Mostrando postagens com marcador Jonathan Lethem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jonathan Lethem. Mostrar todas as postagens

26 fevereiro 2011

Jonathans

Jonathan Franzen, eleito pela Granta um dos vinte melhores jovens romancistas americanos, escreveu As correções, um livro que está em quase todas as listas de melhores romances contemporâneos americanos (e algumas outras listas de "melhores de todos os tempos"), vencedor do National Book Award de Melhor Livro do Ano e que devo ter lido umas trinta e cinco vezes, além de enchê-lo de anotações em dezenas de post-its e ao qual continuamente retorno, fã do virtuosismo do autor, da linguagem rápida e capacidade de ironizar tudo para expor a gravidade das situações. Franzen, além de protagonistas cuja empatia com o leitor é quase imediata, é capaz ainda de criar alguns personagens secundários que são mencionados pouquíssimas vezes e cujas descrições, mesmo repleta de apelos pop, soam extremamente verossímeis. Acabou de lançar Freeedom, mais um calhamaço - ao exemplo de As correções  e suas 583 páginas - completamente incensado pela imprensa literária, ansiosa em alcunhar o novo "grande romancista americano" (vide Times, que colocou sua foto na capa abaixo de tal epíteto)  já que Pynchon parece ser caudaloso demais para isto. É bem verdade que alguma parte da imprensa insiste em definir seu novo livro como uma espécie de "continuação" de As correções,  enquanto outros dizem "nhé, é outra coisa", e que o unificador de ambos é a também sátira à família contemporânea (mais uma família do Meio Oeste americano), a ironia à política (que, neste, se estende dos últimos anos de Clinton aos oito anos de Bush), a antítese republicanos/democratas, a discusão conservadores/liberais, os negócios, como conquistar o sucesso na América, etc. Enfim, toda esta máquina fascinante e questionável que faz os Estados Unidos girar, ser o que é e produzir assunto para as centenas de romances americanos que chegam a cada ano nas livrarias. Franzen é dono de uma narrativa algo intrincada e bastante elegante, clara e que destila erudição, isto é bem verdade. Também é verdade, no entanto - e isto já foi assunto de discussões acerca de uma possível pasteurização protagonizada pelas escolas de escrita criativa que são comuns nos Estados Unidos - que a clareza de estilo, a ironia constante, algumas recorrências temáticas tornam sua literatura muita próxima a de

Jonathan Lethem, contemporâneo de Franzen (e, até onde sei, amigo pessoal), autor de Brooklin sem pai nem mãe,  A fortaleza da solidão (Livro do Ano segundo o The New York Times), entre outros. Não obstante o fato de Lethem ter escrito alguns livros de ficção científica e flertado com a literatura de gênero - criando, por exemplo, um detetive com síndrome de Tourette em Brooklin sem pai nem mãe -, sua literatura realista (e aqui quero ser mais específico: sua prosa) se assemelha bastante a de Jonathan Lethem, com uma limpidez narrativa que não chega a lhe emprestar uma nítida voz própria. Não vou ser inconseqüente de comparar todas as suas obras, mas fazendo um paralelo entre As correções e A fortaleza da solidão - já que foram estes os dois livros que li dos supracitados autores e que vieram a me instigar - intrigou-me uma semelhança narrativa muito grande entre os dois, uma assepsia no trato com a linguagem, a utilização de recursos formais bastante conservadores, a ironia constante, a investigação da infância como forma de decifrar o presente de seus personagens, a trama como pano de fundo para delinear o quadro político americano, etc, etc. Não me desagrada sua literatura, pelo contrário, admiro incrivelmente a objetividade, coerência construtiva, competência narrativa, o talento para contar boas histórias com sofisticação e clareza. Ainda que seu estilo me remeta a esta possível "padronização" de que, por vezes, as escolas literárias são acusadas (e quando leio David Means, também amigo de Lethem, isto mais uma vez me vem à tona), a literatura dos dois me agrada muito mais que a de

Jonathan Coe, escritor inglês autor de Bem vindo ao clube, O legado da família Winshaw, A chuva antes de cair, A casa do sono, entre outros.  A casa do sono é quase uma narrativa de horror, tão assustadora é a clínica de tratamento do sono criada pelo autor, com um médico disposto a investigar todos os distúrbios com uma obsessão de cientista maluco. A miríade de personagens - narcolépticos, insones, transexuais, entre outros - apresentados em um ir e vir no tempo (no passado a clínica era uma casa de estudantes, diversos dos quais se reencontram no presente do livro), também ostenta um arsenal perturbador de problemas não resolvidos, em um romance que rendeu o Writers Guild, entre outros prêmios para Coen. Tremendamente inventivo em suas tramas, o mesmo não se pode dizer de seu estilo formal. Coen é econômico, formal e nem um pouco elegante em sua escrita. Parece quase um roteirista na descrição limitadíssima de seus ambientes e personagens. Esta limitação formal, provavelmente é o contrário do que propõe

Jonathan Safran Foer, americano autor de Tudo se ilumina (que virou filme protagonizado por Elijah Wood) e Extremamente alto & incrivelmente perto, entre outros, sobre o qual não posso me estender muito por não ter lido nenhum de seus livros. Sua contraposição formal a Coe é válida, no entanto, quando observamos uma de suas últimas realizações literárias: Tree of codes, sobre o qual você pode entender mais abaixo:


22 agosto 2009

A fortaleza da solidão

1.


