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14 agosto 2013

O cinema errático de Soderbergh

Acionar o Now, serviço da Net para filmes on demand, proporciona duas impressões: que o cinema atual é dominado por produções estreladas por Channing Tatum e que todas elas são dirigidas por Steven Soderbergh. Como definir um cineasta cuja trajetória inclui  obras da qualidade de Traffic e Solaris e consegue anular-se frente à produções como Contágio e Magic Mike?

Inexpressividade e onipresença

Sobre o galã do momento, não há muito o que falar, além do fato de que sua dificuldade em variações expressivas — e outros recursos próprios daquilo o que chamam atuação — o tornam o mesmo personagem em filmes tão primordialmente diversos quanto Querido John, longa  que o consagrou, em 2010 (embora ela já tenha dado as caras anteriomente no filmeco cujo título nacional aproveitou o então hit do funk, Se ela dança, eu danço) e Anjos da Lei (baseado na série homônima dos anos 80, responsável por lançar Johnny Depp ao estrelato), cujo maior mérito é todo do sempre engraçado Jonnah Hill.



Depois disto, estende-se uma relação de filmes que justifica sua relação aqui com Soderbergh, já que o diretor parece ter se tomado de amores por ele, tendo-o dirigido em À toda prova — filme padrão de ação cuja maior peculiaridade é ser estrelado pela lutadora de MMA Gina Carano, além de trazer à reboque, em atuações automatizadas (e algumas, constrangedoras), Ewan McGregor, Michael Douglas e Antonio Bandera. Michael Fassbender é o único que se salva —; Magic Mike, sobre o universo dos strippers masculinos e Terapia de Risco, em que Tatum estrela ao lado de Jude Law, Catherine Zeta-Jones e Ronney Mara.


Proficuidade, irregularidade

Somente elencando-se estes três filmes, já é o suficiente para nos darmos conta da irregularidade e dificuldade de análise da obra de Soderbergh. O diretor, que se consagrou com seu filme independente de baixo orçamento Sexo, Mentiras e Videotape, não tardou a mostrar sua proficuidade, ao mesmo tempo em que deixava claro sua capacidade de alternar-se entre produções de estilos, temas e propostas muito diferentes. No entanto, à despeito de seu nome assinar a direção de todos, é difícil encontrarmos a unidade que faz a obra de um diretor-autor ser algo facilmente reconhecível, independente do desafio cinematográfico ao qual ele se propôs. 



Depois do seu primeiro filme, veio o cinema artê de Kafka, em 1991, ao qual seguiram-se algumas produções pouco significativas, sendo que Sodebergh só voltou a chamar atenção novamente em 2000, com Erin Brockovich, longa com o qual o diretor foi indicado e que consagrou Julia Roberts com um Oscar.


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 Traffic, seu filme lançado também em 2000, foi reconhecido não somente por um minucioso trabalho de direção de fotografia: Soderbergh, que assina a fotografia com o pseudônimo de Peter Andrews, criou palhetas de cores diversas para cada um dos núcleos 



A polifonia errática de Steven Soderbergh tem prosseguimento com uma carrega repleta de altos e baixos, tanto no ponto de vista de consagração crítica quanto de sucesso comercial. Traffic, seu filme lançado também em 2000, foi reconhecido não somente por um minucioso trabalho de direção de fotografia: Soderbergh, que assina a fotografia com o pseudônimo de Peter Andrews, criou palhetas de cores diversas para cada um dos núcleos envolvidos com a indústria do narcotráfico, exercendo uma importante função narrativa, que auxilia o espectador a identificar, de imediato, qual das três histórias está sendo enfocada naquele momento. São filtros de cores que, além de tudo, criam o clima mais do que pertinente à cada situação: o frio azul para Washington e o jogo do poder, o amarelado para as tramóias mexicanas, e cenas mescladas em azul e amarelo para mostrar os bairros de luxo da Califórnia onde moram os barões das drogas. Além disso, o constante movimento de câmera, que foi operada sozinha pelo diretor, confere o ar documental que marca o filme.



Com um elenco fantástico, que inclui Benício Del Toro, Don Cheadle, Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones e Salma Hayek, entre outros, Traffic é, na minha opinião, o ponto mais alto da carreira de Steven Soderbergh, um trabalho primoroso com suas quase três horas de duração, que traça o complexo painel do narcotráfico, desde a origem das drogas até seus consumidores finais. Rendeu o Oscar a Soderbergh, além de três outros: Ator Coadjuvante, Edição e Roteiro Adaptado.

Após Traffic, exatamente quando o autor poderia fazer qualquer coisa, Sorderbergh dá início à sua série de thrillers policiais, com a refilmagem do clássico de 1960, Ocean's Eleven. Com a missão de, no mínimo, fazer jus à Rat Pack, grupo formado pelos atores Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford, o filme de Soderbergh é divertido e cheiode charme, mas tem como maior qualidade reunir um elenco milionário — composto por George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia e Julia Roberts — que reduziu seus cachês "pela diversão", de estrelar juntos o filme com o título nacional de Onze Homens e Um Segredo. 

Full Frontal, seu próximo filme, mostra novamente a oscilação de Soderbergh entre cinemão e cineminha. Claramente membro do segundo time, o filme flerta com o movimento Dogma, com sua tentativa de experimentação, provocando estranheza aos mostrar vários personagens, em histórias entrelaçadas: Catherine (Julia Roberts) e Nicholas (Blair Underwood) trabalham em um filme produzido por Gus (David Duchovny, de Arquivo X), que se prepara para festejar seu aniversário. Lee (Catherine Keener) tem um caso com Nicholas. E Linda (Mary MacCormack) vai descobrir em Gus um “desdobramento” de sua profissão de massagista. Enquanto isso, um teatro alternativo encena uma peça sobre Adolf Hitler. Agora, como amarrar tudo isto na cabeça do espectador? O diretor não se preocupa muito: se, a princípio, utiliza imagens perfeitas e coloridas para mostrar o “filme dentro do filme”, e imagens desfocadas e desbotadas para contar o que seria a “vida real”, até o final de Full Frontal o próprio cineasta desconstrói este "esquema".


