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28 dezembro 2009

Verão em Porto Alegre

Bom que no verão tinham a desculpa do calor para começar as conversas constrangedoras que, ao final, se resumiam mais a silêncios do que trocas válidas de palavras que significassem alguma coisa mais do que os olhares deles significavam. Sempre os comentários prosaicos sobre como tão quente está para quem fica na cidade, mas sempre haveria os que precisavam ficar, é certo, a máquina não se move sozinha e nem todos têm a oportunidade de aproveitar todos os momentos a toda hora, mesmo os merecidos, ainda que estando os dois em férias como estavam. E risadas, claro que tinham risadas, e ele nunca recusava o copo d’água gelada que ela lhe oferecia, somente o copo d’água está bom – ficava olhando os cd’s dela na estante enquanto esperava que se movesse até a cozinha e lhe trouxesse o copo. Depois ele se levantava e emborcava o copo todo, de pé, ela lhe observando ao lado. Adorava as analogias de revista sobre o homem insaciável e queria lhe mostrar o quão insaciável era, virando o copo d’água gelada de uma vez só, sem titubear por que está quente demais na cidade e eles, afinal, precisavam fazer o que precisavam fazer.




Era como explorar um reduto impenetrável. Entrar no seu apartamento, ela tão freqüentemente sozinha e sentar ao seu lado e ouvir as instruções de como deveria proceder com o trabalho com os arquivos. Tudo tão alvo, tão perfeitamente arrumado na sua simetria feminina. Aquele apartamento nas voltas da Independência em uma segunda-feira de calor tão insuportável era como entrar em uma outra dimensão. O suor, abundante tão somente pelo sol que veio recebendo nas costas durante todo o trajeto que caminhara, continuava a se manifestar naquela profusão agora provocada pelo nervosismo. Nem o copo d’água conseguia aplacar o seu calor: ela tão próxima e, ainda que tão doce, mantendo o rígido distanciamento que os separava – era uma professora, por certo; ele, um aluno se dispondo a lhe ajudar com alguns trabalhos no computador (por que os professores nunca sabem como mexer direito no computador) naquele verão de cidade quase fantasma, sol tão escaldante quanto os pensamentos que lhe surgiam em pontadas cada vez que entrevia um pedaço de suas pernas pela fenda pequena da saia. Conseguia estabelecer uma figura de entendimento pelo sorriso, o sorriso e o menear de cabeça; sim, entendia perfeitamente. Mas lhe passava pela cabeça o que ia à mente da professora. Pensava se sentia falta de um homem, tão sozinha sabia que era. Não podia estar somente e o tempo todo voltada para seus interesses acadêmicos, os assuntos do seu mestrado. Em algum momento aquele apartamento deveria lhe parecer alvo demais, todos os espaços deveriam lhe parecer grandes em demasia, sua cama por certo pareceria em determinado momento muito fria e lhe faria sentido esquentar o outro lado com um corpo que não fosse somente o seu. E ele não lhe pareceria assim tão moço, tão inexperiente. Evidente que algum encanto havia de encontrar nele, também. Ela tinha o seu charme recatado que ele via e por vezes somente sentia vontade de embalá-la, confortá-la tão carinhosamente. Por vezes lhe surgiam verdadeiras indecências, perversões de toda ordem com que gostaria de submetê-la, tão frágil parecia já naqueles seus idos trinta anos. E ele haveria de chamar-lhe a atenção de alguma forma – senão com seus braços definidos ao menos com a jovialidade que ela como um intelectual acharia atraente. Que balzaquiana não se imaginou nos braços de um rapaz como ele?




Mas eram os pensamentos somente. Devaneando desta maneira tão desmedida perderia todas as explicações que ela lhe dava. E se por acaso se atrevesse a um ato mal calculado poria pôr fim a todos os seus privilégios de bolsista e aí seria o inferno. O constrangimento seria tão maior do que o silêncio que se impunha naquele apartamento à tarde. Viriam seus gritos, seus impropérios e ele já se imaginava ouvindo coisas como indecência, desrespeito e outras que transformariam sua voz tão naturalmente agradável em uma sucessão de manifestos indignados. Seria posto para fora, não tardaria para que soubessem seus atos na faculdade e iria se queimar em definitivo. Por isso não havia sentido em continuar com suas pueris fantasias. Nem se enganar achando que a fenda da sai dela se encontrava um tanto mais aberta desde que ela fora até o quarto buscar uma pasta e voltara. Nem pensar em quantos botões abertos sua blusa tinha então então, quando agora parecia demonstrar tão mais dos seus firmes seios. Muito menos ser tão maldoso por achar que ela pretendia alguma coisa por descansar a mão na sua coxa, tão próximo que ele precisava controlar o involuntário movimento de sua bermuda, enquanto lhe perguntava se ele não gostaria de refrescar-se um pouco no banheiro, afinal, tão quente está para quem fica na cidade, não é mesmo?

