça, da coletânea Cobain. Em 2015, publicou Agora que Estamos de Volta pelo selo Formas Breves, da e-galáxia, editora na qual também participou da coletânea Contos de Natal, em 2014. Publicou nas coletâneas É Assim que o Mundo Acaba (Editora Oito e Meio, 2012), Assim você me mata (Terracota, 2012), Ficção de Polpa Vol. 3 (Não Editora, 2009), Ficção de Polpa Vol. 1 (Fósforo, 2007; Não Editora, 2008) e em revistas como Ficções e Cult, além de ter conto traduzido para o inglês no Contemporany Brazilian Short Stories e para o espanhol da Cuentos Brasileños de la Actualidade.
Escreveu o perfil do escritor Jonathan Franzen para o livro Por que Ler os Contemporâneos? (Dublinense, 2014). É editor da revista de contos Flaubert.
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SOBRE
- Resenha Amálgama: "Um grande livro."
- Resenha Digestivo Cultural: "A sordidez de Alessandro Garcia"
- Resenha Ivana Arruda Leite: "A sordidez das pequenas coisas"
- Resenha Meia Palavra: "A sordidez das pequenas coisas"
- Entrevista no Paralelos: O Globo Online
- Entrevista programa Estação Cultura, TVE
- Booktrailer de "A sordidez das pequenas coisas"
- Sinopse Não Editora
- Resenha do "Ficção de Polpa".
- Entrevista no Portal Literal
- [MAIS]
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