Espaço, plástico, guerrilha

Em Solaris, de 2002, novamente Soderbergh mostra sua capacidade de fazer grandes filmes quando lhe convém. Aqui, George Clooney é um psicólogo convocado para investigar o estranho comportamento dos integrantes de uma estação espacial que orbita o misterioso planeta Solaris, que perdeu contato com a Terra.  Paranóia e a sensação limítrofe do que é ilusão e do que é realidade permeiam o filme inteiro, em uma descoberta que desconcerta Kevin, o personagem de Clooney, e garantem um filme lento, mas do qual é praticamente impossível despregar o olho. 





Após o esquisito Bubble (que conseguiu amplo espaço na imprensa americana ao disponibilizar o filme ao mesmo tempo nos cinemas, na tevê a cabo e em DVD), feito com não-atores, seguiu-se o mediano O Segredo de Berlim. No meio disso tudo, as continuações Doze Homens e Outro Segredo, Treze Homens e Um Novo Segredo, a cinebiografia de Che Guevara, Che, dividido em duas partes, cujo maior "fato", destacado pela imprensa nacional, é o de contar com a presença de Rodrigo Santoro. O Informante, que vem depois, é uma incursão bem sucedida de Soderbergh na comédia, com um registro que prima pelo não convencional, um tom quase permeando o humor negro, com grande interpretação de Matt Damon como o mentiroso patológico Mark Whitacre. 



Antes deste, no entanto, Soderbergh realiza um filme que, a meu ver, insere-se como uma ruptura não somente estética em sua carreira, mas que gera o mínimo de norte para o caminho que o diretor passa a trilhar. Confissões de Uma Garota de Programa, de 2009, não é só o momento em que o flerte do diretor com a filmagem em digital atinge seu ponto mais alto (o filme é captado com a badalada Red One). Sua escolha por Sasha Grey, estrela pornô, como a protagonista de uma trama em que interpreta Chelsea, uma prostituta de luxo em Nova Iorque, diz muito sobre os constantes questionamentos de Soderbergh sobre o cinema, que o diretor esboça desde seu primeiro filme e que encontra um eco confuso em Full Frontal. 


A opção pelo digital

Em sua estrutura não-linear, Confissões de Uma Garota de Programa não somente gera o estranhamento metalinguístico pela utilização de uma atriz pornô no papel de uma profissional do sexo. A tarefa de recolher fragmentos — trechos de uma entrevista que Chelsea dá a um cronista sobre seu ofício, entremeados por pedaços de conversas que a prostituta tem com seus clientes e namorado — oferece recompensa a espectadores dedicados, retratando uma história íntima e complicada sem ceder a uma análise emotiva e piegas. Ao usar Sasha Grey, Soderbergh também não cede à tentação de expor os lindos atributos físicos da atriz de maneira gratuita, entregando cenas de nudez que passam ao longe da obscenidade ou do olhar puramente voyeur.  É um cinema que, obviamente, tem uma carga comercial extremamente reduzida, o que justifica sua difícil aceitação e mesmo presença na cena cinematográfica convencional. 



Depois daqui, a opção estética de Soderbergh consolida-se, com a utilização da Red One novamente em seu filme Contágio (de 2011). Mas, apesar de construir um visual que passa a identificá-lo, enquanto diretor, o filme tem um roteiro previsível e tedioso, em uma trama que apenas acompanha o desenrolar dos acontecimentos com a passividade do registro jornalístico televisivo. 


Difícil é entender como o diretor embarca em um cinema que não se presta nem para o divertimento mais ralo, com Magic Mike. Completamente desprovido de estilo, não ganha em nada pelo fato de ser protagonizado por Channing Tatum (o filme seria baseado na própria história do ator), e poderia estar nas mãos de qualquer realizador. E, ainda que Soderbergh confunda constantemente os críticos e espectadores com sua obra difusa, a mediocridade à que chega com este é realmente perturbadora. Ainda bem que consegue retratar-se com seu filme seguinte, Terapia de Risco. Centrado na indústria dos medicamentos, traz Rooney Mara como a paciente cuja terapia à base de psicotrópicos ocasiona resultados aparentemente desastrosos. Em sua estrutura de thriller, resta ao psiquiatra interpretado por Jude Law desvendar os meandros desta trama, que, ainda que longe de ser uma obra-prima, permanece interessante mesmo com a presença do onipresente Channing Tatum.

25 janeiro 2012

Policial pop brazuca

2 Coelhos é exagerado, deslumbrado, videoclíptico, americanizado e isto não é necessariamente ruim. Desde o trailer, eu já esperava pelo que o filme me entregou. Não, sejamos francos: mesmo incluído todos os "defeitos" possíveis que tentarei relacionar, ele me surpreendeu positivamente. 

Primeiro, pela honestidade. É um policial brasileiro sem medo de usar das regras do   gênero. O diretor e roteirista Afonso Poyart nunca escondeu (e nem poderia) que bebeu e recheou seu filme de todas as fontes facilmente identificáveis: Tarantino, Guy Ritchie (muito Guy Ritchie), Michel Mann e Zach Snyder estão todos lá. E, dado tudo isto, é muito fácil não gostar do filme. É certo que o primeiro ato contribui muito para isto: o diretor recheou as cenas iniciais com uma quantidade tamanha de grafismos, sobreposições de letterings,  tremores de câmera, edição frenética que é preciso uma certa fé para seguir adiante. Mas vamos lá, de coração aberto, disposto a ser cúmplice de uma produção brasileira que quis trazer algo de novo, usando de malandragem (era mais barato fazer uma porrada de cenas com 3D e quetais do que filmar em live action certas passagens, por exemplo, como disse o diretor em entrevista; ilustrações também serviram algumas vezes para explicar subtramas com um certo didatismo, mas com muita graça) para ousar sem medo de parecer pastiche. Parece pastiche? Às vezes sim, mas com qualidade. E isto é impressionante - mesmo que contraditório. Pois, diferente de vergonhas-alheias como Assalto ao Banco Central, só para ficarmos em um só exemplo, 2 Coelhos consegue ser bem sucedido uma bela quantidade de vezes. 


