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| Jeffrey Eugenides em Veneza, em 2003. Crédito: Carlos Chavez / Los Angeles Times |
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Retrato carioca sem maquiagem
Em John Fante Trabalha no Esquimó, Mariel Reis une ode à literatura ao relato urbano desglamorizado.
O incauto que se deixar levar tão somente pelo que sugere o texto de contracapa de “John Fante Trabalha no Esquimó” (Calibán), poderá achar que este livro do escritor carioca Mariel Reis – seu segundo vôo solo após “Linha de Recuo e outras histórias”, pela Editora Paradoxo, mas também o mais recente depois de uma série de antologias das quais o autor já participou – é uma daquelas obras literárias que encanta apenas aos literatos: é ressaltada a lição que Mariel assimilou da obra de Drummond, é destacado o fato de sermos contemporâneos dos escritores que amamos e é sugerido que seus personagens acompanham os passos de João do Rio, Marques Rebelo ou Moacir C. Lopes. Natural, já que não é preciso um mergulho tão profundo na obra de Mariel para se abobalhar com a quantidade de referências literárias que um bom conhecedor pode encontrar em subcamadas dos textos do autor. Daí a quase inevitável predisposição a querermos analisar sua escrita sob o ponto de vista das sua referências, como se Mariel fosse mais um destes escritores que, envaidecido-se de sua própria função, produz literatura somente para seus iguais, num tatibitate exercício de emular a obra dos autores que o influenciam, para ver-se reconhecido e reverenciado nas conversas de mesa de bar dos “malditos”.
É certo que, nesta primeira impressão que as intenções de sua obra podem passar, depõe contra o exposto acima o fato do título do livro já trazer em si um possível aviso de que o mesmo se pretende partícipe da orgia auto-centrada da qual a literatura contemporânea está encharcada. Afinal, John Fante, um mito para os mesmos adoradores de Bukowski, trabalhando no Esquimó? E, a propósito, que diabos é o Esquimó? Aqui, outro fato infeliz a depor contra o autor na escolha do título: Esquimó, saberão os mais informados (ou aqueles que lerem a apresentação do livro, feita por Marcelino Freire, o que vier primeiro), é um restaurante do Rio de Janeiro – ok, referência local que se explica quando lido o conto-título, mas, Mariel, detalhe dispensável para uma literatura que consegue, felizmente, alçar a difícil condição de suplantar a esfera dos círculos cariocas.
Então, esclarecido o que a ficção de Mariel não é (exercício literário feito para literatos), vamos ao que é de fato: uma obra que consegue dialogar com muita clareza com a tradição literária, sim, uma vez que Mariel transita com liberdade e domínio absoluto em textos que carregam tanto as tintas da literatura clássica, formal; mas, mais do que isto, o texto de Mariel neste seu novo livro atesta o que o autor há tempos vem deixando claro, que é uma habilidade de prosador que transcende as tentações de exibir sua vastíssima bagagem literária, criando uma obra acessível em que as particularidades da cena carioca são ferramentas para a construção de peças urbanas – algumas vezes imersas na inevitável sordidez que relatos na “cidade maravilhosa” se fazem necessários – repletas de malemolências e voleios que conseguem o feito contraditório de manter verossimilhança mesmo em prosas que por vezes se descobrem terríveis fábulas. Muitas vezes metaficcionais, iniciando como se pacatas crônicas autobiográficas fossem e se desdobrando para nos revelar a acidez de um autor não muito predisposto aos finais felizes.
Mariel constrói, em poucas linhas, retratos minuciosos de tipos marginais, duros, ocres, entregando-se a relatos suburbanos com destreza e, diferente de seus contemporâneos, não se deixando levar pelo fascínio que textos desta natureza notavelmente exercem aos seus autores. O conto “A Viagem”, é exemplo claro disto. Em seus contos, o relato ocasional de episódios acima da linha de asfalto que separa os cariocas burgueses dos menos afortunados não apresenta aquele quase fetiche da criminalidade e da pobreza que embriaga prosas urbanas atuais, fruto da imersão de autores desconhecedores deste lado menos glamoroso da urbanidade carioca, mas ainda assim sedentos de relatá-lo, inebriados pela estética violenta e tarantinesca que julgam ser capazes de compor. Vã ilusão. Transitar em terrenos perigosos assim não é para os incautos. Mariel consegue se safar incólume. Aliás, o autor é tão destro na ficção desta natureza, que causa estranhamento que neste mesmo livro uma quase novela, “Por mil demônios”, esteja também inserida. O texto, de temática fantástica, com idas e vindas no foco narrativo, quebra com a uniformidade que o livro até então vinha alcançando. “Jonas, a baleia”, é outro conto que destoa em uma obra que, com exceção destes, consegue manter algo tão importante em um exemplar de contos: regularidade e coerência.