Como um fósforo riscado num quarto escuro:
Duas meninas brancas, de camisola de flanela e patins de vinil vermelho com cadarços brancos, traçando círculo hesitantes numa calçada de pedra azulada e cheia de rachaduras às setes horas de uma noite de julho.

As meninas murmuravam rimas infantis,
eram rimas infantis, com seus cabelos rosa-celeste, finos como névoa, fluindo torrencialmente como se nunca tivessem sido cortados. Os pais das meninas tinham deixado que elas voltassem para a rua depois do jantar, desde que antes vestissem a camisola e escovassem os dentes, para se banharem no entardecer rosa-alaranjado do verão, o ar e a luz que pairavam sobre a rua e sobre todo o bairro de Gowanus como a palma de uma mão ou a superfície interna de uma concha. Os homens porto-riquenhos sentados em engradados em frente à bodega da esquina grunhiram diante da aparição, sem saber ao certo o que estavam vendo. Arreganharam os lábios para mostrar os dentes uns aos outros, um gesto que era uma demonstração de paciência, de tolerância solienciosa. A rua estava repleta de chapinhas semi-enterradas no asfalto amolecido, Yoo-Hoo, Rheingold, Manhatan Special.

As meninas, Thea e Ana Solver, brilhavam como uma chama recém-acesa.

Antes dos Solver, uma velha senhora branca já havia se mudado para o quarteirão imbuída da missão de resgatar um dos sobrados violentados, um sobrado que antes era uma casa de cômodos, substituindo quinze homens apenas consigo mesma e seus pertences encaixotados. Ela foi a primeira, na verdade. Mas Isabel Vendle só se movia furtivamente, como um rumor, um apóstrofo dentro de sua
brownstone, onde nesse momento ela se arrastava de bengala entre o apartamento do subsolo e o seu quarto no térreo, na antiga sala de visitas, para o quarto onde ela lia e dormia sob o esfacelado teto de gesso não restaurado. Isabel Vendle era curta feito o nó de um dedo, seu corpo se dobrava ao redor da cartilagem de velhas feridas. Isasbel Vendle relembrava um passeio de carro no lago George num barco latado, escrevia cartas mergulhando a caneta num tinteiro, umedecia selos passando-os numa esponja sobre um pires. O tampo da mesa era de cortiça. Isabel Vendle tinha dinheiro, mas os cômodos do subsolo da casa fediam a casca de fruta e jornal molhado.

As meninas de patins eram a novidade, sob o foco dos holofotes para iniciar o show: os brancos estavam voltando para a Dean Street. Alguns.

.........

Eu ia começar este post falando da extrema semelhança na narrativa dos jovens escritores norte americanos. Os jovens. Não falo de Philip Roth, não falo de Thomas Pynchon nem Don DeLillo, estes bastiões da literatura estadunidense. Refiro-me aos Jonathans (Lethem, de quem retirei o trecho acima, de seu A fortaleza da solidão; Safran Foer, sem dúvida o mais hypado dos três; Franzen - autor do sensacional As correções). Refiro-me, também, a Michael Chabon e mais uns tantos que, no momento, não me vêem. No entanto, acho que isto é assunto para outro post. Fica a provocação. Segue, então, minhas opiniões sobre este calhamaço de Jonathan Lethem.

Repleto de referências pop, a começar pelo título, e quase todas elas do universo dos quadrinhos - ao estilo e trazendo à mente, instantaneamente, o escritor um pouco mais conhecido no Brasil, Michael Chabon - A fortaleza da solidão, de Jonathan Lethem conta a história de amizade de dois garotos que, em comum, só tem três coisas: os nomes de gênios da música, a paixão pela chamada banda desenhada e o fato de serem criados longe de suas mães, por pais fechados em seu próprio universo (e os dois universos repletos da amargura de serem artistas, cada um em seu campo, não-realizados em suas carreiras). De resto, Dylan Ebdus e Mingus Rude são, com o perdão da frase fácil, opostos que se atraem: Dylan, um dos poucos garotos brancos do Brooklin, importunado quase todos os dias pelos garotos negros do bairro: no começo do livro estamos nos anos 70, quando os ideais da integração racial ainda eram um rascunho em um bairro eminentemente negro e latino; Mingus, o negro bem nascido, filho de ex-cantor de soul, que ao invés de escolher ser mais um dos “agressores” de Dylan, prefere deixar sua marca de outra forma, tornando-se um dos mais ousados grafiteiros do Brooklin.

Os quadrinhos são o ponto de encontro de Dylan e Mingus - mesmo que a escola, os hábitos sociais e tudo o mais (afinal, era uma época em que qualquer atitude estava repleta de componentes raciais que poderiam se tornar faísca para maiores conflitos) compactuassem para o contrário. E são os quadrinhos de super-heróis, mas também o grafite, o soul, o funk e o hip-hop, que se tornam combustível para a amizade que se estabelece entre os dois.

Romance de formação com elementos autobiográficos, A fortaleza da solidão é leitura prazerosa não só pelo ritmo envolvente e extremamente seguro com que Lethem quase que documenta a ocupação do Brooklin por brancos de classe média e a tensão racial decorrente disto. O livro é também um registro do passado recente estadunidense, flagrando a difícil relação entre negros e brancos em meio a uma busca da prometida integração racial.