O fato de não ter se esquecido do roteiro em detrimento da punheta visual merece ser muito festejado. Não-linear, repleto de ganchos que o obrigam a ir e vir para explicar o que parecem ser arestas soltas, constrói uma história espertíssima, ainda que com um excesso de maneirismos que, às vezes, pesa a mão. Tem ótima atuação de Fernando Alves Pinto, como o protagonista Edgar, além da sempre delícia Alessandra Negrini (Julia), Caco Ciocler (Walter), Marat Descartes (Maicon) e todos os asseclas marginais com seus diálogos engraçados à la Tarantino. Todos devidamente envolvidos em cenas de tiroteio em câmera lenta, perseguição automobilística, trilha com Radiohead e uma batelada de referências pop desavergonhadas, incluindo aí uma espada ninja. Tudo o que se convencionou chamar pós-moderno vem entregue de bandeja. Mas é claro que numa embalagem que abrasileira de maneira coerente a coisa: corrupção política e marginais pés-de-chinelo incluídos. Há que se elogiar ainda uma cena de sexo repleta de efeitos, coreografada e captada com uma estética primorosa. Um verdadeiro presente para os olhos para quem, como eu, se atreveu a arriscar uma sessão de Bruna Surfistinha esperando algo mais que um revival da pornochanchada setentista.

De vez em quando é preciso que alguém se proponha a virar o jogo. Não que 2 Coelhos seja um divisor de águas. Mas sua existência mostra que fugir à uma certa preguiça que parece imperar neste terreno de filmes nacionais pop - onde um humor tosco ou tramas novelescas que, por enquanto, estão ditando as regras do jogo - é possível.

24 fevereiro 2011

Black Swan

O mito do artista está presente na obra inteira - só se é artista se ceder aos impulsos considerados romanticamente como viver em plenitude (cf. Bukowski, Charles). E é o personagem de Vincent Cassel quem propaga isto à menor oportunidade possível: como Thomas, diretor da companhia de balé de que faz parte Nina (Natalie Portman), ele insiste em atacar a demasiada ingenuidade ou suavidade dela, sua falta de experiência sexual, todos os predicados que a tornam inadequada para viver o cisne negro na sua nova montagem de O lago dos cisnes. Há uma insistência sobre ela buscar "paixão" em seus movimentos, esquecer que técnica não é tudo. No perturbado e invejoso mundo do balé está dado o start para que a frágil Nina (ainda por cima à sombra de uma mãe superprotetora e, ex-bailarina, invejosa, a ótima Barbara Hershey) adentre em uma espiral de loucura, nos presentando com sua paranóia quando se vê ameaçada pela sensual e liberta Lily (Mila Kunis), bailarina vinda de San Francisco, que desponta rapidamente na companhia e rivaliza com Nina em um antagonismo marcado como preto sobre branco. Mas e então o que é histeria, o que é a realidade, afinal, o que é a vida? Darren Aronofsky às vezes pesa a mão. A busca de Nina, sua transformação, sua dedicação para interpretar também o cisne negro na montagem da obra de Tchaikovsky (já que para o cisne branco, Thomas diz que ela é perfeita) emprega uma saraivada de metáforas visuais. É um delírio imagético que, com parcimônia, resulta num belo namoro com o fantástico. A repetição, no entanto, é desnecessária: a sensacional interpretação de Natalie Portman é o suficiente para nos fazer crer na perda  de sua razão. 

E então deslumbrantes cenas de balé, um clima que nos presenteia sempre com o horror, não obstante toda a delicadeza da dança. Fotografia e edição incríveis (a demora sobre detalhes é primorosa: a preparação da sapatilha de balé), o ápice do erotismo reunindo Portman e Kunis e o melhor: um flerte constante com a dor física, mesmo quando fruto da imaginação de Nina. A ferida nas costas, a unha quebrada no dedo do pé - tudo é lancinante para crermos no espetáculo movido a dor e pressão existente nos bastidores de uma montagem de balé, resultando em um filme que alterna crueza e sensibilidade em doses equilibradas. Sensacional.

02 fevereiro 2011

O vencedor

Não me importa que o protagonista de O vencedor seja Mark Wahlberg. Desde todo o burburinho em torno do filme, desde todas as notícias a respeito, desde seu trailer eu sabia que o filme pertencia a Christian Bale. Quando as indicações ao Oscar  corroboraram tal fato, eu pensei: ok, é a hora de conferir. Mesmo fã de Touro Indomável, Ali e seus quetais (mesmo Rocky e seus choros convulsionados - mas somente o original, antes de sermos violentados por qualquer coisa, menos boxe, que o ilustre Dolph Lundgren introduziu nas tôscas sequencias), contraditoriamente não estava me predispondo a vê-lo para torcer pela escalada de Micky Ward, papel de Wahlberg. Porque, convenhamos: mesmo considerando seu ótimo Dignam em Os Infiltrados, seu divertido Dirk Diggles em Boogie Nights (e por toda sua contribuição às séries de qualidade, ao produzir In Treatment, Entourage e Boardwalk Empires), Mark Wahlberg será sempre o cara de Good Vibrations. Então, não há muito o que se esperar, além de alguns lampejos muito eficientes de Wahlberg, um ator sempre ok, mas nunca surpreendente. Quando você se dá conta do estado tísico em que Bale chegou - mais uma vez, quase novamente tão assustador quanto em O operário -, e que isto não é embalagem, mas somente mais um adendo na sensacional interpretação que ele novamente entrega, você sabe, sem sombra de dúvidas que o filme é de Christian Bale.

É Christian Bale o mega carismático Dicky Eklund,  ex-lutador que teve seu momento de brilho ao levar à lona Sugar Ray Leonard. Irmão de Micky, afundado e decadente, fumando crack em uma pocilga imunda cercado de marginais e aplicando golpes com sua namorada prostituta, é este personagem que rouba o filme. Com sua energia incansável, sua trajetória errante, por vezes é o cafajeste treinador que deixa o irmão lutar com um oponente muito maior, a fim de garantir sua grana e de sua mãe, "empresária" do irmão. O irresponsável que chega atrasado aos treinos, quase acabando com a ainda irregular carreira de seu irmão. Em outros momentos é o profissional capaz de instruir seu irmão com uma seqüência de golpes tão simples quanto genial.  São estas contraditoriedades que criam uma atmosfera em que se alternam sentimentos de lealdade, amor e ódio supremo entre estes irmãos. Um filme que, mais do que somente outro perfil de lutador em superação,  nos entrega um drama sensacional mostrando que decadência e sucesso guardam ínfimos  milímetros de distância.

