24 dezembro 2003

Este blog permanecerá sem atualizações até os dias 03 ou 04 de janeiro. Boas festas aos leitores do Suburbana.

22 dezembro 2003

Natal é período em que as pessoas caminham enloquecidamente pelos corredores do shopping com crianças gordinhas que berram, pelas mãos, procurando alucinadamente presentes maravilhosos a preços insignificantes. Ou comprando grandes bombas a preços exorbitantes e depois penando nas prestações, por que o espírito de Natal lhes dominou e todos acham que é uma grande festa, grande alegria, se deixar render pelos apelos da mídia e crer que o colorido dos shoppings é só para alegrar seus olhos. E dê-lhe musiquinhas de Papai Noel em looping nas lojas de departamentos.

Porto Alegre. 18 de dezembro. 2003. Bar Opinião. Show do Los Hermanos. Eu tenho ultimamente (?) dividido minhas incursões por shows, sessões de cinema, teatro, mostras de arte e quetais entre experiências cujos resultados que advirão serão nulos, ou serão experiências non-sense; ou, ainda, serão experiências que trarão algum tipo de repercussão, resultado, impressão mais demorada, mudança de sentido na vida, alteração paradigmática no universo e por aí vai. O grande lance é a observação mais demorada sobre todos estes fatos: por vezes, o isolamente emocional, a percepção mais demorada, sei lá, alguma forma que lhe possibilite com mais segurança se dar conta dos efeitos daquela manifestação artística sobre você. No meu texto abaixo, sobre o filme Simplesmente Amor eu digo algo semelhante a que, no mínimo, o filme me fez sentir melhor, e feliz por estar com uma pessoa amada ao lado e com vontade de realmente fazer valer a pena cada instante junto dela. Ou coisa que o valha. E tem sido mais ou menos esta a minha resposta quando me perguntam o que achei do filme. Descontadas suas propriedades ficcionais - ou até por isto - é um filme que me fez sair realmente feliz do cinema, e isto é, sim, uma grande coisa mesmo.

Esta noção, penso, vale para cada manifestação artística que eu vier a tomar parte. Se me fizer sair dela ao menos mais feliz, terá valido a pena e muito. Eu tive certeza de que o show do Los Hermanos seria uma experiência de tal espécie mais ou menos ao soar do segundo acorde da guitarra de Marcelo Camelo. Por que? Talvez por que, antes deles mesmo deles preencherem o espaço do bar com suas vozes ressoantes através da caixa de som, todos os presentes no show já o fizeram. Talvez porque o lirismo, em um união tremendamente clara entre letra e músicas tenha me causado tal sensação. Ou a enlouquecida fanfarra em que se transformavam algumas de suas canções, causando sensações tão destoantes quanto uma audição de Squirrel Nut Zippers ou coisa que o valha.

A verdade é que este é o segundo show dos caras que eu vou no mesmo ano e este conseguiu me deixar ainda melhor impressionado que o primeiro. Como fatores como casa lotada, as pessoas cantando juntas, o calor do espaço, a rica experiência musical que um show deste tipo proporciona, são fatores consideráveis para considerações que podem, por vezes, alterar o sentido, posso reconhecer que, talvez, estes tenham influenciado sobre a minha percepção final do processo. Mas o que é um show senão um somatório de percepções? Se as minhas se tornaram melhores por causa de todos estes adicionais, não sei. O grande lance é que, mais do que sair feliz do local, eu me senti feliz, realmente, em cada um dos acordes, em cada música tocada, em cada manifestação do naipe de metais. Los Hermanos fazem um grande som, e a percepção disto, ainda que se dá de maneira grande ouvindo também Ventura, como estou ouvindo, se dá com ainda maior intensidade indo a um show dos caras. É uma grande experiência.

É preciso força pra sonhar e perceber/ que a estrada vai além do que se vê (Além do que se Vê)

16 dezembro 2003


O cinema que não se vê

O cinema brasileiro - que de uns anos para cá vem ressurgindo com uma maior quantidade e qualidade de produções - passou por anos de ostracismo com a produção de filmes medíocres que acabaram por gerar malformações tanto em sua forma de acesso ao público, quanto de empatia junto a ele. Quando surgiu a primeira edição do Festival de Gramado, em janeiro de 1973, o cinema passava por um processo de provação que o fazia desenvolver a habilidade necessária para poder driblar a censura e tentar estabelecer o cinema no nosso país como arte para grande público, que se pretendia tanto à transformação e subversão do cotidiano, quanto ao entretenimento. Eram anos em que um filme adaptado da obra de Nelson Rodrigues pelo diretor Arnaldo Jabor trilhava caminhos tortuosos. Toda Nudez Será Castigada, premiado então como melhor filme na mostra competitiva (além de melhor atriz, para Darlene Glória), retratava a decadência da moral burguesa em período de abertura política no país. Cinco meses após o sucesso em Gramado, o filme foi censurado no Brasil. Desde aquele momento, o pequeno número de produções em longas-metragens já fez com que, a partir de 1974, a categoria curta-metragem passasse a fazer parte das premiações.