23 dezembro 2009

A semana

Ele vai chegar cedo pela manhã e entornar uma lata de coca-cola - das pequenas, estas que se vendem pelo preço sugerido de um real - e mais algum salgado frito no impiedoso óleo de gorduras saturadas. Ele não vai se importar e nem lembrar de, há pouco tempo, ter sido semi-bem sucedido em uma dieta não tão rigorosa que lhe extirpou alguns quilos da glútea banha que lhe adorna os contornos do abdômem, compondo bizarra pochete de volta inteira.

Ainda pela manhã eles farão piada sobre os últimos e-mails bizarros que rondam todas as caixas em todas as repartições onde não existe sistema anti-spam para dar cabo daquelas grosserias virtuais. E eles verão o e-mail do sujeito que se rebentou em um imprudente acidente de trânsito; vão olhar as fotos de esguelha, com asco o suficiente para não parecerem carniceiros sem sensibilidade. Da rua se ouvirá as risadas nervosas do seu Ataíde, responsável pelo almoxarifado e que estará vendo o mesmo e-mail, sozinho.

Antes da hora do almoço, o office-boy vai se masturbar no banheiro pensando nas coxas da analista de sistema - tão gostosa ela, Soraia, na leveza daquele vestido de malha que lhe gruda ao corpo conforme os folículos por onde gotejam seus suores alcançam índice de vazão em quantidade demasiada para o parco sistema de refrigeração daquela sala. Mas que diabos, deve ter sido o Maícon quem deixou novamente a janela aberta. Quando seu Eli adentrar à sala repentinamente, como sempre gosta de fazer, Soraia irá se retesar em sua cadeira e continuar a dedilhar os números e códigos que, até o final da semana, devem resolver o problema da intranet deficitária.

Enquanto caminha em frente à repartição, Eduardo irá apertar os dedos de Marcela só um tanto mais forte. Por que acaba de cruzar por eles a moça com o carrinho de bebê e - não que seja algum tipo de pressão, na verdade vai ser um ato inconsciente - Eduardo se sentirá emocionado e já antevê um novo jantar para tentar convencer Marcela de que sim, chegou a hora.

Mariano vai caiar o meio-fio de maneira displicente, esperando o tempo necessário para que aquele casal cruze a rua. Amaldiçoará mais uma vez o estado de suas mãos, ressecadas pelo contato com a cal e fará outra anotação mental para se inscrever no concurso público para servente da escola aquela, perto de casa. Antes de mergulhar a brocha no balde, vai mirar com olhos gulosos a menina que aperta o botão para atravessar na faixa de segurança.

A semana parecerá comprida demais, os tediosos barrigudos de gravata larga irão comentar pela enésima vez quão quente está, os taxistas vai dizer que sim, o ar-condicionado está estragado, abre a janela que fica melhor, a ascensorista não vai terminar a palavra-cruzada categoria fácil porque não lembra que o sobrenome do Paulo Cuoco é Cuoco, Ana vai querer fazer sexo novamente e Celso vai preferir tatinha_safada17 antes de desligar o computador e estar com sono demais, a velha Tônia vai ligar para o número errado e pedir pelo Andrade, alguém fará um trocadilho e um outro desistirá de correr depois do trabalho, pelo menos três ou cinco, só naquela quadra irão se sentir felizardos pela quantidade de seguidores virtuais, um paquistanês de 17 ou 20 irá contra-atacar com um código de script que vai revolucionar a web por uns cinco dias, dois filósofos acharão a vida superficial demais, ninguém vai ficar tão mais rico assim, mas os gráficos da bolsa vão ser animadores, o algodão doce vai derreter e naquela quitanda que nem é tão grande, a Tatiele vai gritar pela mãe, que compra detergente do outro lado do corredor.



21 dezembro 2008

Assim

Num dia quente pra caralho, suarentos copos ostentam o que já foi refresco, cerveja ou outra coisa gelada qualquer. E neste dia quente, o ventilador, cumpridor, segue imbatível na sua monótona missão de fazer menos insuportável as horas que completam o dia. Num dia quente, tão terrivelmente quente como hoje, sair à rua e notar o sol que consegue refletir-se até no concreto da calçada traz uma modorra quase insuportável, um sentimento de não estar de todo. E, quando se está, de não querer estar ali - e de torcer para que o dia acabe, tão somente. Tão pouco desejado é um dia insuportavelmente quente, como hoje. Em um dia quente assim, os pensamentos rumam para uma praia idealizada, um recanto paradisíaco qualquer que é longe demais de tudo o que está aqui, ao nosso alcance e para nosso alívio. Em um dia quente, tão estupidamente quente como hoje, até este recanto paradisíaco, quando alcançado, não será a resposta para as expectativas altas demais que um dia quente é capaz de gerar. Nenhum paraíso refrescante é refrescante o suficiente em um dia tão terrivelmente quente como hoje.