24 outubro 2010

Breves entrevistas com homens hediondos, o filme

Eu tenho bastante consciência da minha pré-indisposição para assistir à versão cinematográfica de Breves entrevistas com homens hediondos. Por vários motivos que acabaram se confirmando ao longo do momento em que decidi assisti-lo – afinal, a curiosidade era maior que o pré-conceito e somente a confirmação dos defeitos que imaginei, de antemão, encontrar nele, poderiam me proporcionar aquele sentimento de superioridade e de suprema – ainda que sonhe bastante mesquinho, mas fazer o que? – satisfação em saber que meu instinto continua bastante apurado. Ao fim de tudo, confirmaram-se suspeitas que antevi já ao assistir seu trailer; suspeitas que, confesso, tentei minimizar ao pesquisar um tanto para saber todo o esforço que foi para seu diretor John Krasinski a realização do mesmo: e isto envolve o fato de que, para ele, Breves entrevistas com homens hediondos, o livro de David Foster Wallace, foi uma espécie de epifania. 

Consta que Krasinski era um estudante, em 1999, quando decidiu virar ator depois de uma leitura do supracitado livro. Teria tentando por anos obter os direitos de filmagem, sem ser levado a sério, até que conseguiu o papel de Jim, na série The Office. Esta informação está no blog de Alexandre Rodrigues, do qual também retiro o seguinte trecho de conversa que teria acontecido entre Krasinski e Foster Wallace:

Ele perguntou: “Sobre o que é o script?” Eu respondi: “Uma mulher fazendo sua dissertação sobre feminismo em busca do  papel do homem moderno na era pós-feminista”. Houve um silêncio. E ele disse: “Eu nunca consegui pensar em como fazer todos (os casos) se relacionarem juntos”. O que soou bárbaro. Foi provavelmente um dos maiores dias da minha vida.

Não é preciso ser um gênio para saber que cinema e literatura são duas formas de expressões artísticas que não devem ser comparadas. Que a adaptação de uma obra literária não necessariamente precisa manter suas mesmas abordagens e não se deve esperar que esta adaptação cinematográfica seja uma reprodução fiel do livro. Pela óbvia impossibilidade da coisa. Enfim, textos muito mais extensos por aí dão conta da miríade de apreensões, sensações e sentimentos capazes de compreender uma obra literária e que não poderiam nunca encontrar representação quando traduzidos em experiência imagética. Fato é, que quando o cinema se utiliza de obras literária para suas realizações, na maioria das vezes busca bem mais do que os argumentos contidos no livro. Que se atrelar à obra, ao seu sucesso comercial, ser sua representação em movimento. Logo, também não é preciso ser um gênio para saber que, se você leu o livro, perseguirá comparações entre um e outro, ira à cata de defeitos e, claro, os encontrará.

O que é preciso deixar claro: Breves entrevistas com homens hediondos, para quem não sabe, é um livro de contos, que possui quatro contos com este título. Estes contos são no formato de respostas a perguntas que não se sabe quais são – elas são representadas pela letra “P” (lembra um programa exibido pela TVE chamado Ensaio cuja pergunta nunca era ouvida, nos restando somente elaborá-las a partir das respostas dos artistas convidados). Nestes contos os homens elaboram seus argumentos a alguma entrevistadora sobre a qual nunca sabemos nada, assim como não fica clara a motivação das entrevistas, que envolvem assuntos desde a estratégia de um homem usar seu braço defeituoso para sensibilizar mulheres, conseguindo delas favores sexuais, até uma teoria bastante minuciosa de por que ser estuprada por uma gangue pode não ser uma experiência tão terrível para uma mulher. 





Entre uma e outra entrevista, assuntos que quedam ao estranhamento divertido, como a do sujeito que berra uma longa saudação democrática toda vez que atinge o orgasmo e mesmo investigações mais dolorosas, como o homem que relembra a profissão do pai, encarregado de um banheiro de hotel de luxo, responsável pelo asseio do local, servindo aos mais ricos homens e convivendo com uma rotina de excreções sem nunca reclamar. O fato é que Foster Wallace possui uma escrita irrepreensível, repleta de ironia, capaz de fazer apuradas análises sobre temas como mídia, sexo e o que mais quiser sem cair em proselitismo ou parecer pedante. Condensa em diminutos ou longos textos motivos mais do que suficientes para ter sido considerado pela crítica especializada dos EUA como dono de uma das prosas mais influentes de sua geração. Fato que, corroborado por suas diversas obras (sendo que somente Breves entrevistas... foi até agora traduzida para o Brasil), não será seu suicídio, em 2008, que mudará tão cedo.

O que me incomodou logo de cara nesta adaptação foi o tom “divertidinho” dado à quase todo o filme. A trama é amarrada por uma personagem, Sara Quinn, interpretada por Julianne Nicholson, doutoranda em antropologia que, após ser deixada pelo namorado, o pianista  Ryan – papel de Krasinski – realiza uma série de entrevistas com homens em um esforço para descobrir os impulsores de seus comportamentos, querendo respostas para o quanto os movimentos feministas influenciaram suas vidas.

O filme inteiro é entrecortado por estas entrevistas, enumeradas, e a verdade é que não sabemos o resultado – e se haverá um – para o trabalho de Sara, uma vez que a personagem é passiva, servindo tão somente como o elemento de ligação para os personagens entrevistados, desfilando seu corolário de argumentos tal qual no livro. O filme tem, na maioria das vezes, aquela leveza que pasteuriza tudo em comédia inconseqüente, em uma montagem que, durante grande parte do filme, continua remetendo a um trailer, sem concatenação razoável e se utilizando de estratégias tais quais personagens que falam com a câmera, transitando por ambientes e pessoas fazendo observações sobre os mesmos, sem serem notados pelos outros personagens que ali estão.

Quase que na exata metade do filme, ele muda seu tom, se pretendendo mais sério e chocante – é quando começa o argumento tirado da entrevista com o homem que consegue encontrar fundamentações positivas no fato de uma mulher ser violentamente abusada. Este papel é entregue para o aluno orientando de Sara, que a persegue querendo saber qual sua impressão sobre sua tese, na qual defende este ponto de vista. É um dos melhores momentos do filme, com uma boa resolução dramática, tal qual a do personagem narrando a profissão de seu pai, o encarregado de banheiro. Nesta, a descrição se intercala entre este personagem e o ator que interpreta seu pai, os dois se encontrando em um presente-passado bastante interessante, sendo um dos poucos recursos de metalinguagem que, a meu ver, funcionam com perfeição no filme (há, inclusive, uma “invasão” de cenários, já que podemos ver o ambiente da entrevista no mesmo ambiente do banheiro relembrado do passado). Este tom se estende até o final do filme, intercalado pela conclusão de uma ou outra entrevista que foi sendo mostrada em trechos, e é a maneira que mais se aproxima da ironia e crueza contida na obra de Foster Wallace. Se toda a adaptação tivesse tido tal abordagem, não deixaria a impressão de dois filmes em um, com momentos tão nitidamente contrastantes, que acabaram resultando em um filme infelizmente não memorável. 