Entre 1974 e 1977, ocorre um revezamento na premiação entre filmes de temática mais debochada (Vai Trabalhar, Vagabundo de Hugo Carvana em 74) e filmes mais intelectualizados, que apesar do grande sucesso de crítica, distanciava o grande público do gosto pelo cinema nacional (O Amuleto de Ogum, de Nélson Pereira dos Santos, em 75; O Predileto, de Roberto Palmari, em 76 e À Flor da Pele, de Francisco Ramalho Junior, em 77).

O grande problema do Festival de Cinema de Gramado sempre foi a inconstância de sua linha de premiação e a quantidade difusa das categorias, ainda que isto possa representar de certa maneira, o caráter com que o cinema se apresentou durante estes anos no cenário nacional e a necessidade de abertura para diversos formatos. No entanto, ao mesmo tempo em que isto pode ser visto como medida prática para o não esmorecimento de tal festival, é visível que, ao longo dos anos, longe do apelo tecnológico com que o cinema foi se revestindo, e a melhoria na qualidade de suas produções (principalmente a partir da década de 90, com alguns destaques para o período oitentista) tal confusão de categorias e formatos contribuiu para afastar o público geral do interesse pela função, e afastá-lo também do entusiasmo por esta que deveria ser a festa mais importante do cinema nacional. O que se vê nos últimos anos, é o interesse que cerca somente a "classe" que forma a nata hoje produtora de cinema no Brasil (alguém aí pensou na família Barreto?).

A partir de 1979 começa a premiação de filmes de difícil apelo popular, como Raoni, de Luís Carlos Saldanha e Jean-Pierre Dutilleux, uma co-produção francesa premiada neste ano. Tratava-se de um documentário sobre índios e ecologia (!). Em 80 se repete o mesmo fenômeno na premiação de filmes extremamente segmentados: Gaijin, Caminhos da Liberdade, de Tizuka Yamasaki fatura os principais prêmios da função festiva. Em 82 ocorre a abertura para um filme de caráter contestatório e com grande apelo de público na época: Pra Frente, Brasil de Roberto Farias conquista o prêmio principal, ainda que acabe tendo a mesma sina do filme do Carvana - acabou proibido pela censura. Em 1984 acontece a estréia histórica para o festival realizado no Sul: o filme Verdes Anos, longa gaúcho de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil é premiado com o Kikito de Revelação (Kikito é o prêmio dado no festival que significa "o Deus da Alegria"). Nota-se também a maciça inscrição de curtas-metragens e a produção cada vez mais criativa que começa a vicejar nesta área.

1991 foi o último ano de exclusiva participação dos filmes nacionais na premiação. A partir da 20ª edição, em 1992, o festival passe a se chamar Festival de Gramado - Cinema Ibero-Americano, abrindo-se para a premiação de produções latinas, também. Se por um lado tal abertura já começou premiando o colombiano Tecnicas de Duelo, de Sergio Cabrera, por outro lado, o festival também pôde ter a honra de premiar Pedro Almodóvar, por De Salto Alto com três Kikitos: melhor diretor para Almodóvar, melhor atriz para Marisa Paredes e melhor música para Ryuicky Sakamoto. Com tal abertura, que serviu para compensar o fato de haver então poucos filmes brasileiros para concorrer no festival durante este período de baixa produção pelo qual passou, o Brasil ficou até 1996 sem ganhar o prêmio principal (o festival passa a completar seu nome com Cinema Latino), o que só aconteceu com Quem Matou Pixote?, de José Joffily, quando, então, o festival adota o nome que carrega até hoje: Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro. Já estamos dentro da engrenagem de boas produções nacionais, e 1997 premia Beto Brant por Os Matadores, e começa a haver um real equilíbrio entre as produções brasileiras e latinas premiadas.

