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11 outubro 2012

Na sombra de Franzen, na cola de Wallace

História de amor, roman à clef e bildungsroman: “A Trama do Casamento”, de Jeffrey Eugenides, é tudo isto. Mas é também desvio de uma voz até então original, que dá lugar a um realismo painelístico típico de Jonathan Franzen e pega David Foster Wallace emprestado para decalque.


Jeffrey Eugenides em Veneza,  em 2003. Crédito: Carlos Chavez / Los Angeles Times



No final da década de 80, quando Jonathan Franzen e David Foster Wallace já eram, aos vinte e poucos anos, dois jovens escritores com seus romances de estreia sendo comentados (The Twenty-Seventh City, de Franzen e The Broom of the System, de Wallace, ambos inéditos no Brasil), Jeffrey Eugenides era somente um secretário executivo de uma associação de poetas tentando desesperadamente emplacar seus contos na consagrada revista The Paris Review.



Alguns anos depois, Eugenides publica As Virgens Suicidas. O autor sempre declarou confiar no conselho de Virginia Woolf de não lançar um livro antes dos 30. Talvez a espera explique a madura obra de estreia do autor, saudado pela crítica como uma das grandes vozes da jovem literatura americana. Retrato sensível dos aspectos mais dolorosos da adolescência, o livro lançado em 1993 foi adaptado por Sofia Copolla para o cinema. Não tardou a tornar-se obra de culto, com sua narrativa lírica que traz uma espécie de coro de vozes dos então vizinhos das irmãs Lisbon, que mesmo muitos anos após, ainda tentam compreender o suicídio das cinco adolescentes em uma Detroit dos anos 70.

Em 2002, quando lança Middlesex, Jeffrey Eugenides comprova o talento extremamente inventivo de sua literatura. O romance conta a fantástica história de um gene que atravessa três gerações da família de gregos americanos Stephanides, até florescer no quinto cromossomo de um hermafrodita, a menina Calliope que, ao crescer, revela-se no seu contrário. Espécie de investigação científica narrada de forma intimista por uma Cal aos 41 anos de idade, o livro é um caldeirão no qual a protagonista joga detalhes sobre suas peripécias de infância, a adolescência conturbada e as mutações do seu corpo. Tudo isto encadeado por uma saga que se estende por oito décadas de vida da sua família e permeia fatos políticos, sociais e culturais, como a queda do Império Otomano, os anos 20 de uma Detroit industrial, a 2ª Guerra Mundial e uma liberal San Francisco dos anos 70. Mais elogios da crítica em todo o mundo e Middlesex ganha, além do National Book Award, o Pulitzer.


Pós-modernidade ou Oprah Winfrey?

Jeffrey Eugenides parecia então fadado a igualar-se, ou até superar, Franzen e Wallace. Eram eles as duas maiores estrelas entre os escritores que, com menos de 40 anos, estavam envolvidos em uma luta de superação do legado de seus antecessores. Se a pós-modernidade e o hermetismo de nomes como Thomas Pynchon e John Barth eram, para estes jovens autores, insatisfatórios em traduzir as angústias de uma América contemporânea, qual deles então escreveria o romance que consagraria sua geração? O romance que romperia com a onipresente ironia — tão intimamente ligada ao pós-modernismo — e reabilitaria a literatura “emocional e sincera”, como David Foster Wallace defende em seu ensaio E unibus pluram, do livro A supposedly fun thing I’ll never do again, de 1997.

O próprio Wallace ambicionou ocupar a posição, em 1996, com seu enciclopédico Infinite Jest (atualmente, em tradução para o português por Caetano Waldrigues Galindo). No entanto, apesar do culto (e inveja) dos seus próprios pares, o livro ainda pode ser encarado com uma sátira e não somente como a história “triste” que o autor estava querendo escrever desde que estreara, como declarou à revista virtual Salon. Não obstante o New York Times ter definido Wallace como “um virtuose que parece capaz de fazer qualquer coisa”, Infinite Jest não rompeu seu elo com a persona mordaz que os brasileiros só puderam conhecer, até agora, pela publicação de Breves Entrevistas com Homens Hediondos (Companhia das Letras, 2005).