19 abril 2010

Fuja de garotinhas meigas

A meu favor eu tenho a dizer: quando entrei no cinema para assistir a Caso 39, tudo que sabia é que se tratava de um filme de horror com a Rennèe Zellweger. Não que a perspectiva de ver a comumente estrela de comédias românticas se descabelando aos gritos me fosse das mais atrativas, o fato é que esta foi provavelmente uma das escolhas cinematográficas mais aleatórias da minha vida, aproveitando o simples fato de estar no shopping, próximo ao cinema. Não que eu deva me desculpar por comprovar um mau gosto terrível ao embarcar nesta arapuca em forma de película, o fato é que me sinto um pouco melhor comprovando minha ignorância em relação à obra de que fui vitima.

Finda a choradeira, vamos às impressões. Isto sem perder tempo questionando o que houve com Renèe Zellweger, promissora atriz de Chicago, Diário de Bridget Jones, Cold Moutain (e ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante por este último) entre tantos outros. Fato é que ela resolveu embarcar nesta epopéia de previsibilidade e todo mundo perdeu. Perdi.

A trama: Zellweger é Emily, uma dedicada assistente social que consegue impedir um casal aparentemente muito cruel de matar sua filhinha de dez anos, Lilith (Jodelle Ferland). Pausa para o mais néscio conhecedor de religiosidade sacar que, desde este nome nome pouco óbvio da menininha, já tem coisa. E isto é só um dos itens que destacam um roteiro extremamente tendencioso à descoberta antecipada, com aquela profusão de clichês que incluem sustinhos a toda hora (e quando digo a toda hora é a toda hora MESMO), mesmo que eles não tenham relação alguma com o andamento da trama - e inclua aí batidinhas repentinas no vidro do carro, cachorros furiosos surgindo do nada, pessoas atrás de portas e quetais. Eu sou um cara ingênuo pra caramba, mas não foi preciso muito para sacar que cruéis não eram exatamente os pais da garotinha.

Quem é um tanto mais rápido do que o espectador para se dar conta do mal que assola o coração da superficialmente meiga Lilith, só mesmo a Emily, personagem de uma densidade absurda. Se não, vejamos: experiente em lidar com casos de abusos e maus tratos a crianças (o que, para tal, pressupõe-se uma certa carapaça profissional. Não chamemos de insensibilidade, longe disto, mas o distanciamento necessário para não querer levar pra casa toda criança aparentemente doce e desamparada que lhe cruza o caminho), não demora nada para Emily concluir que o melhor a fazer é adotar a pequena Lilith, o que ela consegue com sucesso após argumentar sobre burocracia e tudo o mais e que o melhor para a criança é ficar com ela, uma especialista em casos como estes.

Então, some a isto todos os clichês possíveis de filmes com garotinhas malignas com cabelos compridos e maldições telefônicas e temos um resumo bastante rico de como Caso 39 é. Adicione Zellweger com sua voz cada vez mais fina em gritinhos histéricos, sustos a dar com pau e vai ficando ainda mais clara a grande obra que me dei ao trabalho de aguentar. Ah, coloque aí também alguns efeitos especiais bem ruins (como marimbondos saindo do ouvido de uma das vítimas de Lilith) e uma das personagens de horror mais influenciável, medrosa e pouco esperta de toda a história (utilizar pequenas trancas na porta do quarto como maneira de se proteger de um demônio que mata por telefone não é exatamente uma das formas mais inteligentes com que uma protagonista deveria se comportar, convenhamos) e, voilà!, eis meu programa de índio de domingo. Que não foi de todo perdido: ao menos serviu para poder encher de piadinhas este texto que nem pra crítica cinematográfica serve.

16 março 2010

Micro-resenhas


500 dias com ela (500 Days of Summer)

Eu ouvi muita gente acusando Juno de ser um filme forçadamente indie. Construído usando de todos os artifícios para cair no gosto dos descolês - aí incluídos o cachimbinho sem fumo, a bebida azul gigante e o linguajar algo afetado e espertinho da protagonista. Confesso que a mim não pareceu. Um filme como Pequena Miss Sunshine, por exemplo, me ocorre como muito mais dado a estes estratagemas. Enfim - é sobre nenhum dos dois que este post  é escrito, no entanto. São referências para o fato de que, provavelmente o sentimento que Juno despertou por todos (e outros) aspectos que apontei aqui, deve ser o mesmo sentimento que me acometeu quando assisti 500 dias com ela. Demorei um bocado, é bem verdade. Muito fuzuê em torno de Zooey Deschanel, que me pareceu um robozinho de olhos esbulhagados* em Fim dos Tempos. Ok que a mina é linda para caralho, charmosa e tal e coisa. Mas sempre sou tomado por esta implicância quando certas personalidades são alçadas ao Olimpo de maneira rápida, ostensiva e conjunta por toda uma mídia formada por revistas mainstream e por descoladinhos de sites mUdernos. 

Mas tá, fui lá olhar o filme. 

E ele é todo bonitinho, esquemático, tal e coisa: divisões de tela, ceninha de dança, letterings malandros. O guri, sósia do Heath Ledger (Joseph Gordon-Levitt) é bem bom - já gostava dele em 3rd rock from the sun. Mas ele usa gravatinhas finas e roupas que combinam com a falta de saturação do filme inteiro. Há uma certa lavadinha paulista (argentina?) ali, a decadência do emprego bobalhão (o cara é redator de cartões de felicitações, por favor!), imprimindo o tom monocórdio e entediante da vida do cara até que é alçado à felicidade pela presença da personagem da Zooey. Que nem é A mulher mais incrível do mundo. É uma mina gata, mas meio distante, que é a mesma impressão - um pouco menos intensa - que ela me deixa por sua segunda atuação que assisto. 