Ao mesmo tempo em que ocorre um equilibro entre as nacionalidades premiadas no festival, o que se percebe é uma resposta diferente da pretensa sensação alardeada pelo festival e do real contato do público com os filmes premiados e todos os outros participantes. A má distribuição de filmes brasileiros pelas salas de projeção no Brasil e a pouca receptividade que estes vinham tendo com o público em geral, são motivadores desta dissonância entre apelo popular e consagração crítica. É bem verdade que a má vontade na nossa aceitação de filmes latinos também se dá como complemento para tal difusão - é mais ou menos novidade o respeito que diretores como Almodóvar, Bigas Luna, entre outros, conquistaram no Brasil. O cinema latino, que antes parecia tão kitsch, hoje se mostra o produto ideal para a projeção em disputadas salas de artes. E dizer-se fã de Almodóvar é quase querer passar-se por intelectualizado, uma vez que o diretor demonstra um caráter cada vez mais extraordinário em suas obras: o que sempre foi aclamado pela crítica passa a ser também pelo público, o que é um grande feito. Tão grande quanto o sucesso merecido que os filmes brasileiros também passaram a fazer.

Mas os filmes brasileiros são outra história a se contar e que adquire contornos diferenciados. A atual safra do cinema nacional tem se dividido quase entre dois subprodutos de fácil caracterização: os filmes de apelo urbano, identificáveis por uma grande dose de violência, senão explícita, subentendida. E os filmes feitos dentro dos padrões globais que se situam como uma repetição de fórmulas já consagradas na televisão. Os épicos gaúchos (dentre os quais se destaca a grande bomba A Paixão de Jacobina, do clã dos Barretos) ainda não têm uma representação muito significativa, embora se possam enumerar coisas como Neto Perde sua Alma e Anahy de Las Missiones como produções que se deve esquecer solenemente.

Dentre os filmes do primeiro grupo, estes servem, senão pela qualidade, ao menos como peça para intelectualóides divagarem sobre a gratuidade de suas cenas e a maquiagem esteticamente agradável dispensada aos seus cenários de miséria e marginalidade. Se a tendência monotemática começa a saturar, com a quase confusão de suas tramas excessivamente urbanas e cinzentas (Os Matadores, O Invasor, O Homem do Ano, etc, etc), por outro lado, para mim sempre me pareceu que o cinema nacional estaria entrando em uma rota de grande produção quando começasse também a fazer filmes desprovidos de caráter de grandes elucubrações estilísticas (vide Glauber Rocha) e mais voltados para uma linguagem pop e de ficção degustáveis. O chamado cinema B nas produções norte-americanas. Várias tentativas vêm sendo feitas neste sentido, tendo reconhecimento do público (Cidade de Deus, O Homem que Copiava), mas também se tem cometido lá as suas derrapagens (Carandiru, felizmente, é o exemplo que se situa mais ou menos sozinho neste rol). A ambição por tramas mais culturais e densamente investigativas não terminou, e com isto se tem pérolas como Madame Satã, por exemplo, ao mesmo tempo em que todos estes supracitados tem que competir com a receita fácil de filmes que mais parecem a transposição de uma novela das oito para a película.

Era extremamente óbvio que quando a cinematografia nacional começasse a deslanchar, a toda poderosa Rede Globo entraria de cabeça em tal filão, e com toda a sua grandiosidade, começaria a faturar com a produção de filmes com seu "alto padrão de qualidade". Infelizmente, vem mantendo uma certa hegemonia no mercado com filmes que não acrescentam nada mais do que as suas novelas têm acrescentado ao longo de todos estes anos ao público acostumado a receber a ficção mastigada e previsível. O repúdio à busca de novas soluções cinematográficas por parte do público, e a aclamação do método estabelecido de produção ficcional ainda é uma constante. Somente partindo-se deste pressuposto é que se consegue entender o sucesso de fórmulas de tão pouca riqueza narrativa e com soluções e arranjos tão semelhantes e facilmente encontráveis em qualquer trama do Gilberto Braga. A Partilha, Amores Possíveis, Pequeno Dicionário Amoroso, Solteiro no Rio de Janeiro e os mais recentes O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro não fogem à regra de produções que deram certo na televisão quase na íntegra ou em formas muito semelhantes e, conseqüentemente, não ofereceriam risco em um investimento para o cinema.

O grande problema é viciar a massa popular de espectadores a continuar vinculada à produções que tragam os mesmo atores conhecidos pela tela de tevê. E aqui voltamos novamente para o Festival de Gramado, quando o que se viu causando frisson no grande público foi o desfile de atores globais pelo tapete vermelho do Palácio dos Festivais. Muitos dos quais não estreavam nenhum dos filmes concorrentes, mas que deram o ar de sua graça para comprovar a popularidade que seus personagens em novelas vêm conquistando cada vez mais. Coincidentemente, os dois atores premiados com o prêmio principal são do cast da Rede Globo: Marcelo Serrado e Maria Fernanda Cândido. A resposta festiva a estes atores é o único momento em que parece haver uma identificação entre o que estava sendo premiado em Gramado e o público espectador, porque, no Brasil, o que causa esta estranheza em relação ao nosso maior festival é o fato de a maioria dos filmes não ter passado em circuito comercial em período anterior à premiação nem mesmo nas grandes capitais, sendo de quase total desconhecimento do público. Daí filmes premiados e poucos vistos como De Passagem, Noite de São João, O Preço da Paz contribuírem para gerar um evento que acaba sendo festejado na sua íntegra quase somente pelos privilegiados produtores desta estranha indústria que ainda é o cinema no Brasil.

Publicado originalmente nos sites ExpressOpinião e no Duplipensar.

Continuando a saga a respeito dos metrossexuais, no Duplipensar continua nova especulação minha a respeito.

15 dezembro 2003

O texto você já leu aqui. Mas, se achar que fica melhor ainda ler na Fraude, dá uma clicadinha que meu texto sobre o Zeca Pagodinho tá rolando por lá.

12 dezembro 2003

O texto abaixo foi publicado originalmente no Simplicíssimo [chegando às caixas de e-mail hoje]. Ainda não assinou? Dá um toque aqui, então. A publicação aqui se faz necessária porque eu não escrevi outro texto a respeito do mesmo filme. Rafael, pois, que me perdoe.


Momentos de graça e romantismo (ou: Os doces instantes de imbecilidades que nos conquistam)

Filmes de amor são os raros e explícitos momentos de imbecilidade a que nos dedicamos sem a maior das vergonhas. Sabemos por antemão o andamento de suas tramas e, no entanto, nos permitimos a auto-enganação indulgente que nos possibilita a graça de alguns minutos de risos e o sentimento de que, afinal, o mundo não está perdido. Não está perdido por que o amor está em toda parte. Isto – a certeza de que o amor este em toda parte – é o que fala um personagem no começo de “Simplesmente Amor”, quando observa as chegadas e partidas em um aeroporto. Por mais que tudo esteja ruim “lá fora”, as pessoas em aeroportos se abraçam ao partir ou ao chegar às pessoas que amam, e isto por que, afinal, há muitas pessoas que se amam! E este não é um prólogo padrão para começo de resenha de filme. Não é, porque, por mais estranho que pareça, tenho a pretensão de tentar tirar lição – para o bem ou para o mal – de tudo o que me cai em mãos ou, como espectador, tenho a possibilidade de apreciar. Então, uma vez tendo me disponibilizado, de caso pensado, a assistir a um filme obviamente romântico – sobre amor, com amor, casais apaixonados, e esta coisa toda, então – tenho, não a ingenuidade, mas talvez o positivismo de sugar bons resultados ou mensagens válidas ou simplesmente saborear os momentos explícitos de imbecilidade a que resolvi me dedicar.

Imbecilidade, eu sei, parece um termo forte demais para se usar quando se comete a inofensiva tarefa de deleitar-se com um filmeco de amor. No entanto, por mais que este termo não nos ataque enquanto estamos rindo com as piadas –“Olha que inteligente, Richard Curtis fez com que o primeiro-ministro inglês pareça um cara mais ameaçador do que o presidente americano!” –, e nos engalfinhando na pipoca e graciosos de mãos dadas com a guria, quase que invariavelmente a sensação – a de imbecilidade... – pinta depois. Nada daqueles chavões de “oh, fui me enfurnar em um grande cinema de shopping comandado por uma multinacional para comer pipoca e refrigerante (de uma multinacional), vendo uma comédia enlatada imposta pelos gigantes imperialistas”. Não, não vamos tão longe assim. A gente só se sente razoavelmente imbecil, por que, por vezes, rir com uma trama fictícia, armada para a ilusão dos nossos sentimentos e se sentir razoavelmente bem e achar que o amor, afinal, existe – ainda que sob a forma pictórica e estereotipada de todos os finais felizes de aniversários e festas de escolas que acabam sendo o epílogo de quase todos estes filmes ingleses (quando não terminam em casamento ou funeral) ... – faz com que nos sintamos, sim, um pouco constrangidos! Mas só um pouco... O outro tanto eu deixo para realmente me sentir feliz ao final da sessão, de mãos dadas com minha guria, saboreando pipoca e refrigerante e me encantando com um filmeco inglês com histórias inverossímeis sobre o amor.