Emocional e sincero, Middlesex parecia, até o momento, o dono do cetro de romance de sua geração. Mas eis que, em 2011, Jonathan Franzen descobre o mapa da mina. Depois do sucesso de As Correções, de 2001, Franzen continua investindo em uma forma tradicional de narrativa realista e, em 2010, lança Liberdade. Romance mais comentado daquele ano e do seguinte, colocou o autor na capa da Times sob o epíteto “O Grande Romancista americano” e foi considerado o livro do século para o The Guardian. Ambicioso até a medula, usa o triângulo formado pelo casal Walter e Patty Berglund e o roqueiro Richard Katz, desde seus anos na universidade até os dias atuais, para construir um grande painel social que abarca o choque entre o liberalismo e o conservadorismo nos governos Reagan, Clinton e Bush, a superpopulação, as ameaças ecológicas, a derrocada do politicamente correto, o individualismo, a crise entre gerações, a globalização. Ufa! Franzen, através do mergulho na tragédia familiar pretende tocar nos pontos nevrálgicos da classe média norte-americana, com seu registro herdeiro da literatura do século XIX. Uma escolha estética que agradou da crítica empertigada a uma Oprah Winfrey histriônica, tornando-se um dos livros mais vendidos no mundo inteiro.


Roman à clef, bildungsroman


As pressões de um mercado editorial pós-Liberdade devem ter tocado fundo em Jeffrey Eugenides, e isto transparece em seu recém-lançado no Brasil A Trama do Casamento (The Marriage Plot, tradução de Caetano Waldrigues Galindo. Companhia das Letras. 440 págs., R$ 46,00). Se entre todos os autores daquela “panelinha” geracional, na qual se pode incluir também Michael Chabon, Chuck Palahniuk e Dave Eggers, Eugenides parecia o mais capaz de renovar a forma do romance (porque preocupado com assuntos mais sensíveis que Chabon e Palahniuk, porque capaz de uma inventividade que não chegava a assustar como um Wallace), em A Trama do Casamento ele cede ao convencionalismo de um livro que parece ter sido escrito com a pressão de um Jonathan Franzen nos ombros e a obsessão por um David Foster Wallace no tema. A pressão de Franzen sente-se ao nos darmos conta de que Eugenides abandona a inventividade extrema que vinha marcando sua obra, e cede lugar a um romance painelístico convencional que não faz jus ao trabalho do autor até então. Já a obsessão por Wallace é um fantasma que se apresenta de duas formas: além de parecer querer responder a um desafio feito por este no já citado ensaio E unibus pluram — ser um “antirrebelde” da literatura, um autor sem medo de ser tachado de melodramático e sentimentalóide —, em seu livro ele constrói um personagem que é simplesmente um decalque de David Foster Wallace (tal qual Franzen e seu Richard Katz, outro simulacro de Wallace), incluindo a bandana, o tabaco de mascar, a especialização em filosofia e a luta com a depressão.

O personagem em questão é o estudante de biologia Leonard Bankhead, o mais interessante, pelos motivos supracitados, da trindade formada neste livro. Ela inclui, ainda, o estudante de religião Mitchell Grammaticus e Madeleine Hanna. É em torno dela que orbitam os dois personagens masculinos, pretendentes românticos que rivalizam em estilos para conquistar a estudante de letras apaixonada por romances de casamento do século XIX. Ao bom leitor, basta somente a exposição desta sinopse para perceber que, mais do que com a metaliteratura (a heroína casadoira apaixonada por personagens casadoiras em dúvidas quanto aos dois pretendentes), Eugenides flerta com o roman à clef: se Bankhead é Wallace, o romântico Grammaticus, greco-americano de Detroit, seria o próprio Eugenides? O autor, já confrontado com esta hipótese, afirma que não.

Agora, que fique claro: Jeffrey Eugenides é um talento, com domínio indiscutível de sua prosa e grande habilidade para a construção de situações que avançam e regridem no tempo, intercaladas sutilmente entre seus protagonistas. Cria diálogos cômicos e repletos de coloquialidade — é um livro engraçado e com ótimos momentos. Mas com o defeito de seu mote esgotar-se antes de seu fm. Abandonando o divertido argumento a que se dedicava, sobre o cenário acadêmico americano nos anos 80, quando a difusão da semiótica implodiu com a ideia que se tinha de romance, A Trama do Casamento converte-se em bildungsroman, ao alternar focos narrativos para contar a “jornada” de formação de seus três personagens (quando, mais uma vez, o preciosismo da derrocada depressiva de Bankhead oblitera os outros dois, mesmo o inspirado processo de descoberta religiosa de Grammaticus), afinal revelando-se uma insossa história de amor. E o que deveria ser uma modernização dos romances vitorianos beira a ingenuidade de um triângulo amoroso pós-adolescente.

O que mais se destaca, no fim das contas, é a indecisão de Jeffrey Eugenides entre dedicar-se à ambição metaficcional com que ameaça desde o título ou à construção de mais um romance realista, painelístico — e que é contradição à voz ímpar e inventiva de sua obra, até então. Se livros são sobre outros livros, como diz um personagem de A Trama do Casamento, talvez este seja sobre o livro metaficcional que gostaríamos que David Foster Wallace tivesse escrito ou o livro painelístico que, até agora, Jonathan Franzen tem escrito melhor.