Ah, e nos extras tem clipe descolado da banda descolada da Zooey Deschanel, She & Him, que todo mundo que é bem descoladinho gosta (ok, a banda é fofurinha, a música é massa, mas, sabe.)



Tá rindo do quê (Funny People)


A patota do Judd Appatow continua mandando muito bem. Tá rindo do quê? é simplesmente uma das mais engraçadas e ternas comédias que assisti em muuuito tempo. Desde Superbad e O Virgem de 40 anos que tenho ficado de olho no trabalho de todos estes caras e, tirando um filme que recordo agora - Segurando as pontas (The Pineapple Express), maconheiro demais e bem menos engraçado - dificilmente me decepciono. O bacana deste filme é presenciar a cena stand up formada pelos comediantes em começo de carreira Ira Whrigt (Seth Rogen) e Leo Koenig (Jonah Hill), sempre às voltas com a construções de suas rotines de show até o envolvimento de Ira com George Simmons, um comediante popular, espécie de Eddie Murphy com Seinfeld, que descobre ter uma doença sanguínea incurável. Quando George contrata Ira para ser seu assistente pessoal, o que era para ser uma relação profissional se transforma em uma bela amizade, dando um tom todo especial para o filme, mesclando momentos de humor arraigado com instantes de ternura, mostrando o milionário comediante tentando desfazer algumas besteiras cometidas na vida e ensinando Ira a se tornar um profissional de sucesso nos palcos.


*UPDATE [17.03.2010, 2h22min]: Zooey Deschanel está maravilhosa em Sim, Senhor. Maravilhosa.

11 abril 2009

Dúvida

Publicado no Paralelos Blog


Dúvida
(Doubt, 2008) é um grande filme? Isto está claro - embora, para alguns, este fato não seja necessariamente parecer de qualidade - pela cinco indicações que levou para o Oscar (Melhor Atriz, para Meryl Streep; Melhor Ator Coadjuvante, para Philip Seymour Hoffman; Melhor Atriz Coadjuvante, tanto para Amy Adams quanto para Viola Davis e Melhor Roteiro Adaptado, para John Patrick Shanley). Mas, vejamos: que filme com um elenco que inclui Philip Seymour Hoffman e Meryl Streep (com sua 15ª indicação!) não seria um grande filme? Estarei sendo ingênuo ou por demais crente tão somente da grandiloqüência dramática que atores como estes são capazes de oferecer a um filme, ou estou certo em minha conclusão de que, realmente, é preciso ser um diretor excepcionalmente incompetente para não fazer um grande filme com estes dois atores? E, deixando claro que somente me referi aos dois principais (embora Hoffman conste como coadjuvante, neste, como em todos os seus filmes, sua presença é tão impressionante que é difícil dar-se conta disto), sem fazer menção aos desempenhos fantásticos de Amy Adams e de uma colossal Viola Davis que, em uma(!) cena tem uma interpretação tão arrebatadora que foi o suficiente para não somente garantir sua indicação ao Oscar, mas também para deixar boquiaberto o menos sensível dos admiradores das artes dramáticas.

A grande questão para mim, é a seguinte: Dúvida é um filme sustentado tão somente por atuações extraordinárias (e isto é pouco?), principalmente dos dois atores primeiramente citados (ainda que Meryl Streep esteja entrando naquele perigoso terreno dos grandes atores, no qual o padrão de atuação acabe mostrando mais do próprio ator do que do personagem em questão. Exemplificando: uma pequena coleção de vilões, por exemplo, tem lhe garantido personagens cruéis de construção relativamente semelhantes, que correm o risco de virar clichê em seu currículo. Uma constatação, é claro, repleta de maldade e má vontade. É que costumo ficar atento a pequenices como estas...).

Definitivamente, não é um filme fruto de um roteiro estupendo. Não negando sua origem teatral, Dúvida constrói uma trama relativamente básica para jogar no espectador a premissa da dificuldade de exercitar definições morais em uma situação repleta de incertezas. É esta dúvida que tem a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), a diretora com mãos de aço que acredita no poder do medo e da disciplina, quando se depara com a possibilidade do carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), estar mais do que tentando modificar rígidos costumes típicos de uma escola cristã no ano de 1964: desaba sobre a irmã a dúvida de que talvez o padre esteja abusando sexualmente de um dos alunos da escola St. Nicholas, cenário da trama.

Ao mesmo tempo que sopram os primeiros ventos de mudanças sociais, que permitem a inclusão de um aluno negro na escola, por exemplo, talvez seja este mesmo aluno, Donald Miller (Joseph Foster II), vítima de preconceito de seus colegas e parte mais sensível da história, que esteja sofrendo em sua situação mais do que intolerância racial, mas, posto como aluno "preferido" a ser protegido pelo padre, para a irmã Aloysius começa a ficar claro que esta proteção está excedendo todo e qualquer limite. Uma suspeita que, em verdade, começa a ser levantada pela insegura irmã James (Amy Adams), uma freira inocente e esperançosa que também vê atenção exagerada do padre Flynn à Donald, o coroinha tão completamente envolto nos carinhos do religioso.

O que resta a fazer, então, a uma diretora que sempre levou a escola com mãos de aço? Considerar a possibilidade de tudo ser um grande engano, uma vez que não se tem provas de nada e lidar com a dúvida eterna de estar acobertando um padre abusivo na sua comunidade cristã? Ou, com as mesmas mãos de aço que sempre marcaram suas ações, não titubear e, mesmo sem poder comprovar o fato em questão, empreender uma cruzada para banir o padre da escola? Nunca esquecendo que não há nenhuma evidência a não ser a certeza moral da irmã (ou será somente o julgamento de ser dona de todas as verdades?).

Sendo adaptação de uma peça, que rendeu o Pullitzer ao também dramaturgo (e, aqui, diretor e roteirista do filme) John Patrick Shanley, Dúvida evidencia-se ainda mais intensamente como um filme de atores por sua estrutura metódica, seca, sem concessões a ambientações ou quaisquer outros elementos que tirem a presença dos atores como peça central da tela. Uma das poucas vezes em que isto acontece é, por exemplo, na cena do sermão do padre Flynn, quando se insurge na cerimônia para atacar a intolerância da irmã Aloysius através de palavras inflamadas. Esta, uma das seqüências mais bonitas do filme, da qual se serve Shanley para arejar sua narrativa com tomadas externas, ilustrativas da metáfora do travesseiro soltando penas de cima de um edifício, captadas pela fotografia, de belo efeito visual e funcionalidade dramática, de Roger Deakins, indicado ao Oscar por outro trabalho belíssimo, Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes.

