Dois verões depois e outras visitas ainda mais esparsas que eu sempre lhe reservava, dona Ataíde, já completamente cega pela catarata ainda lamentava e sempre acabava em choro ao lembrar o seu desespero quando o vizinho encontrou o gato coberto por uma pesada pedra.
Eu nunca lamentei.
Trecho do romance inexistente As pernas flácidas de dona Ataíde, a nunca ser lançado.
03 dezembro 2003
Das últimas coisas que eu ainda me lembrava quando voltei à casa, faziam parte a caneca metálica - corroída pela ferrugem e sempre depositada em cima do velho filtro d'água, dos antigos, feitos em barro -, e o gato, velho e gordo, com uma idade que eu não me atreveria em momento algum a especular. Sobre ele, as lembranças eram ainda mais vívidas do que sobre a caneca, uma mera caneca. (O que há para se lembrar dela, afinal? Me servia para beber a água com gosto de terra, e só.) O gato, lento, mas particularmente traiçoeiro, me espreitava do seu canto, perto da porta por onde entrava um filete de sol mesmo nos dias mais frios, e parecia se arrastar com um sofrimento infinito até perto de nós quando eu ousava me aproximar de dona Ataíde. Ela ria, dizendo que ele tinha ciúmes dela e não permitia que ninguém chegasse perto. Pegava o bichano no colo, depois de esperar pacientemente que ele conseguisse romper a distância ínfima, mas olímpica para sua quase total falta de mobilidade, e o postava sobre seu colo, cobrindo sua cabeça e suas orelhas carcomidas com tantos afagos que o bicho ronronava e fechava os olhos, entregue ao prazer. Ao fim de tudo, eu nunca conseguia conversar pacientemente com dona Ataíde, por que aquele bicho me punha nervoso. Entre olhar a velha e cuidar os olhos do gato que, quando abertos, me fitavam profundamente, eu recitava uma meia dúzia de frases e dizia que era hora e tratava de sair logo dali. Ela sempre com seu fica mais um pouco, tu nem tomou o café, mas eu nunca consegui me acostumar com a presença daquele felino balofo.
Encontre o que você procura
.
Alessandro Garcia nasceu em 1979, em Porto Alegre. Autor de A sordidez das pequenas coisas (Não Editora, 2010), finalista do Prêmio Jabuti 2011, segundo colocado no Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional e com conto traduzido para o espanhol na Revista Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional.
Em 2016 participou, com o conto Cachorro correndo sem cabeça, da coletânea Cobain. Em 2015, publicou Agora que Estamos de Volta pelo selo Formas Breves, da e-galáxia, editora na qual também participou da coletânea Contos de Natal, em 2014. Publicou nas coletâneas É Assim que o Mundo Acaba (Editora Oito e Meio, 2012), Assim você me mata (Terracota, 2012), Ficção de Polpa Vol. 3 (Não Editora, 2009), Ficção de Polpa Vol. 1 (Fósforo, 2007; Não Editora, 2008) e em revistas como Ficções e Cult, além de ter conto traduzido para o inglês no Contemporany Brazilian Short Stories e para o espanhol da Cuentos Brasileños de la Actualidade.
Escreveu o perfil do escritor Jonathan Franzen para o livro Por que Ler os Contemporâneos? (Dublinense, 2014). É editor da revista de contos Flaubert.
Arquivo
Booktrailer
SOBRE
- Resenha Amálgama: "Um grande livro."
- Resenha Digestivo Cultural: "A sordidez de Alessandro Garcia"
- Resenha Ivana Arruda Leite: "A sordidez das pequenas coisas"
- Resenha Meia Palavra: "A sordidez das pequenas coisas"
- Entrevista no Paralelos: O Globo Online
- Entrevista programa Estação Cultura, TVE
- Booktrailer de "A sordidez das pequenas coisas"
- Sinopse Não Editora
- Resenha do "Ficção de Polpa".
- Entrevista no Portal Literal
- [MAIS]










