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31 julho 2010

Curtas

Bastante sumido por aqui. Os motivos podem não ser plenamente justificáveis (partindo da premissa que sempre encontra tempo aquele que precisa de tempo para fazer algo que realmente queira), mas são reais e, porque não dizer?, nobres. Estou envolvido com aquela etapa quase tão incrível quanto a própria criação literária que é a preparação dos originais para publicação. Etapa esta que compreende aguardar com apreensão a leitura crítica de editor, a posterior sugestão de melhorias, possíveis supressões e quetais: todos os itens que objetivam, é claro, o melhor resultado final para o livro. E que passam por leituras que você mesmo, na intimidade de autor, no vício da releitura de sua própria obra, não enxergou. Muito bom este feedback, este olhar capacitado e repleto de boa vontade, sugestões que aperfeiçoam o estilo e também comprovam algumas impressões próprias que se tem, intuitivamente. Até agora tem sido só alegria a dedicação à publicação por parte da querida editora e maravilhosa leitora Lu Thomé e o editor e capista Samir Machado de Machado. Ainda estão envolvidos, e vem muita coisa boa daí, Guilherme Smee  (que fez, por sinal, uma bela análise de Umbigo sem fundo) e Rodrigo Rosp.




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Eu namoro pilhas de livros. O objeto livro me seduz de maneira absurda, por isto amo ver os volumes empilhados, aqueles que já não cabem nos vãos da prateleira. Ver rechonchudas edições das cada vez mais volumosas HQs me traz sorriso na cara sempre que vou à sala e me deparo com a estante. E ali, acima de Fun Home, Retalhos, Umbigo sem fundo, Como uma luva de veludo moldada em ferro, Mesmo Delivery (entre outros, e, mais recentemente, Cachalote) – nesta minha ânsia por graphic novels que vem aumentando gradativamente – estava, já há algum tempo, Black Hole, maravilha de Charles Burns. Uma preciosidade, que matei em um fim de semana chuvoso, como têm sido todos os últimos. Não obstante a qualidade gráfica impressionante dos dois volumes da narrativa, a trama, também de autoria de Burns é algo a se destacar muito. Em uma Seatle setentista, uma espécie de vírus se espalha entre os adolescentes, transmitida através do sexo e causando deformidades que podem ir desde um singelo rabinho, a uma segunda boca junto ao pescoço, passando por horrendas protuberâncias faciais, escamas em partes do corpo, pele descamando – além de perturbadores delírios mentais – e mais um manancial de possibilidades engendradas com horror pelo autor. Aqueles atacados por deformidades tão horrendas que os levam a ser discriminados pela sociedade, acabam indo morar em uma espécie de colônia, na floresta da cidade. Esta trama não impede de acompanharmos as paixões dos personagens, bem como suas fugas através de drogas, extrema violência em uma existência que já não tem mais sentido algum. Independente do fato do autor querer ou não retratar a adolescência (nesta nossa ânsia contínua de encontrar metáforas narrativas) como uma época de trevas e incompreensão (e a crueldade dos adolescentes populares vs. perdedores é potencializada de forma gigantesca), Black Hole é uma história amarga, triste e algo traumática, mas de leitura indispensável e de deleite estético imperdível. Há algum tempo rola o boato de uma possível adaptação para o cinema, nas mãos de David Fincher, com produção de Neil Gaiman. Será?






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Estou na terceira temporada de Mad Man. Não há mais nada a declarar.


06 junho 2010

Fábulas de ironia e perturbação


Todorov, em seu já clássico L’introduction au fantastique, define o fantástico, como “a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, diante de um conhecimento aparentemente sobrenatural”. Seu conceito de fantástico se estabelece, portanto, entre a dicotomia real/imaginário, natural/sobrenatural. Já Ana Maria Barrenechea, em La Literatura Fantástica em Argentina, estabelece como base do fantástico, a existência implícita ou explícita de fatos a-normais, a-naturais ou irreais – quando postos junto a seus contrários. H.P. Lovecraft, por sua vez, considera que o critério do fantástico situa-se não na obra em questão, mas na experiência particular do leitor. Um conto, para Lovecraft, será fantástico se o leitor experimenta profundamente um sentimento de temor e de terror ou “a presença de mundos e poderes insólitos”.


Julio Cortázar, discordando muito especialmente de Todorov, conclui: “Para mim, o fantástico é, simplesmente, a indicação súbita de que, à margem das leis aristotélicas e da nossa mente racional, existem mecanismos perfeitamente válidos, vigentes, que nosso cérebro lógico não capta, mas que em certos momentos irrompem e se fazem sentir.”

Não obstante todas as tentativas de definição, fantásticos – talvez por falta de nome melhor – são como podem ser mais facilmente definidos a maioria dos contos do mais recente livro de Rodrigo Rosp, Fora do Lugar (Não Editora, 2009). No entanto, como já denuncio a fragilidade do rótulo, também é fato que, por mais coeso que seja em sua temática, a obra de Rosp consegue agregar outros elementos, dificilmente distanciando-se da linha mestra que se determinou a seguir. E mais: mantendo coerência com argumentos que não são novidades na sua obra – quem leu A virgem que não conhecia Picasso (Não Editora, 2007), sabe que o autor é pródigo no uso tanto da sensualidade e do erotismo quanto do humor, e estes estão presentes também neste livro. E é fato notável a grande evolução que o autor teve de uma obra à outra.