Um filme de atores, carregado de resquícios teatrais, é bem verdade, mas com um duelo de interpretações memoráveis, somente uma coisa - e perdoem-me o irresistível e inevitável trocadilho - não resta dúvida: é um filme imperdível.

23 fevereiro 2009

Slumdog Millionaire

Quem Quer Ser Um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008) é sensacional. Não consigo - e nem sei se é preciso - ir muito além desta opinião, agora que terminei de assistir a este muito merecido ganhador de oito estatuetas do Oscar, incluindo os prêmios principais de melhor filme e mehor diretor. Há muito tempo não me via torcendo tão desbragadamente por um protagonista, e tão sentimental e verdadeiramente envolvido com uma história, como fiquei com a trama de Jamal (Dev Patel) em sua epopéia de amor desesperado atrás de Latika (Freida Pinto), em um roteiro costurado com perfeição, que mostra o jovem desde sua infância, ao lado do irmão Salim (Madhur Mittal) até o momento em que participa da versão indiana do programa Quem Quer Ser Um Milionário?.

O filme de Danny Boyle desde as cenas iniciais consegue nos fisgar magristralmente, questionando como um menino da favela conseguiu chegar ao topo deste jogo televisivo acompanhado entusiasticamente por milhares de pessoas. Dali em diante, não há como não querer ver esta pergunta respondida, acompanhando a jornada de Jamal em um filme como uma edição espertíssima, que lembra muito Cidade de Deus, mas que consegue emocionar ao mesmo tempo em que deslumbra com sua fotografia saturada, emulando tão bem às produções bollywoodyanas.

Slumdog Millionaire não é - e isto não demora muito a ficar claro - um filme sobre dinheiro, mas sobre o amor. É por causa dele - do seu amor por Latika - que Jamal acaba sendo acusado de ser um trapaceiro pela polícia, que não crê na possibilidade dele, um jovem desprovido de estudo, órfão favelado, conseguir chegar tão longe neste difícil programa de perguntas e respostas.

Independente do filme mostrar toda a situação de extrema miséria da Índia - preocupação manifestada pela população, mas que não se pode esconder - o país comemora as oito estatuetas, principalmente as três com que foram premiados os artistas indianos A.R. Rahman, por melhor trilha sonora e melhor canção, este último compartilhado com o compositor Gulzar; e também o prêmio de melhor mixagem de som para Resul Pookutty.

Update:

Abaixo, a cena final de dança, produzida por Matt Curtis, designer especialista nesse tipo de trabalho. Ele recentemente realizou também os créditos de Hellboy II: The Golden Army e In Bruges (fonte: Brainstorm#9). Já famosa, a cena conta com diversas paródias no YouTube. Não aconselho clicar para quem ainda não tiver assistido ao filme.

31 janeiro 2009

Chuck Palahniuk de volta ao cinema

Depois de Clube da Luta, agora é a vez de um novo livro de Chuck Palahniuk ganhar adaptação para o cinema. Choke (que imagino, no Brasil, deverá ganhar o mesmo nome da tradução de seu livro, No sufoco). A trama? Como todos os livros de Palahniuk, busca atingir os mais altos graus de insanidade: Vicor Mancini é o protagonista, um trapaceiro traumatizado por uma infância atribulada ao lado da mãe amalucada. Victor, também é um viciado em sexo, que frequenta grupos de ajuda sem a menor pretensão de curar qualquer compulsão, mas sim de conseguir mais parceiras sexuais. Um dos golpes de Victor consiste em fingir sufocar-se com comida nos restaurantes. Comove quem o socorre, contando que passa por dificuldades financeiras, o que, invariavelmente, leva seus salvadores a lhe enviarem dinheiro. Não bastasse tudo isto, Mancini ainda acredita ser descendente direto de Jesus Cristo e trabalha em um parque temático vestido de vassalo irlandês.

O roteiro e direção são de Clark Gregg, ator que vive o ex-marido de Christine na sitcom The New Adventures of Old Christine e tem música de Radiohead na trilha. Abaixo, o trailer. Difícil que o diretor estreante tenha conseguido adaptar todo o cinismo e corrosividade da literatura de Palahniuk - é por demais tentador se render às fartas doses de humor da sua obra. O ruim é não compreender as entrelinhas repletas de causticidade e de crítica irônica e subversiva. Coisa que David Fincher conseguiu com maestria na adaptação do livro de estréia do autor.

Ah, e consta que Cantiga de Ninar também está em vias de virar filme.




12 janeiro 2009

Band à part

Apesar de cinéfilo, sou bem defasado em relação aos clássicos, aqueles que todos devem ver e blá, blá, blá, etc. No entanto, à medida que posso, vou me redimindo, alugando umas coisinhas aqui e ali, comprando outras coisinhas aqui e ali e baixando umas outras perolazinhas aqui e acolá. Agora é a vez de Band à Part (França, 1964) que, mesmo sendo considerado o filme mais acessível de Godard, é indiscutivelmente um clássico (e é lógico que ainda é bem cedo pra eu me bandear para as outras maluquices que o diretor já andou fazendo). Consta que uma vez, a crítica de cinema Amy Taubin, da revista nova-iorquina Village Voice, escreveu que Band à Part é “um filme de Godard indicado para pessoas que não gostam de Godard”. Como não vi nada do diretor, além do supracitado filme, não posso corroborar esta afirmativa. Só posso dizer quer assistir a este filme foi uma bela experiência, por desfrutar de cenas antológicas da sétima arte e, independente delas, ou por elas, de um filme delicioso, leve e cheio de frescor.

Sobre o filme, sei que foi filmado durante um período curto de 25 dias, apertado entre produções de dois projetos bem mais caros do diretor. Isto não impediu que o mesmo se tornasse o clássico que é, ainda que subestimado exatamente por seu autor, que considera sua obra menor. Também não impediu que o filme mantivesse os experimentalismos que são marca registrada de Godard – ainda que, é claro, em uma proporção bem mais reduzida.

Adorado por Tarantino que, não por acaso, batizou sua produtora com o nome de A Band Apart, o filme em questão mantém o princípio de Godard de introduzir elementos metalingüísticos na narrativa, sempre lembrando a platéia de que ela estava vendo um filme. Um exemplo disto é uma literal cena de um minuto de silêncio, em que simplesmente todos os sons (trilha sonora, etc) são eliminados abruptamente, abolindo por completo o realismo da cena: na verdade, são 36 segundos, como podemos ver aqui.