Ainda que no conto que dá título ao livro, o autor (se pressuposto que há autobiografia ali) acalente o “sonho de um dia cruzar, mesmo que com um sósia, com Lima Barreto ou Machado de Assis ou João do Rio”, todos escritores vinculados à tradição de autores observadores da cidade carioca, é fato que não se pode definir a obra de Mariel como prosa de observação. Mesmo quanto flerta com a crônica, Mariel consegue corromper sua fórmula, empregando principalmente grossas camadas de uma ironia que perpassa muitos dos dezesseis contos do livro.
Ao fim de tudo, Mariel consegue se firmar como um dos mais lúcidos autores da nossa safra brasileira. Ao criar principalmente narrativas que transitam na realidade urbana das grandes cidades, o autor mostra destreza ao não filiar-se ao fascínio que este tema costuma exercer, mantendo não distanciamento para que isto não ocorra, mas usando de toda sua habilidade para tentar perscrutar aquilo o que, no fim das contas, é o objetivo de todo grande escritor: a alma humana.
John Fante trabalha no Esquimó
Mariel Reis
ISBN: 978-85-87025-36-4
Gênero: Ficção - Contos
Preço: R$ 15,00
80 páginas
30 dezembro 2008
Guy Ritchie à procura de Guy Ritchie
Não bastasse o fracasso com seu último filme, Destino Insólito, de 2002, quando resolveu mexer em time que estava ganhando – suas tramas de gângsteres, marcadas por um humor cool e debochado – e empregar a então dona patroa Madonna, Guy Ritchie ainda por cima tem que amargar ser considerado uma cópia piorada de Quentin Tarantino. É o que parte da crítica vem falando a respeito dele ultimamente, principalmente sobre sua última realização, Rock’n’Rolla. Não acredito que seja propriedade de Tarantino uma série de cacoetes que são comuns aos dois: a violência, o nonsense, a incorreção política, a montagem ágil e o entrelaçamento de diferentes linhas narrativas culminando para um final surpreendente. Inclusive creio que por usar e abusar destes estratagemas, muitas vezes Ritchie só consegue repetir a si mesmo. Era, no mínimo, a expectativa que eu tinha antes de assistir ao seu penúltimo longa, Revolver, que fosse mais um projeto à la Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, quem sabe beirando Snatch – Porcos e Diamantes. Vã ilusão.
Em Revolver, Jake Green (Jason Statham, ator-fetiche do diretor) é um jogador que esteve preso durante 7 anos por ter caído nas tramas de Dorothy Macha (Ray Liotta). Agora em liberdade, Jake torna-se imbatível nas mesas de jogo usando uma fórmula que aprendeu com ex-companheiros de prisão.
Definitivamente, Ritchie está mais ambicioso. E é preciso entender por ambição uma atenuação da comédia e do humor negro mais descarado que seus longas anteriores tinham. Além destes estarem muitíssimos reduzidos em Revolver, o diretor também diminui grandemente a mão naquele estilo de edição “espertinha” que já se transformou em marca registrada sua – o que muitas vezes acabava por definir seu trabalho como filmes muito mais de forma do que conteúdo, aí se concentrando quase todo o apelo cool de sua filmografia, até mais intensamente do que na estratégia sempre empregada de personagens com sotaques acentuados, caricatos ou chefões do crime com métodos bizarros. Revolver representa uma tentativa do diretor de dar um passo adiante, introduzindo elementos estranhos ao seu universo, como a utilização de diversos recursos estilísticos, metáforas e alegorias, pretendendo criar uma profundidade maior em um roteiro que (e no final das contas é só isto) se apóia em todos os recursos possíveis para tentar alcançar profundidade onde ela não existe. Pra isso, Ritchie pega pesado e de maneira didática no voice-off, enchendo o espectador com a confusão mental de Green e mais tarde, também com o chefão Macha. A ambição de Ritchie é tanta, que o filme é permeado por citações de filósofos famosos sobre poder, decepção, guerra e xadrez – fora as metáforas religiosas/espirituais de que o filme está repleto (quando uma importante personagem renuncia à violência, Ritchie o enquadra para que o ouro deixado na parede atrás de sua cabeça forme uma auréola. Herança de Madonna, que quase estrelou a película?).
Mas é claro que um diretor como Ritchie, ainda que esteja um tanto perdido, não poderia realizar um filme de todo desprovido de qualidade. E, a bem da verdade, Revolver tem muitas, como a fotografia, que é sensacional, muitas vezes em tom azulado, evidenciando um clima que é muito mais introspectivo dos que os filmes anteriores do diretor. Também é preciso aplaudir o desempenho sensacional de Andre Benjamin (do Outkast), como Avi, que junto com o também enigmático Zach (Vicent Pastore), são como “condutores” ou protetores de Green no seu retorno à cena. O personagem Sorter (Mark Strong) também é uma grande criação de Ritchie, como um atirador quase infalível com uma audição sobre-humana. Não à toa, a seqüência de tiroteio em que Sorter usa sua audição para descobrir inimigos à sua espreita é uma das melhores do filme, com uma edição primorosa. Mesmo, assim, infelizmente, estes são ponto menores em um filme que, assim como muitos dos personagens, parece atirar para todos os lados, errando feio o alvo. Melhor sorte para Rock’n’Rolla.


















