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24 julho 2011

“Brooklyn”: espelho de leves deslocamentos

O pai de Eilis Lacey está morto. Seus irmãos mais velhos, trabalhando na Inglaterra. Na Irlanda do início dos anos 50, na pequena Enniscorthy, onde vive, há poucas perspectivas de emprego e casamento. Os dias de Eilis são preenchidos pela companhia da irmã mais velha, Rose, da mãe e pelo trabalho na loja que odeia, da srta. Kelly. Diferente da calorosa e divertida Rose, Eilis é introvertida, tímida e submissa: quase um estereótipo do pequeno papel então reservado aos personagens femininos nas relações familiares daquele período.

É Eilis a protagonista de Brooklyn (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 304 páginas, R$39,50) romance de Cólm Tóibín. Limitada por um cotidiano medíocre, Eilis sonha com um emprego onde possa exercer seus conhecimentos adquiridos em um curso de contabilidade – e largar de vez o serviço na mercearia, entre manteigas e frios, onde a execrável srta. Kelly a trata com grosseria desmedida. Eilis também sonha com um namorado romântico, entre um baile e outro na companhia de suas amigas Nancy e Annette, e em ser tão admirável e graciosa quanto sua praticamente perfeita irmã Rose. Os dias passam todos iguais, no entanto, por mais que sua irmã se empenhe em tentar arranjar-lhe um emprego no escritório onde trabalha. Assim também é na vida amorosa, composta de pequenos flertes sem maiores conseqüências. O consolo são os jantares em família, nos quais sua irmã diverte a ela e sua mãe com as histórias do clube de golfe do qual faz parte e as pequenas fofocas amorosas sobre as amigas. Nada parece andar na vida de Eilis.

Seus dias só são abalados por um súbito arranjo de sua irmã e mãe. Através do padre Flood, Eilis tem a possibilidade de morar e trabalhar nos Estados Unidos, no Brooklyn. Mais do que um convite, Eilis é praticamente empurrada pela certeza da falta de opções em seu país, resultado de dias repletos de mesmice e pelo exemplo de seus irmãos que também seguiram o caminho da emigração antes dela.

O mais simples seria conceituar Brooklyn como um “Bildungsroman”. Crer que acompanhamos a formação e o crescimento da personagem Eilis, da estagnada vidinha na Irlanda aos dias que se constroem nos Estados Unidos. No entanto, é difícil perceber seu crescimento. Se a autoridade familiar e masculina é algo que devemos compreender como retrato da época, difícil é não sentir pena de Eilis e sua tendência à aceitação irrestrita e imediata de tudo o que lhe é imposto. De cara, ela é praticamente “informada” pela srta. Kelly, que lhe chama um dia à mercearia, de que vai ser sua empregada. Da mesma forma acontece com sua mudança para os Estados Unidos – por mais que a quase invisível perspectiva de um futuro seja fato, sua personalidade é de quem baixa a cabeça e concorda, sem maiores questionamentos.

A literatura de Tóibín é límpida. Sem quaisquer malabarismos formais, acompanhamos através de sua narrativa linear os dias de Eilis no Brooklyn, onde se estabelece como vendedora em uma loja de departamentos, ao mesmo tempo em que faz um curso noturno de contabilidade. Morando em uma pensão para irlandesas, logo se deslumbra com as pequenas regalias que o outro país lhe oferece, do aquecimento constante em seu quarto à facilidade de acesso às roupas da moda. E os bailes realizados na paróquia do padre Flood, no Brooklyn, não tardarão a lhe apresentar um interesse romântico, um casamenteiro ítalo-americano cheio de boas intenções.

E é justamente o personagem Tony, seu namorado americano, quem evidencia o que é, provavelmente, um dos maiores defeitos de Brooklyn: a falta de nuances de seus personagens. Assim como ele se mostra um rapaz confiável, amoroso e bondoso, sem quaisquer atitudes que possam ameaçar esta impressão pelo leitor, a personagem da srta. Kelly é uma megera, Rose é a doçura e perfeição em pessoa, e padre Flood é quase um gênio da lâmpada pronto a realizar qualquer pedido de Eilis, resolver qualquer problema, arranjar qualquer situação, contribuindo para manter os dias dela sem nenhuma atribulação naquele país estranho. Esta construção tão maniqueísta contribui para uma atmosfera de novela que impregna a trama toda, com uma protagonista frágil cujos dias vamos acompanhando mais por curiosidade do que pela real necessidade de vê-la superando obstáculos. Há uma melancolia que nos conquista, é verdade, em parecermos ser os únicos companheiros de uma Eilis solitária e saudosista. Sua fragilidade e timidez nos fazem ter vontade de protegê-la (e algumas vezes também de lhe dar um empurrão, para que se imponha um tanto!), mas suas transformações são tão pequeninas e comezinhas que o romance custa a engrenar.