29 junho 2008

Me

Acordei com o solavanco que sempre faz quando dobra a esquina da Azenha e me desescorei rápido do cara que dormia do meu lado – sempre acabo dormindo por sobre os ombros das outras pessoas nestas viagens de ônibus durante as madrugadas. Os olhos meio embaçados ainda, achei estranho quando reconheci o cara que catava as moedas nos bolsos da calça para pagar a tarifa para o cobrador: era eu, só que bem mais sujo, roto, os cabelos mais desgrenhados do que de costume, mas não tive dúvida. Era eu mesmo. Segui-o [me?] com o olhar para ver onde ia sentar, mas já não tinha mais lugar.


Quando passou [ei?] pelo meu banco, olhou [ei?] no fundo dos meus olhos e deu [ei?] um risinho me reconhecendo, demonstrando intimidade.

07 dezembro 2005

O constrangimento inicial poderia crescer enormemente tal qual uma bexiga inflada com sofreguidão por uma criança de, não sei, sete, oito anos, talvez. Poderia também ceder lugar a uma espécie de comichão, uma ardência em sua pele que por fim tomaria formas purulentas e se tornaria desagradável, peça enojante de se mirar em uma noite como aquela. Como parecia haver algum tipo de complô divino teimando em não minimizá-lo ao extremo tolerável por uma pessoa de sua índole e seu sentimentalismo de baixa auto-estima, o que resultou, tão somente foi uma coceira - nem cheguemos a tanto -, uma irritação apenas. Ainda que daquelas insistentes, um ponto no seu rosto a emanar com constância absurda ordens para que seus dedos fizessem demorados movimentos de vai-e-volta, as unhas a arrancar microscópicas porções de epitélio, seu coração a afogar-se em macroscópicas dosagens de amargura. E o constrangimento não se importando e permanecendo inerte.

Pequeno trecho da novela que não estou escrevendo por que não tenho tempo.

26 agosto 2005

Agora a pouco, e não faz nem dez minutos, sério, um velho me olhou demoradamente e eu pensei por um instante que ele fosse me pedir comida ou algo assim. Na pior das hipóteses, que lhe conseguisse alguns trocados por que tinha que voltar para Viamão - e eles sempre têm que voltar para Viamão. Eu demorei alguns instantes sobre o olhar do velho que me inquiriu demoradamente só com o olhar, antes de verbalizar a indagação que não tinha a menor idéia que lhe viesse à boca. Não sei se ele hesitou um instante ou se a primeira palavra dita assim, como quem vai formular uma teoria absolutamente revolucionária sobre o assunto, foi solta propositalmente. Sei que ele murmurou, olhando no fundo dos meus olhinhos castanhos: "Felicidade..." e continou, "Você acha que é feliz?". Eu pensei, pronto, um fundamentalista para me falar das coisas lindas que estão guardadas para mim no reino dos céus ou me convencer da lógica da iluminação racional. Poderia responder pro velho um simples "sim", ou "não", mas - por um destes mistérios universais que nos fazem crer que conceder alguns instantes a alguém que não conhecemos e, ainda que venha com perguntas pouco usuais a serem feitas a um desconhecido, na frente de um bar, não chega a ser o maior dos esforços que podemos fazer no mundo - me detive por um instante e pensei sobre minha resposta. Acabei lhe falando que estou convencido que a felicidade não possui esta permanência que me permitisse a resposta mais não-titubeante do mundo, como quem diz "sim, sou negro", ou "não, odeio Ginger Rogers". Divaguei um tanto, confesso, até um tanto demais para um velho que, no final das contas, parecia esperar a resposta mais simples possível (para me oferecer a receita da felicidade? para me dizer que a felicidade é um utopia?, enfim...) e lhe contei dos instantes, lampejos de felicidade com as coisas mais diversas que me acometem. Ou dias, temporadas em que posso dizer "sim, sou feliz", bem como aquelas em que posso dizer que a desgraça habita sobre o meu ser. Confesso que estava a um ponto de convidar o velho pra uma cerveja, fazê-lo meu companheiro nesta noite de sexta - ao menos por alguns minutos, conversar com alguém cuja história anterior me era completamente incógnita me pareceu uma proposta das mais tentadoras. Antes que eu tivesse a oportunidade de qualquer gesto desta espécie, no entanto, o velho, prático como são os velhos que cheiram a talco, me redargüiu "E, afinal", riu, como quem fala uma verdade inabalável, "quem pode dizer que é realmente feliz, hein, meu filho?", e, ante minha estranheza com a rapidez de seu argumento, repetiu, "Hein? Quem pode dizer?".