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Publicado originalmente no Scream & Yell. /  
Publicado originalmente no Jornal Rascunho.

28 maio 2011

As primeiras impressões de “Liberdade”





Dezenas de personagens, uma miríade veloz e sucessiva de acontecimentos ligando uma considerável passagem de anos. E estamos apenas na primeira parte de Liberdade (Companhia da Letras, tradução de Sergio Flaksman, 608 páginas, R$ 46,50), de Jonathan Franzen. Impossível não querer estabelecer um paralelo ao seu romance anterior, As correções. 


Muito diferente da minuciosa lente de aumento com que nos apresentava o casal Lambert, no capítulo de abertura daquele romance (com uma calma que remetia a lentidão do idoso casal, com suas pequenas rusgas de convivência tediosa), dedicando um tempo considerável a esmiuçar só eles – e só trechos mais adiante nos apresentando, com parcimônia parecida e detalhismos virtusosos, os outros personagens componentes da trama, em Liberdade, de cara, somos avassalados pelo quadro ágil com que desenha uma parcela da classe média americana. Mais especificamente os moradores de Ramsey Hill, vizinhos em Barrier Street.  


A trama do livro se concentra em Walter e Patty Berglund e no roqueiro Richard Katz. Mas, em sua primeira parte, denominada “Bons Vizinhos”, ficamos conhecendo os dois primeiros, mais seus filhos Jessica e Joey, além dos vizinhos Connie e Carol Monaghan, Merrie e Seth Paulsen e Blake. 


Fofocas, intrigas, rusgas, competitividade, disfuncionalidade familiar: está tudo ali. Temperados com sutileza – e imagino o quanto isto se abrandará – pelas referências políticas. Um comentário sobre liberalismo aqui, outro sobre reaganismo acolá. O casal de vizinhos Merrie e Seth Paulsen aqui funcionam como um coro grego, reiterando, com a acidez de seus comentários, a falta de “substância política” e extrema permissividade da protagonista Patty para com seus filhos e a frouxidão no trato com seu marido, Walter (a corrosividade crítica é mais intensa principalmente em Merrie, que não esconde uma implicância pela jovialidade e frescor de Patty, ex-jogadora de basquete; já Seth não esconde uma efusão positiva em demasia para com a mulher de Walter). 


Ainda há muita leitura pela frente, mas, não obstante a ambição temática de Franzen exposta já nestas primeiras páginas, a leitura é fluida e é certo que isto se dará ao longe de todas suas 608 – quem o conhece de outros livros, assegura a limpidez de sua prosa, de frases precisas e quase sempre entremeadas do cinismo com que exerce sua crítica ao que seja: política americana, decadência do capitalismo, consumismo, etc. As resenhas espalhadas por aí asseguram que até a ornitofilia e as questões de sustentabilidade serão motes importantes neste seu livro. 


Distante de malabarismos formais, fragmentação de discurso e todo o legado do modernismo e pós-modernismo, Franzen trilha o caminho da linearidade e elegância. Com uma história que nos conquista de cara já nas primeiras linhas, não me parece à toa tanta festividade em torno deste escritor, um sujeito dedicado ao ofício que dispensou nove anos em cima de seu último livro, sempre afastado dos modismos literários e buscando resgatar as qualidades do grande romance. Contradição nestes tempos de velocidade e efemeridade? Franzen justifica, em entrevistas para a Ilustrada, da Folha de S. Paulo: “Não acredito que as pessoas que gostam de ler livro queiram um romance curto.”


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UPDATE [30/05]: Uma frase de Sergio Rodrigues aqui traduz com precisão um incômodo que senti com a velocidade exacerbada com que o painel geral já nos é apresentado nesta primeira parte do livro (nos avassalando, como escrevi acima):  Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social”.