No entanto, é quando se ressalta uma interessante estratégia armada por Tóibín que nossa atenção é fisgada. Mais do que um inventário de uma nova e deslumbrante vida, o autor se ampara na detalhismo do pequeno particular da vida da personagem, construindo praticamente um espelho para a história de Eilis. Mesmo nos Estados Unidos, quase tudo replica seus dias na Irlanda – da chefe um tanto intransigente às amigas irlandesas, dos bailes nos salões de dança às “mães”: a sra. Kehoe, dona da pensão, logo a acolhe com certos cuidados maternos. Este eco acaba se tornando mais forte na medida em que o romance se aproxima do fim e Eilis precisa decidir se sua vida realmente sofreu uma reviravolta tamanha que valha a pena sua permanência em outro país ou se sua volta – justificada por uma tragédia – precisa mesmo acontecer. É exatamente este jogo de levíssimo deslocamento e opção pelo comum, pela minúcia, que acaba sendo seu trunfo. Da mesma forma um final não surpreendente – mas não por isso desinteressante – deixa claro sua intenção de mostrar o quanto também as pequenas decisões modificam uma vida inteira.

28 maio 2011

As primeiras impressões de “Liberdade”





Dezenas de personagens, uma miríade veloz e sucessiva de acontecimentos ligando uma considerável passagem de anos. E estamos apenas na primeira parte de Liberdade (Companhia da Letras, tradução de Sergio Flaksman, 608 páginas, R$ 46,50), de Jonathan Franzen. Impossível não querer estabelecer um paralelo ao seu romance anterior, As correções. 


Muito diferente da minuciosa lente de aumento com que nos apresentava o casal Lambert, no capítulo de abertura daquele romance (com uma calma que remetia a lentidão do idoso casal, com suas pequenas rusgas de convivência tediosa), dedicando um tempo considerável a esmiuçar só eles – e só trechos mais adiante nos apresentando, com parcimônia parecida e detalhismos virtusosos, os outros personagens componentes da trama, em Liberdade, de cara, somos avassalados pelo quadro ágil com que desenha uma parcela da classe média americana. Mais especificamente os moradores de Ramsey Hill, vizinhos em Barrier Street.  


A trama do livro se concentra em Walter e Patty Berglund e no roqueiro Richard Katz. Mas, em sua primeira parte, denominada “Bons Vizinhos”, ficamos conhecendo os dois primeiros, mais seus filhos Jessica e Joey, além dos vizinhos Connie e Carol Monaghan, Merrie e Seth Paulsen e Blake. 


Fofocas, intrigas, rusgas, competitividade, disfuncionalidade familiar: está tudo ali. Temperados com sutileza – e imagino o quanto isto se abrandará – pelas referências políticas. Um comentário sobre liberalismo aqui, outro sobre reaganismo acolá. O casal de vizinhos Merrie e Seth Paulsen aqui funcionam como um coro grego, reiterando, com a acidez de seus comentários, a falta de “substância política” e extrema permissividade da protagonista Patty para com seus filhos e a frouxidão no trato com seu marido, Walter (a corrosividade crítica é mais intensa principalmente em Merrie, que não esconde uma implicância pela jovialidade e frescor de Patty, ex-jogadora de basquete; já Seth não esconde uma efusão positiva em demasia para com a mulher de Walter). 


Ainda há muita leitura pela frente, mas, não obstante a ambição temática de Franzen exposta já nestas primeiras páginas, a leitura é fluida e é certo que isto se dará ao longe de todas suas 608 – quem o conhece de outros livros, assegura a limpidez de sua prosa, de frases precisas e quase sempre entremeadas do cinismo com que exerce sua crítica ao que seja: política americana, decadência do capitalismo, consumismo, etc. As resenhas espalhadas por aí asseguram que até a ornitofilia e as questões de sustentabilidade serão motes importantes neste seu livro. 


Distante de malabarismos formais, fragmentação de discurso e todo o legado do modernismo e pós-modernismo, Franzen trilha o caminho da linearidade e elegância. Com uma história que nos conquista de cara já nas primeiras linhas, não me parece à toa tanta festividade em torno deste escritor, um sujeito dedicado ao ofício que dispensou nove anos em cima de seu último livro, sempre afastado dos modismos literários e buscando resgatar as qualidades do grande romance. Contradição nestes tempos de velocidade e efemeridade? Franzen justifica, em entrevistas para a Ilustrada, da Folha de S. Paulo: “Não acredito que as pessoas que gostam de ler livro queiram um romance curto.”


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UPDATE [30/05]: Uma frase de Sergio Rodrigues aqui traduz com precisão um incômodo que senti com a velocidade exacerbada com que o painel geral já nos é apresentado nesta primeira parte do livro (nos avassalando, como escrevi acima):  Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social”.