Godard se utiliza constante de expedientes deste gênero para jogar na cara do espectador que ele está assistindo a uma obra de ficção.

Além desta, existe em Band à Part outras cenas que se utilizam de truques de edição sonora para pôr por terra a idéia do naturalismo – um acontecimento para o cinema comercial da época. Em determinado momento, Franz (Sami Frey) finge atirar contra o amigo Arthur (Claude Brasseur), imitando momentos clássicos dos filmes de gângster pelos quais Godard era apaixonado, e usando o dedo indicador como se fosse um revólver. Godard incluiu aí o som de um disparo real na seqüência, uma tremenda ousadia para a época. Os dois personagens também assobiam a melodia principal da trilha sonora. O momento mais emblemático, pelo qual o filme é constantemente lembrando, no entanto, é o em que Franz e Arthur, mais a Odille, personagem de Anna Karina (então namorada de Godard na época), dançam em um bar. Interrompendo constantemente a trilha sonoro, temos uma narrador onipresente, que descreve, de maneira irônica, os sentimentos dos três personagens durante a cena, realmente intrometendo-se ao realismo da cena, dialogando diretamente com o espectador. A seqüência de dança foi inspiração para Tarantino em Pulp Fiction (1994), na cena de Uma Thurman e John Travolta. Outra cena que serviu de inspiração, desta vez para Bernardo Bertolucci em Os sonhadores, é aquela em que o trio atravessa correndo o Museu do Louvre.

Quanto à narrativa, é simples: os dois jovens planejam roubar a casa onde a personagem de Anna Karina trabalha e mora. Não são ladrões profissionais e não dão a mínima para o dinheiro – todo o processo é uma tentativa de vivenciar emoções para espantar o tédio em que vivem: aqui, o comportamento hedonista é um motivador grande neste filme, ainda que não de maneira negativa. Mais do que a narrativa, o que importante neste filme é seu estilo, sempre sabotando com convenções, esclarecendo os pensamentos e intenções dos personagens, deixando muito claro para o espectador que tudo se trata, afinal de contas, de uma farsa.

30 dezembro 2008

Guy Ritchie à procura de Guy Ritchie

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Não bastasse o fracasso com seu último filme, Destino Insólito, de 2002, quando resolveu mexer em time que estava ganhando – suas tramas de gângsteres, marcadas por um humor cool e debochado – e empregar a então dona patroa Madonna, Guy Ritchie ainda por cima tem que amargar ser considerado uma cópia piorada de Quentin Tarantino. É o que parte da crítica vem falando a respeito dele ultimamente, principalmente sobre sua última realização, Rock’n’Rolla. Não acredito que seja propriedade de Tarantino uma série de cacoetes que são comuns aos dois: a violência, o nonsense, a incorreção política, a montagem ágil e o entrelaçamento de diferentes linhas narrativas culminando para um final surpreendente. Inclusive creio que por usar e abusar destes estratagemas, muitas vezes Ritchie só consegue repetir a si mesmo. Era, no mínimo, a expectativa que eu tinha antes de assistir ao seu penúltimo longa, Revolver, que fosse mais um projeto à la Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, quem sabe beirando Snatch – Porcos e Diamantes. Vã ilusão.

Em Revolver, Jake Green (Jason Statham, ator-fetiche do diretor) é um jogador que esteve preso durante 7 anos por ter caído nas tramas de Dorothy Macha (Ray Liotta). Agora em liberdade, Jake torna-se imbatível nas mesas de jogo usando uma fórmula que aprendeu com ex-companheiros de prisão.

Definitivamente, Ritchie está mais ambicioso. E é preciso entender por ambição uma atenuação da comédia e do humor negro mais descarado que seus longas anteriores tinham. Além destes estarem muitíssimos reduzidos em Revolver, o diretor também diminui grandemente a mão naquele estilo de edição “espertinha” que já se transformou em marca registrada sua – o que muitas vezes acabava por definir seu trabalho como filmes muito mais de forma do que conteúdo, aí se concentrando quase todo o apelo cool de sua filmografia, até mais intensamente do que na estratégia sempre empregada de personagens com sotaques acentuados, caricatos ou chefões do crime com métodos bizarros. Revolver representa uma tentativa do diretor de dar um passo adiante, introduzindo elementos estranhos ao seu universo, como a utilização de diversos recursos estilísticos, metáforas e alegorias, pretendendo criar uma profundidade maior em um roteiro que (e no final das contas é só isto) se apóia em todos os recursos possíveis para tentar alcançar profundidade onde ela não existe. Pra isso, Ritchie pega pesado e de maneira didática no voice-off, enchendo o espectador com a confusão mental de Green e mais tarde, também com o chefão Macha. A ambição de Ritchie é tanta, que o filme é permeado por citações de filósofos famosos sobre poder, decepção, guerra e xadrez – fora as metáforas religiosas/espirituais de que o filme está repleto (quando uma importante personagem renuncia à violência, Ritchie o enquadra para que o ouro deixado na parede atrás de sua cabeça forme uma auréola. Herança de Madonna, que quase estrelou a película?).

Mas é claro que um diretor como Ritchie, ainda que esteja um tanto perdido, não poderia realizar um filme de todo desprovido de qualidade. E, a bem da verdade, Revolver tem muitas, como a fotografia, que é sensacional, muitas vezes em tom azulado, evidenciando um clima que é muito mais introspectivo dos que os filmes anteriores do diretor. Também é preciso aplaudir o desempenho sensacional de Andre Benjamin (do Outkast), como Avi, que junto com o também enigmático Zach (Vicent Pastore), são como “condutores” ou protetores de Green no seu retorno à cena. O personagem Sorter (Mark Strong) também é uma grande criação de Ritchie, como um atirador quase infalível com uma audição sobre-humana. Não à toa, a seqüência de tiroteio em que Sorter usa sua audição para descobrir inimigos à sua espreita é uma das melhores do filme, com uma edição primorosa. Mesmo, assim, infelizmente, estes são ponto menores em um filme que, assim como muitos dos personagens, parece atirar para todos os lados, errando feio o alvo. Melhor sorte para Rock’n’Rolla.