É, aquela história de “o amor está em todas as partes” (''Love is All Around'', a mesma música-tema de ''Quatro Casamentos e um Funeral'', aparece neste filme, também, só que hilariamente modificada para uma canção caça-níquel de Natal, cantada pelo astro de fim de carreira Billy Mack, interpretado por Bill Nighy, nos momentos mais hilariantes do filme.)

Ok, ok, as sensações são estas. E eu sempre me interessei, demasiadamente, pelas sensações despertadas pelas obras sobres os críticos – literários, cinematográficos, etc... Resumo da ópera você consegue em qualquer site ou segundo caderno de jornal, agora, saber o que a pessoa sentiu assistindo um filme ou lendo um livro é outra questão. E os filmes românticos, que não se pretendem mais profundos ou analíticos, têm comumente, a possibilidade de despertar, ao menos em mim, dois tipos de sensação: a de estupidez completa ou a de deleite prazeroso por que uma boa história foi contada.

Os filmes que conseguem me despertar o primeiro sentimento normalmente são aqueles formados por tramas tão estúpidas e forçadas ao extremo, que nem para sessão da tarde servem. Tramas amorosas inverossímeis, reviravoltas burlescas e aventuras tôscas acabam me deixando realmente irritados, quando chego a conclusão – antes que o filme termine, hein! – que mesmo com tudo isto, o casal vai ficar junto no final. É, nós sabemos que no final, quase sempre o casal fica junto – diretor que resolve fazer o contrário, em um ataque de originalidade que pretende para sua obra, invariavelmente colhe a ruína ou pouca receptividade ao seu filme. Temos que reconhecer, somos absolutamente conservadores em se tratando de trama romântica, ao menos no cinema. Ou ao menos em filmes como estes, mais rápidos e dugustáveis com a pressa de um lanche encostado ao balcão. O charme do cinema inglês pede tramas rechonchudas de amor e promessas inacabáveis de final feliz.

Desde já, saibamos, então, que “Simplesmente Amor” termina com felicidades para todos! Grande surpresa, hein?! Mais surpresa? Todos felizes, em um aeroporto, esperando as pessoas amadas, tal qual no começo. Não, minhas revelações não chegam a estragar nada, até por que não há nada tão surpreendente assim. O que temos neste filme é um pretenso épico amoroso conduzido pela estrela principal dos últimos grandes sucessos de comédias românticas inglesas. Richard Curtis, o diretor deste, é o roteirista de “Quatro Casamentos e um Funeral”, “Um Lugar Chamado Notting Hill” e co-roteirista de “O Diário de Bridget Jones”. Era lógico que, cedo ou tarde, ele fosse querer dirigir o seu próprio filme. Estreou bem, muito bem, pode-se dizer. Com temáticas universais, os apelos sentimentais mostrados em seu filme conseguiram fazer tanto sucesso na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Na Inglaterra, não seria surpresa: nos três filmes – quatro com este último – temos Hugh Grant, o ator mais querido daquele país, fora o fato de todos estes filmes contar com aquele humor tipicamente inglês, cheio de sarcasmos e citações mórbidas, com o sotaque que eles consideram o maior charme do mundo. Nos Estados Unidos, mesmo com o personagem de Billy Bob Thorton fazendo o papel de um presidente americano arrogante meio tarado (uma mistura de Bill Clinton e George W. Bush), o filme também conseguiu uma grande bilheteria, arrecadando cerca de US$ 32 milhões.

Apesar da presença de Hugh Grant no filme – desempenhando o papel de um improvável primeiro-ministro inglês com o mesmo cabelo desalinhado e os mesmos cacoetes e gracejos de “Amor à Segunda Vista”, que se apaixona pela sua assistente de gabinete (a popular e linda atriz inglesa de novelas Martine McCutcheon), um dos principais motivos para o bom desempenho no filme (e, dizem, o preferido das espectadoras...) é a presença do ator Colin Firth. Ele e a atriz portuguesa Lúcia Moniz protagonizam talvez a mais verossímil e encantadora das nove pequenas historietas que se intercalam durante o filme inteiro. Firth é Jamie, um escritor que viaja para o sul da França a fim de terminar seu livro e acaba se apaixonando por Aurélia, a faxineira que diariamente arruma a pequena casa onde está hospedado. Mesmo com a distância das culturas e sem que nenhum dos dois tenha conhecimento sobre a língua do outro – e este é o grande mote atrativo – com a paixão deste casal o diretor tenta passar a máxima que o amor é mesmo universal.

A sucessão de tramas acontece de maneira bastante natural, sendo que não chega a haver aquela relação forçada de telenovela, em que todo o mundo se conhece (isto acontece somente nas duas cenas finais, na festa de fim de ano do colégio e na supracitada cena do aeroporto). Quando isto ocorre, não chega a ter uma função de servir de “anzol” para a justificativa de outro personagem: foi somente a opção argumentativa do autor. Como a personagem de Emma Thompson, irmã do primeiro-ministro e às voltas com a traição do marido (Alan Rickman) com a secretária. Como as histórias são ambientas em uma Londres às vésperas do Natal, tudo parece ainda mais mágico, e compras de final de ano são uma boa justificativa para piadas com presentes e canções natalinas. E é como um engraçado atendente de shopping que surge (em um das suas duas pequenas participações) Rowan Atkinson, o Mr. Bean, amigo pessoal do diretor.

Ademais, temos o recém-viúvo (Liam Neeson), às voltas com o enteado apaixonado (o garoto que fala como adulto Thomas Sangster), e, claro, o personagem de Rodrigo Santoro, como um designer que é objeto de desejo da sua colega de trabalho Laura Linney. Teve quem contasse até o seu número de cenas e falas (segundo a revista Época, doze cenas e dez falas), mas isto é um exagero de revista muito preocupada com o desempenho de um brasileiro no cinema estrangeiro, ou maldade de quem quer contabilizar o seu talento pelo número de aparições na tela. O fato é que o personagem de Santoro é o com menor densidade dramática na trama – na verdade, nada sabemos dele além de que trabalha no mesmo escritório que a personagem de Laura. Sua cena mais importante é quando, finalmente, sozinho no apartamento com Laura, são interrompidos constantemente pelo telefone dela, sempre às voltas com o irmão doente e internado. Depois disto, e daquele clima constrangedor de reencontro no escritório, seus personagens são praticamente esquecidos e fica em aberto que fim tiveram.

O filme conta, ainda, com pontinhas de Denise Richards, Shannon Elizabeth, Claudia Schiffer, tudo em 129 minutos da projeção. São mais de duas horas, com diversas histórias, umas funcionando mais do que as outras, obviamente. Consegue-se um bom saldo no fim: afinal, sair do cinema com um sorriso pela tarde agradável proporcionada pelo filme, sempre é um bom saldo, não é?


10 dezembro 2003

Prestando um serviço de utilidade pública, o site Sabotagem está disponibilizando uma lista delícia de livros em formatos PDF, a serem baixados gratuitamente. Obras da estirpe d'O Apanhador no Campo de Centeio, Contos Libertinos, do Sade, Desobediência Civil, do Thoreau, entre outras pérolas. Grande abraço à cultura.

09 dezembro 2003

"Ela vai pegando o ímpeto de uma Bugatti. Você a quer mais no trote constante de um Volkswagen. Você arranca a quilometragem máxima de seu galão de gasolina. Mas ela está devorando a estrada, com todos os cilindros em potência total."

Que beleza, hein? Vai dizer que não ficou excitado? Pois esta pérola da descrição sexual foi o ganhador do temido prêmio britânico de Sexo Ruim na Literatura de Ficção, e é trecho do livro Bunker 13, do jornalista investigativo indiano Aniruddha Bahal, que ainda viajou até Londres para ganhar a distinção das mãos do cantor Sting, na presença de um público de cerca de 500 pessoas.

Pois o autor desta deliciosa passagem, arrematou o prêmio das mãos do nosso querido Paulo Coelho, que, em seu livro Onze Minutos, com passagens como "eu era a terra, as montanhas, os tigres, os rios que desaguavam nos lagos, o lago que virava mar", era um dos grandes preferidos para ganhar o trofeuzinho ou seja lá o que é dado em tal premiação.

