"Pode haver guerra, fanatismo e conflito em qualquer lugar, mas sempre haverá um garoto tentando observar uma viúva por uma fresta enquanto ela tira a roupa".
Amós Oz
Se as Lojas Americanas realmente se empenhassem [e eu me refiro às lojas reais, não à virtual - e falo aqui de Porto Alegre, já que não sei como funcionam nos outros estados] iria começar a dar dor de cabeça em muitas pequenas livrarias se começasse a vender livros. Digo isto porque neste fim de semana passando por uma das lojas, vi uma daquelas liquidações - que geralmente envolvem CD's e DVD's [e que, na maioria das vezes oferecem "Ritmo Quente", "Amnésia", vídeos músicais do Motörhead e Donna Summer e desenhos animados toscos aos milhares] - e desta vez eles tinham livros em oferta, a partir de R$9,90(!).
Se as Lojas Americanas realmente se empenhassem [e eu me refiro às lojas reais, não à virtual - e falo aqui de Porto Alegre, já que não sei como funcionam nos outros estados] iria começar a dar dor de cabeça em muitas pequenas livrarias se começasse a vender livros. Digo isto porque neste fim de semana passando por uma das lojas, vi uma daquelas liquidações - que geralmente envolvem CD's e DVD's [e que, na maioria das vezes oferecem "Ritmo Quente", "Amnésia", vídeos músicais do Motörhead e Donna Summer e desenhos animados toscos aos milhares] - e desta vez eles tinham livros em oferta, a partir de R$9,90(!).
Fiquei um considerável tempo procurando alguma coisa que prestasse, mas as opções não divergiam em sua maioria de livros de auto ajuda, espíritas e quetais. Entre uns romances canhestros, umas dezenas de exemplares da "Fantástica História do Silvio Santos", um romance escrito pelo Ethan Hawke, consegui achar - único exemplar - um livro de Amós Oz: O mesmo mar, publicado aqui pela Cia. das Letras, novo, pela bagatela de R$9,90. No livro, o autor mistura prosa e poesia para contar sobre o cotidiano de uns poucos personagens, tomados a esmo da sociedade que observa em seu país (Israel): um pai viúvo, um filho desgarrado, uma jovem desorientada e sexy, um marceneiro que ama música erudita, um grego que traz os mortos ao mundo dos vivos.
Depois de uns três anos ficou claro que ela nem ao menos podia
(O trecho abaixo está diagramado da mesma forma que no livro, respeitando a composição poética do texto do autor:)
O mesmo mar
Amós Oz
Companhia das Letras
Tradução do hebraico: Milton Lando
Depois de uns três anos ficou claro que ela nem ao menos podia
lhe dar filhos. O
viúvo, desconsolado, divorciou-se e casou-se com a prima dela.
Devido à
vergonha e ao sofrimento por que estava passando, seus pais lhe
deram
permissão para ir ao encontro do irmão e da cunhada que tinham
emigrado para
Israel, e de viver lá sob a supervisão do casal. O irmão alugou-lhe
um sótão em Bat Yam e arranjou um trabalho numa oficina de
costura. O dinheiro
que recebera no divórcio, ele depositou numa poupança para ela.
E assim,
aos vinte anos de idade, voltou a ser uma moça solteira. Gostava de
ficar
sozinha a maior parte do tempo. O irmão e a cunhada ficavam de
olho, mas
na verdade era desnecessário. Às vezes tomava conta dos filhos
deles, à noite, às
vezes saía com alguém, ia a um café ou ao cinema, sem se envolver:
nãogostava da idéia de ser deitada de costas de novo, com a camisola levantada, e
sabia acalmar sozinha o seu corpo. Na oficina de costura era considerada uma
trabalhadora séria e responsável e, de modo geral, uma moça encantadora.
Uma vez foi ao cinema com um jovem tranqüilo, sensato, um contador,
parente distante da sua cunhada. Quando ele a acompanhou até
a casa, pediu-lhe
desculpas por nem sequer tentar namorar com ela, não porque,
Deus me
livre, não a achasse atraente, mas, pelo contrário, porque não
saberia comoagir. Já tinha acontecido de moças caçoarem dele por causa disso,
explicou,
e até ria um pouquinho de si mesmo, mas era a pura verdade.
Ao ouvir isso ela sentiu de repente na nuca, nas raízes dos cabelos,
uma
espécie de agradável aspereza interna, que irradiou calor para os
ombros e
axilas, e foi por isso que sugeriu, Vamos nos encontrar de novo na
terça-feira,
oito da noite. Alegre, Albert respondeu: Com todo o prazer.