Rosp consegue, em Fora do Lugar, conferir à literatura a investigação e algum experimentalismo que lhe são devidos, mas sem, em momento algum, soar enfadonho ou – o que é já visto como o grande mal da literatura contemporânea – parecer escrever somente para os seus semelhantes. Porque também é entretenimento da mais alta estirpe o que Rosp constrói. Talvez por ter buscado em seus contos, mesmo os mais pretensamente “absurdos”, o que Cortázar (mais uma vez!), considerava como grande efeito em uma obra desta natureza: parecer “uma coisa muito simples, que pode acontecer em plena realidade cotidiana”. Rodrigo Rosp experimenta aqui e ali com a forma, mas sem hermetismos. Ele brinca com a literatura conferindo-lhe uma leveza que é demonstrada através do humor que lhe é peculiar, mas principalmente com fineza e ironia, construindo preciosidades do tipo: “No parapeito da janela, três livros de autoajuda estão prestes a cometer suicídio”,  trecho pertencente ao conto que dá título ao livro.  Nesta peça, curta, o que parece nonsense logo se elucida como o desbaratino da cabeça atordoada do homem cuja mulher se foi. Quem há de culpá-lo, portanto, se em sua casa tudo parece desarranjado, fora dos prumos?

A coerência que Rosp mantém na obra talvez tenha representação máxima no conto “Sala de espera”. Com um monstro medonho como um dos personagens, o conto faz troça de um clichê anacrônico. E ali estão as armas do autor: ironia, absurdo e muito humor. Em mãos ingênuas, é provável que o bicho acabasse colocado em alguma meseta açoitada pelo vento ou em algum pântano com vapores horripilantes. O que Rosp faz, com falsa displicência de quem observa o cotidiano acontecer como se nada fosse, é instalar o ser na sala de espera de um consultório médico (e, com esta estratégia, conseguindo lançar um olhar ainda mais apurado para o estranho em questão, ou, indo um tanto mais adiante, criando uma metáfora para o absurdo que já não mais enxergamos, entretidos com o carnaval midiático que se coloca à nossa disposição). Mais uma vez é à Cortázar – expoente máximo, a meu ver, da tradição em que Rosp com esta obra se insere – que recorro: ao lidar com o estranhamento de maneira tão banal, Fora do Lugar em alguns momentos aproxima-se ao que já foi alcançado principalmente em “Histórias de Cronópios e Famas”, do autor argentino. Também Cortázar, tal qual Rosp faz agora, nos presenteava com uma horda que poderia incluir os indescritíveis “famas” e “cronópios”, mas também – e simplesmente – um urso que habita os canos e surge pela manhã para acariciar as faces, e os fazia desfilar sem pudor por cenários tão comuns e cotidianos como consultórios médicos.

Em outro paralelo bastante feliz – ainda que, certamente, involuntário – com a obra de Cortázar, Rosp parece justificar a sentença do autor argentino da desgraça que é ser presenteado com um relógio. Em “Funeral dos relógios”, o personagem ilude-se que a destruição de todas estas peças que o rodeiam possa estancar a inexorável passagem do tempo. E sobre ilusão de personagens, é bom que se fale do certo acalanto que Rosp mantém com os seus, quase todos homens iludidos ou perdidos ou atarantados, se não por amor, por sexo, ou qualquer coisa que lhes fuja ao domínio: que o diga o protagonista de “Engolidora de espadas”, outrora “o leão, furioso e arrogante, procurando uma domadora que não tremesse diante do rugido” e que se vê aturdido com a voracidade gastronômica da parceira, revelada em proporções assustadoras.

Se há um anticlímax no livro de Rosp, é provável que este possa ser dado por “Carrasco”, que em seu registro bem mais sério e, por assim dizer, reflexivo, parece destoar da coletânea. Ainda que “Maldito”, “Ideia ideal” e “Agora, a dor se foi” dêem espaço a uma certa elucubração sobre as questões da angústia do autor e realização literária, ainda assim conseguem conter metáforas do absurdo, de maneira irônica ou mais lírica, mantendo um forte vínculo de coesão com a obra.  Em “Estranho espelho meu”, Rosp vai um tanto mais adiante do registro rápido que é quase regra dos outros contos, com algumas exceções. Neste, a história se demora um tanto mais sobre o personagem que não reconhece a figura disforme que aparece refletida no espelho do velho casarão a que retorna. De formato mais clássico em sua composição, a trama me deixou com a sensação de ter potencial para extensão de maior fôlego.

Independente do registro final de cada um dos contos, o que é fato é o lirismo indisfarçável com que Rosp escreve. Faz escolha burilada das palavras, compondo períodos belos em si próprios e que se articulam ao texto maior de forma cadenciada, propondo significações que podem remeter – em um primeiro momento – ao enlevo da poesia de amor romântico, embora, na maioria das vezes, escondam arapucas de finais secos e impiedosos. “Poeteiro” é prova máxima disto. Nele, Rosp constrói narrativa que parece se encaminhar para destino sentimental, puro. E somos apunhalados pela conclusão carnal, dura, mas não menos lírica por isto. Esvaziada de sentido, a sexualidade no conto de Rosp se traveste de fábula romântica para nos enganar. E isto requer habilidade.  A mesma que pode ser vista em “Coração da Noite”, com seu manejo acertado de repetição estrutural. Brincando com a redundância dos parágrafos, o leitor é conduzido para um fim até previsível, mas não indesejado. É mais um retrato do homem citadino sórdido, em sua busca frenética por prazer – ou uma aventura outrem que o leve para melhor lugar.

Ao final das treze narrativas de Fora do Lugar, sobra perturbação. Talvez porque nosso mundo sólito pré-concebido se mostra abalado, penetrado em sua pretensa congruência. Pontos para Rosp que consegue fazer jus mais uma vez a Cortázar (e a ele voltamos, fechando a “esfera” desta resenha como para ele era fundamental fazer em seus contos) quando este disse: “nada é sólito desde que submetido a um escrutínio secreto e contínuo”.