Capa do novo CD do Tears for Fears, que deve ser lançado em 31 Março de 2004Revival dos anos 80? Falta de grana e embuste dos grandes dinossauros atrás da recompensa dos sucessos dos tempos áureos? Sei lá. O que acontece é que as duplas clássicas da época do tunt-tunt e das canções folk estão todas se juntando novamente - com saudade e tal - e revivendo seus sucessos de outrora. Primeiro foram os grandes Roland Orzabal e Curth Smith, as tias fofinhas do Tears for Fears que se uniram em um show beneficente do tenista Andre Agassi. Agora, os velhos Art Garfunkel e Paul Simon voltam a cantar juntos depois de dez anos, excursionando por trinta cidades americanas e canadenses "mas sem planos de registrar a turnê em disco". Depois se - oh - surgir um cd reunindo os "melhores momentos" do show, terá sido por um motivo de força maior, ou por que "não se podia perder tão bom material", apesar das informações de que a voz de Garfunkel anda ringindo como uma porta velha.

05 dezembro 2003

Não sei se sexta-feira é um dia realmente especial por estar no inconsciente coletivo como sendo "o dia" importante, de final de semana, e de perspectiva de uma fim de semana que se adentra. O lance é que hoje, estava um dia realmente especial, de uma temperatura agradabilíssima e tudo parecia extreamente tranqüilo e aprazível. E continua parecendo. Talvez carregue toda a série de simbolismos que empregamos para este dia. Sei lá. O negócio é que hoje o dia está muito agradável e a noite oportuníssima para se aproveitar. Vou-me.

04 dezembro 2003

Ao chegar no seu fatídico formato Acústico MTV, Zeca Pagodinho começa a trilhar um caminho predestinado a um número pequeno (?) mas cada vez mais recorrente de estrelas da música, que nascem de um meio popular, ou engrenam com algum sucesso de caráter mais massivo e, por um motivo ou outro, se tornam objeto cult, e acabam elevados a artistas de primeira grandeza.

Não me entendam mal. Eu sempre gostei de Zeca Pagodinho, desde os discos em vinil como Patota de Cosme, já consumidos desde a minha infância em casa e segui acompanhado discretamente sua carreira e compactuando com o seu estilo orginal de pagode. Sempre foi para mim, portanto, artista de primeira grandeza. Por que com Zeca Pagodinho temos a certeza de estarmos no terreno certo quando falamos de pagode. Este é o princípio das coisas, desde o partido alto. Nada de invencionices com teclados e passinho pra lá e passinho pra cá que os maurícios de camisa de fio de ouro desfilam com seus chororôs românticos. Pagode, no andamento, na musicalidade, na atitude. O porquê deste rascunho de samba-melody de hoje ter adquirido a mesma denominação, é um trabalho demasiado grande para se iniciar aqui, ainda que eu ache que mereça apreciação de um verdadeiro crítico e estudioso musical.

O grande lance é que Zeca Pagodinho sempre reinou absoluto para os conhecedores do verdadeiro samba e sempre esteve em terreno mais do que seguro com suas canções. Continuou em alta e não sumiu mesmo com a ascenção de grupos "de samba" que em nenhum momento honraram grupos como Fundo de Quintal. Em um instante, no entanto, Zeca Pagodinho foi "descoberto" pelos grupos de classe A e B, já um tanto enjoados das cantigas de amor-corno que os pagodes-de-teclado lhes proporcionavam, e foi elevado à primeira grandeza da música. As pessoas, de uma hora para outra, descobriram que é legal enaltecer o original e foram atrás também de Bezerra da Silva! Talvez a Marisa Monte inventando seu arranjo "sofisticado" com a participação da Velha Guarda da Portela tenha alguma coisa a ver com isto. É "inteligente" beber das velhas fontes e "descobrir" aquilo o que é original e de qualidade.

Zeca Pagodinho vêm, dentro deste aspecto, trilhando um caminho mais ou menos semelhante ao que foi imposto aos Los Hermanos. Chegaram com um grande hit grudento que foi centro das atenções por um ano. Depois sumiram. Aí voltaram com canções mais esquisitinhas, numa onda meio Chico Buarque, grandes sambas-canções e o escambau. Deu no que deu. Hoje são amados e lambidos pela filha da Elis Regina ("Ah, se ela gosta é por que eles são bons!"), tem seu lugar assegurado em qualquer festival de música que se pretenda mais alternativex e fazem parte da grande nata da música. A diferença é que Zeca Pagodinho sempre esteve presente com uma qualidade igual (e superior) de música, e não se alterou em nada para fazer e colher o sucesso que hoje é merecido. Acho, inclusive, que merece todo o sucesso que tem. A maneira como o tem é que soa falsa. Com um atraso que se mostra desrespeitoso com sua história, e com uma tonalidade cult que parece indicar pouca duração.

A MTV tenta farejar aquilo o que é descolê, coloca-lhe um invólucro fashion e temos um grande produto de mídia! O mesmo aconteceu com os caras do Art Popular. Em um momento em que o samba-rock virou o grande hype, tacaram os caras com arranjos bacanas de suas músicas, cheios de vocais e violões e tivemos o Acústico Art Popular! A moçada gostou, as loiras da zona norte (no Rio e em São Paulo, zona sul) sacolejaram ao som de seu suingue, esgotou-se o manancial de sucessos e sumiram de novo. Tenho medo que o mesmo aconteça com Zeca Pagodinho. Não que seja esquecido por quem gosta e sempre gostou dele de verdade. Mas que seja usado de maneira tão assoberbada pela mídia, que enjoe, ninguém mais agüente ouvir deixa a vida me levar, vida leva eu, e o decretem peça de museu, quando mostra o verdadeiro artista do samba que é.

Fico feliz é que dentro de tudo isto ele esteja ganhando a sua grana, colhendo os frutos de um trabalho honesto e de qualidade, mas todos sabemos que a caralhada de aparições no programa do Faustão vai lhe reservar em breve um período de ostracismo dos grandes veículos. Assim como hoje é cult, bacaninha buscar na periferia as jóias raras que sempre estiveram por lá (olha a onda hip-hop aí, o culto ao Seu Jorge, e outros), da noite para o dia os cartolas das programações televisivas decidem que o que era já não é mais sucesso, e vamos chamar o Felipe Dylon e esquecer o Zeca. Sorte dele que quem sabe o que é bom sempre será público cativo de seus shows e apreciador de seus trabalhos.

03 dezembro 2003

Das últimas coisas que eu ainda me lembrava quando voltei à casa, faziam parte a caneca metálica - corroída pela ferrugem e sempre depositada em cima do velho filtro d'água, dos antigos, feitos em barro -, e o gato, velho e gordo, com uma idade que eu não me atreveria em momento algum a especular. Sobre ele, as lembranças eram ainda mais vívidas do que sobre a caneca, uma mera caneca. (O que há para se lembrar dela, afinal? Me servia para beber a água com gosto de terra, e só.) O gato, lento, mas particularmente traiçoeiro, me espreitava do seu canto, perto da porta por onde entrava um filete de sol mesmo nos dias mais frios, e parecia se arrastar com um sofrimento infinito até perto de nós quando eu ousava me aproximar de dona Ataíde. Ela ria, dizendo que ele tinha ciúmes dela e não permitia que ninguém chegasse perto. Pegava o bichano no colo, depois de esperar pacientemente que ele conseguisse romper a distância ínfima, mas olímpica para sua quase total falta de mobilidade, e o postava sobre seu colo, cobrindo sua cabeça e suas orelhas carcomidas com tantos afagos que o bicho ronronava e fechava os olhos, entregue ao prazer. Ao fim de tudo, eu nunca conseguia conversar pacientemente com dona Ataíde, por que aquele bicho me punha nervoso. Entre olhar a velha e cuidar os olhos do gato que, quando abertos, me fitavam profundamente, eu recitava uma meia dúzia de frases e dizia que era hora e tratava de sair logo dali. Ela sempre com seu fica mais um pouco, tu nem tomou o café, mas eu nunca consegui me acostumar com a presença daquele felino balofo.


Dois verões depois e outras visitas ainda mais esparsas que eu sempre lhe reservava, dona Ataíde, já completamente cega pela catarata ainda lamentava e sempre acabava em choro ao lembrar o seu desespero quando o vizinho encontrou o gato coberto por uma pesada pedra.


Eu nunca lamentei.


Trecho do romance inexistente As pernas flácidas de dona Ataíde, a nunca ser lançado.

Preâmbulo às Instruções para dar corda no relógio


Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que eles não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perde-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.


Instruções para dar corda ao Relógio


"Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.


Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada."

01 dezembro 2003

Os dias andam atribulados à grande: conforme se pode ver, lógico, pela falta de posts aqui nesta casa de boa família. Ando envolvido com um projeto de histórias em quadrinhos e, como o prazo já expirou, tenho que tocar a coisa de uma maneira enlouquecida para que todas as partes saiam contentes na história.

Assim que sobrar tempo, coisas novas se farão presentes.