26 fevereiro 2011

Jonathans

Jonathan Franzen, eleito pela Granta um dos vinte melhores jovens romancistas americanos, escreveu As correções, um livro que está em quase todas as listas de melhores romances contemporâneos americanos (e algumas outras listas de "melhores de todos os tempos"), vencedor do National Book Award de Melhor Livro do Ano e que devo ter lido umas trinta e cinco vezes, além de enchê-lo de anotações em dezenas de post-its e ao qual continuamente retorno, fã do virtuosismo do autor, da linguagem rápida e capacidade de ironizar tudo para expor a gravidade das situações. Franzen, além de protagonistas cuja empatia com o leitor é quase imediata, é capaz ainda de criar alguns personagens secundários que são mencionados pouquíssimas vezes e cujas descrições, mesmo repleta de apelos pop, soam extremamente verossímeis. Acabou de lançar Freeedom, mais um calhamaço - ao exemplo de As correções  e suas 583 páginas - completamente incensado pela imprensa literária, ansiosa em alcunhar o novo "grande romancista americano" (vide Times, que colocou sua foto na capa abaixo de tal epíteto)  já que Pynchon parece ser caudaloso demais para isto. É bem verdade que alguma parte da imprensa insiste em definir seu novo livro como uma espécie de "continuação" de As correções,  enquanto outros dizem "nhé, é outra coisa", e que o unificador de ambos é a também sátira à família contemporânea (mais uma família do Meio Oeste americano), a ironia à política (que, neste, se estende dos últimos anos de Clinton aos oito anos de Bush), a antítese republicanos/democratas, a discusão conservadores/liberais, os negócios, como conquistar o sucesso na América, etc. Enfim, toda esta máquina fascinante e questionável que faz os Estados Unidos girar, ser o que é e produzir assunto para as centenas de romances americanos que chegam a cada ano nas livrarias. Franzen é dono de uma narrativa algo intrincada e bastante elegante, clara e que destila erudição, isto é bem verdade. Também é verdade, no entanto - e isto já foi assunto de discussões acerca de uma possível pasteurização protagonizada pelas escolas de escrita criativa que são comuns nos Estados Unidos - que a clareza de estilo, a ironia constante, algumas recorrências temáticas tornam sua literatura muita próxima a de

Jonathan Lethem, contemporâneo de Franzen (e, até onde sei, amigo pessoal), autor de Brooklin sem pai nem mãe,  A fortaleza da solidão (Livro do Ano segundo o The New York Times), entre outros. Não obstante o fato de Lethem ter escrito alguns livros de ficção científica e flertado com a literatura de gênero - criando, por exemplo, um detetive com síndrome de Tourette em Brooklin sem pai nem mãe -, sua literatura realista (e aqui quero ser mais específico: sua prosa) se assemelha bastante a de Jonathan Lethem, com uma limpidez narrativa que não chega a lhe emprestar uma nítida voz própria. Não vou ser inconseqüente de comparar todas as suas obras, mas fazendo um paralelo entre As correções e A fortaleza da solidão - já que foram estes os dois livros que li dos supracitados autores e que vieram a me instigar - intrigou-me uma semelhança narrativa muito grande entre os dois, uma assepsia no trato com a linguagem, a utilização de recursos formais bastante conservadores, a ironia constante, a investigação da infância como forma de decifrar o presente de seus personagens, a trama como pano de fundo para delinear o quadro político americano, etc, etc. Não me desagrada sua literatura, pelo contrário, admiro incrivelmente a objetividade, coerência construtiva, competência narrativa, o talento para contar boas histórias com sofisticação e clareza. Ainda que seu estilo me remeta a esta possível "padronização" de que, por vezes, as escolas literárias são acusadas (e quando leio David Means, também amigo de Lethem, isto mais uma vez me vem à tona), a literatura dos dois me agrada muito mais que a de

Jonathan Coe, escritor inglês autor de Bem vindo ao clube, O legado da família Winshaw, A chuva antes de cair, A casa do sono, entre outros.  A casa do sono é quase uma narrativa de horror, tão assustadora é a clínica de tratamento do sono criada pelo autor, com um médico disposto a investigar todos os distúrbios com uma obsessão de cientista maluco. A miríade de personagens - narcolépticos, insones, transexuais, entre outros - apresentados em um ir e vir no tempo (no passado a clínica era uma casa de estudantes, diversos dos quais se reencontram no presente do livro), também ostenta um arsenal perturbador de problemas não resolvidos, em um romance que rendeu o Writers Guild, entre outros prêmios para Coen. Tremendamente inventivo em suas tramas, o mesmo não se pode dizer de seu estilo formal. Coen é econômico, formal e nem um pouco elegante em sua escrita. Parece quase um roteirista na descrição limitadíssima de seus ambientes e personagens. Esta limitação formal, provavelmente é o contrário do que propõe

Jonathan Safran Foer, americano autor de Tudo se ilumina (que virou filme protagonizado por Elijah Wood) e Extremamente alto & incrivelmente perto, entre outros, sobre o qual não posso me estender muito por não ter lido nenhum de seus livros. Sua contraposição formal a Coe é válida, no entanto, quando observamos uma de suas últimas realizações literárias: Tree of codes, sobre o qual você pode entender mais abaixo: